
Por Akracia – Fenikso Nigra
Você vota. Sente que participou. Que exerceu cidadania. Que a democracia funcionou. Agora volte para casa e obedeça as leis que não escreveu, pague os impostos que não determinou, trabalhe sob regras que não negociou. Essa é a participação que permitem: escolher quem vai mandar em você pelos próximos quatro anos.
Chamam isso de política. Mas política, na prática cotidiana do Estado moderno, não é sobre participar das decisões que afetam sua vida. É sobre consentir com um sistema que administra sua obediência de forma eficiente.
O processo é engenhoso. Primeiro, concentram todo poder decisório em instituições distantes: parlamentos, ministérios, tribunais. Depois, oferecem a ilusão de influência através do voto periódico. Você escolhe entre candidatos pré-selecionados por partidos com recursos para competir. Esses candidatos defendem variações mínimas do mesmo sistema econômico, da mesma estrutura de poder. A margem de escolha real é minúscula, mas o ritual é tratado como sagrado.
Entre eleições, sua participação se resume a obedecer. Não importa se você concorda com a lei: ela se impõe pela força. Não importa se a decisão do governo te prejudica: você custeou o salário de quem a tomou. A representação funciona em uma direção só: eles decidem, você acata.
Observe a etimologia. “Administração” vem do latim: ad (para) + ministrare (servir). Mas quem serve quem? A burocracia estatal não existe para servir a população — existe para processar, catalogar, controlar. Cada documento, cada fila, cada protocolo é um lembrete: você está sendo administrado. Como gado é administrado. Como recurso é administrado.
A democracia ateniense, com todos seus defeitos e exclusões, ao menos praticava decisão direta em assembleias. Cidadãos (ainda que apenas homens livres) debatiam e votavam leis na ágora. A democracia moderna inverteu a lógica: criou intermediários profissionais cuja função é transformar vontades diversas em obediência uniforme.
Partidos de esquerda prometem administrar a obediência de forma mais justa. Partidos de direita prometem administrá-la de forma mais eficiente. Mas a estrutura permanece: poucos decidem, muitos obedecem. A política eleitoral não questiona essa divisão — a reproduz em cada ciclo.
Quando movimentos sociais param de pedir permissão e começam a agir diretamente, o sistema revela sua face. Ocupações, greves selvagens, bloqueios — qualquer ação política real, não mediada pelas instituições oficiais, é tratada como ameaça à ordem. Porque é. A ordem depende de você canalizar toda energia política para rituais controlados que não transformam estruturas de poder.
A verdadeira participação política assusta o Estado: pessoas organizando produção sem patrões, resolvendo conflitos sem tribunais, tomando decisões sem representantes. Por isso reprimem cooperativas radicais, criminalizam ocupações, infiltram movimentos horizontais. Participação real é perigosa. Administração de obediência é segura.
Você só participa de verdade quando sua voz tem peso direto na decisão. Quando pode construir alternativas sem pedir autorização. Quando a organização é horizontal e revogável a qualquer momento. Tudo menos que isso é administração: você é o objeto, não o sujeito.
Política não deveria ser sobre escolher quem vai te governar. Deveria ser sobre governar coletivamente, sem intermediários. Mas isso exigiria destruir toda estrutura que transforma cidadania em obediência consentida.
Enquanto isso não acontece, continuamos votando e chamando de participação.





