Por Akracia – Fenikso Nigra

O assassinato de Marielle Franco não foi um desvio da ordem — foi sua confissão mais honesta. Mulher negra, favelada, lésbica e socialista, ela confrontava o que o poder prefere manter na sombra: a militarização da vida periférica, as redes milicianas, o arranjo que costura Estado, capital e controle territorial no Rio de Janeiro. Não a mataram apesar do sistema. A mataram porque ele funciona.

Anos de pressão. Investigação. Condenação. E a máquina seguiu girando.

A síntese anarquista não celebra essa condenação como vitória — celebrar seria aceitar os termos do jogo. Investigou-se sob pressão popular, puniram-se alguns operadores, restaurou-se legitimidade suficiente para continuar. O Estado não falhou: administrou o escândalo com a competência de sempre.

O Estado não é neutro e nunca foi. É uma forma de organizar o poder — monopólio da violência, hierarquia territorial, proteção da propriedade — e cumpre essa função com ou sem democracia, com ou sem eleições, com ou sem discurso de direitos humanos. No Rio, as milícias não são sua anomalia: são sua extensão. Extraem renda, disciplinam corpos, protegem interesses imobiliários com a cumplicidade estrutural de quem deveria combatê-las. Sentenças não desmontam isso. Gerenciam.

A condenação tem peso humano real — para a família, para os movimentos, para cada mulher negra que resiste sabendo o preço. Isso não se descarta. Mas é preciso dizer o que ela não tocou: a rede miliciana segue operando. A economia política do controle territorial segue intacta. A militarização das periferias não recuou um milímetro. Responsabilizaram-se pessoas. As estruturas que as produziram continuam de pé.

A energia política que Marielle despertou foi real e poderosa. Também foi, em grande medida, capturada. Transformada em capital eleitoral, em representação simbólica progressivamente descolada das bases que a geraram. Isso não é traição individual — é o funcionamento ordinário das estruturas partidárias, desenhadas precisamente para absorver revoltas e devolvê-las domesticadas. A síntese anarquista não recusa disputas táticas no campo institucional, mas recusa frontalmente a ilusão de que a emancipação virá das mesmas estruturas que organizam a dominação.

A alternativa não é espera. É construção agora, nas brechas, nos territórios: assembleias com poder deliberativo real, cooperativas que rompam com a dependência patronal, redes de apoio mútuo que substituam abandono por cuidado organizado, mediação comunitária que dispense a polícia. Não utopia — prática. Já acontece nas favelas, sem esse nome, com essa lógica: horizontalidade, autogestão, recusa da tutela do Estado e do mercado.

Marielle não era símbolo. Era organizadora. Base, método, pauta concreta, coragem de enfrentar estruturas armadas com política de verdade. Seu legado não cabe em campanha nem em homenagem: é programa de ação. Enraizamento popular. Fiscalização permanente do poder. Autonomia nos territórios. Recusa de qualquer pacto que exija silêncio sobre quem mata e por quê.

Nenhuma sentença transformará o Estado. Nenhuma eleição abolirá as hierarquias que ele organiza. A liberdade — se existir — será construída coletivamente, horizontalmente, fora de qualquer estrutura que precise da nossa submissão para funcionar.

Clareza, hoje, é resistência.

Presente.

Marielle e o sistema que mata
Tags: