
Por Akracia – Fenikso Nigra
A Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria enfrenta, mais uma vez, ofensivas que ameaçam sua existência. A combinação de ataques militares turcos, pressão de grupos armados apoiados por Ancara e o abandono estratégico por parte de potências ocidentais revela um padrão que se repete há anos. Não se trata de eventos isolados ou decisões pontuais de segurança, mas de uma estratégia coordenada para liquidar uma experiência política que demonstra, na prática, a viabilidade da organização horizontal sem Estados centralizados.
Rojava não é uma utopia distante nem um experimento teórico. Desde 2012, comunidades curdas, árabes, siríacas, assírias e outras desenvolveram um sistema baseado no Confederalismo Democrático, estruturando assembleias populares, rotatividade de funções, coparticipação de gênero obrigatória em todas as instâncias decisórias e projetos de sustentabilidade ecológica. Enquanto combatiam o Estado Islâmico e protegiam centenas de milhares de pessoas deslocadas, organizaram sistemas de educação, saúde, produção agrícola e justiça restaurativa sem depender de burocracias estatais hierárquicas. As comunidades gerenciam coletivamente recursos como campos petrolíferos e terras agrícolas, estabelecem cooperativas de produção e mantêm estruturas de segurança baseadas em defesa territorial, não em exércitos profissionais permanentes.
A hostilidade sistemática contra Rojava revela uma verdade incômoda para Estados autoritários: experiências de autogoverno funcionam bem demais para serem toleradas. A Turquia, membro da OTAN e segunda maior força militar da aliança, há décadas trava guerra contra qualquer aspiração curda de autonomia. A existência de Rojava representa ameaça direta a essa política, demonstrando que comunidades curdas podem se organizar democraticamente, incluir outras etnias em estruturas horizontais e produzir sociedade mais justa que os Estados autoritários da região. Por isso, a estratégia turca combina bombardeios aéreos, invasões terrestres com controle de territórios, mudanças demográficas forçadas e financiamento de grupos armados para esmagar qualquer possibilidade de consolidação da autonomia.
O padrão de abandono pelas potências ocidentais também não é novo. Os Estados Unidos utilizaram as Forças Democráticas Sírias como força terrestre principal na luta contra o Estado Islâmico, reconhecendo sua eficácia militar e organização. Quando conveniente, porém, Washington abandona seus aliados sob justificativas geopolíticas variadas. Em 2019, a retirada repentina de tropas da fronteira sírio-turca permitiu ofensiva que resultou em mortes, deslocamentos massivos e tomada de territórios anteriormente autogovernados. A União Europeia e outros governos ocidentais mantêm silêncio estratégico enquanto armas europeias são utilizadas em operações que atingem populações civis. Essa dinâmica evidencia que alianças com potências imperialistas são sempre instrumentais e descartáveis.
A resistência popular em Rojava tem sido consistente ao longo dos anos. Comunidades organizam defesa territorial através de mobilizações populares, assembleias locais decidem coletivamente sobre permanência ou evacuação, e diferentes grupos étnicos e religiosos manifestam solidariedade mútua, demonstrando que o projeto transcende divisões impostas por nacionalismos estatais. A participação das mulheres na defesa militar e na organização política representa ruptura radical com estruturas patriarcais que dominam a região. Essas escolhas coletivas reforçam o caráter fundamentalmente democrático da experiência, onde decisões sobre guerra e paz não são tomadas por lideranças distantes, mas por quem será diretamente afetado.
Historicamente, movimentos curdos por autonomia sempre enfrentaram repressão sistemática. No início do século XX, acordos pós-Primeira Guerra Mundial dividiram territórios curdos entre Turquia, Síria, Iraque e Irã, garantindo que nenhum Estado curdo pudesse emergir. Ao longo do século, esses países implementaram políticas de assimilação forçada, proibição de língua e cultura, negação de cidadania e violência militar contra qualquer manifestação de identidade ou autonomia curda. A guerra civil síria criou vácuo de poder que permitiu às comunidades estabelecer estruturas autônomas, mas essa autonomia sempre foi vista como ameaça existencial por potências regionais e internacionais que dependem da fragmentação étnica para manter controle territorial.
A lógica é clara: governos autoritários e potências imperialistas não toleram exemplos funcionais de organização horizontal. Rojava demonstra que comunidades podem gerir recursos coletivamente, resolver conflitos através de mediação em vez de encarceramento massivo, garantir participação feminina em todas as esferas de decisão e integrar diferentes grupos étnicos e religiosos em estruturas democráticas reais. Isso desmente narrativas estatais de que hierarquia e autoridade centralizada são necessárias para ordem social. Por isso, Rojava precisa ser neutralizada antes que inspire outros territórios a questionar a inevitabilidade do Estado.
As contradições das potências ocidentais são especialmente reveladoras. Estados Unidos proclamam defender democracia enquanto abandonam aliados democráticos por conveniência geopolítica. A União Europeia condena violações de direitos humanos enquanto vende armas usadas em operações militares contra civis. A Turquia, apresentada como parceira democrática na OTAN, financia grupos armados de orientação jihadista e implementa limpeza étnica em territórios ocupados. Governos que massacraram centenas de milhares durante guerras civis são apresentados como alternativas viáveis para administrar territórios anteriormente autogovernados. Essas contradições revelam que o problema central não é terrorismo, segurança ou estabilidade regional, mas a existência de alternativas ao poder estatal centralizado.
A experiência de Rojava também expõe limites das estratégias de dependência de alianças militares com Estados. A necessidade de apoio aéreo, armas pesadas e reconhecimento internacional cria vulnerabilidades estruturais que potências exploram sistematicamente. Cada concessão feita para manter alianças enfraquece autonomia política e cria contradições internas. Essa dinâmica não é exclusiva de Rojava, mas característica de movimentos revolucionários que buscam acomodação com poderes estabelecidos. A questão central permanece: é possível construir autonomia genuína enquanto se depende de Estados para sobrevivência militar?
A solidariedade internacional com Rojava não pode se limitar a declarações de apoio ou campanhas de conscientização. Significa pressionar governos que fornecem armas e apoio político às ofensivas, organizar boicotes econômicos e políticos, construir redes de apoio material direto às comunidades e divulgar amplamente as contradições das políticas ocidentais. Mais importante ainda, significa aprender com a experiência de Rojava e aplicar princípios de organização horizontal, assembleias populares e autogestão em territórios próprios. Cada iniciativa que fortalece autonomia coletiva e reduz dependência de Estados hierárquicos é forma concreta de solidariedade que vai além do apoio simbólico.
Rojava demonstrou durante mais de uma década que outra forma de organização social é viável. Comunidades multiétnicas podem conviver democraticamente quando estruturas horizontais substituem dominação estatal. Mulheres podem participar igualmente de todas as decisões quando sistemas patriarcais são desafiados institucionalmente. Recursos podem ser geridos coletivamente para atender necessidades reais em vez de gerar lucros privados ou financiar burocracias. As ofensivas militares e o abandono político buscam destruir essas demonstrações práticas porque elas inspiram esperança e questionamento em outros territórios. Se Rojava enfrentar derrotas, não será por inviabilidade da autogestão, mas pela violência organizada de Estados que não podem tolerar alternativas ao seu monopólio do poder.
A lição fundamental de Rojava para movimentos de transformação social em qualquer lugar é que autonomia genuína exige construção de capacidades próprias de defesa, produção e organização política. Depender de Estados, mesmo temporariamente, cria vulnerabilidades que serão exploradas quando a aliança deixar de ser conveniente. A construção de redes internacionais de apoio mútuo entre territórios autogovernados, baseadas em solidariedade horizontal e não em mediação estatal, representa caminho mais sustentável que alianças com potências imperialistas. Cada território que constrói autonomia fortalece outros ao demonstrar possibilidades e ao criar conexões diretas que contornam estruturas de poder estabelecidas.
Na luta somos pessoas dignas e livres!





