
Por Akracia – Fenikso Nigra
Toda revolta organizada precisa virar partido. Toda insatisfação popular precisa de sigla, estatuto, diretório nacional. Dizem que é assim que se muda o sistema: entrando nele, disputando eleições, conquistando cadeiras. Mentira. Partidos não transformam o sistema. O sistema transforma os partidos.
A institucionalização é uma armadilha refinada. Começa com a sedução: “vocês têm boas ideias, mas precisam de estrutura formal para serem levados a sério”. Exigem registro, hierarquia interna, prestação de contas para tribunais eleitorais. Cada exigência burocrática é uma corrente. Cada adequação às regras do jogo é um passo para longe da transformação radical.
Observe o padrão histórico. O Partido dos Trabalhadores no Brasil nasceu das greves operárias do ABC, dos movimentos sociais, da base sindical combativa nos anos 1980. Prometia democracia interna, ruptura com o sistema, socialismo. Quatro décadas depois, administra o capitalismo com competência, reprime movimentos sociais, governa para manter a ordem que prometeu destruir. Não foi traição individual. Foi lógica institucional.
O Syriza na Grécia emergiu da indignação contra austeridade, prometeu rasgar os memorandos da troika, defendeu soberania popular. Chegou ao poder em 2015. Semanas depois, aplicou o ajuste fiscal mais brutal da história recente grega. A estrutura partidária e estatal constrangeu qualquer tentativa de ruptura. O partido não mudou o Estado. O Estado domesticou o partido.
Podemos na Espanha, Bloco de Esquerda em Portugal, Die Linke na Alemanha — variações do mesmo roteiro. Nascem de movimentos, falam em transformação, entram nas instituições. A instituição os devora. Viram administradores competentes da própria jaula.
O constrangimento não é só ideológico. É material. Partidos dependem de recursos para campanhas. Recursos vêm de doações empresariais, fundos públicos atrelados a desempenho eleitoral, estruturas que exigem manutenção cara. A dependência financeira domestica o discurso. Não se morde a mão que financia.
É estrutural. Parlamentos operam por maioria, coalizões, negociações. Mesmo um partido radical precisa negociar com conservadores para aprovar qualquer coisa. Cada negociação é uma concessão. Cada concessão afasta a transformação. No fim, a “política possível” é sempre a que não ameaça as bases do sistema.
É temporal. Eleições são de quatro em quatro anos. Transformação radical exige tempo, conflito, persistência para além de ciclos eleitorais. Partidos pensam em votos na próxima disputa, não em revolução social. A urgência eleitoral mata a estratégia revolucionária.
A função real dos partidos de esquerda no sistema não é transformá-lo. É canalizar insatisfação para dentro das instituições, onde pode ser gerenciada, moderada, neutralizada. São válvulas de escape. Absorvem energia que poderia ir para greves selvagens, ocupações, organização autônoma. Transformam revolta em voto, ação direta em esperança eleitoral.
Enquanto isso, quem realmente decide permanece intocado. Corporações não são eleitas. Bancos centrais são “técnicos”, acima da política. Judiciário é vitalício. Forças armadas respondem a hierarquia própria. O poder real não está nas instituições que partidos disputam. Está nas estruturas que constrangem essas instituições.
Vertentes anarquistas sempre souberam disso. Bakunin alertou Marx: tomar o Estado não destrói dominação, apenas troca quem domina. A Comuna de Paris em 1871 não elegeu representantes — criou conselho revogável a qualquer momento. A CNT na Espanha recusou virar partido, manteve autonomia sindical. Foi esmagada por fascistas e comunistas, mas não se vendeu.
Transformação radical não vem de dentro das instituições. Vem de fora, contra elas. Vem de greves que param a economia, de ocupações que demonstram outro modo de produzir, de redes de apoio mútuo que provam a desnecessidade do Estado.
Partidos são o oposto disso. São domesticação institucional da energia transformadora. Cemitérios onde revoluções vão morrer com dignidade eleitoral.
Quem quer mudar o jogo não pode jogar pelas regras de quem quer mantê-lo.
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