Por Akracia – Fenikso Nigra

Chamam de participação aquilo que já foi decidido antes de você chegar. A política moderna não emerge da vontade coletiva — ela a domestica. Seu propósito não é realizar anseios populares, mas manter corpos produtivos, mentes previsíveis e revoltas administráveis.

Desde cedo, pessoas aprendem a obedecer. Na escola, seguir regras sem questionar vira virtude. No trabalho, cumprir ordens é sinônimo de responsabilidade. Na política, escolher entre opções pré-aprovadas recebe o nome de cidadania. O treino é contínuo e eficiente.

Votar, opinar, assinar petições: tudo isso é permitido, até incentivado, desde que a estrutura permaneça intocada. O sistema não teme opinião; teme autonomia. Questionar gestores é aceitável. Questionar o próprio jogo não é.

A obediência não brota naturalmente. Ela é fabricada, reforçada diariamente, premiada em cada gesto de conformidade. Quem aceita as regras do tabuleiro é celebrado como “cidadão consciente”. Quem questiona o tabuleiro vira ameaça, extremista, ingênuo.

As leis não existem para organizar a vida em comum — existem para codificar a submissão. A política institucional não resolve conflitos sociais; ela os congela, os administra e os transforma em combustível para sua própria sobrevivência.

Participar virou sinônimo de escolher quem irá gerenciar seu controle. Não há escolha real quando todas as opções levam ao mesmo lugar. A urna não liberta — ela legitima. As promessas não transformam — elas adiam.

Toda estrutura de dominação depende de cooperação cotidiana. Cada obediência não questionada, cada esperança depositada “no próximo ciclo”, reforça as correntes invisíveis que mantêm tudo como está. A política institucional não foi desenhada para emancipar — foi desenhada para conter.

Autonomia não se vota. Ela nasce na recusa diária à domesticação, na construção de relações que não reproduzam hierarquias, na coragem de imaginar e praticar formas de organização sem tutela do Estado ou do mercado.

Na luta somos pessoas dignas e livres!

Política não é participação, é administração de obediência
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