Por Akracia – Fenikso Nigra

A taxa básica de juros no Brasil alcançou 13,25% ao ano em janeiro de 2025, com previsão de chegar a 15%. O Comitê de Política Monetária do Banco Central apresenta essa decisão como medida técnica necessária para controlar a inflação. Porém, cada ponto percentual dessa taxa representa escolhas concretas sobre distribuição de recursos, acesso ao crédito e prioridades econômicas do país.

Quando o Banco Central eleva os juros, afirma estar combatendo a inflação. O mecanismo funciona assim: juros altos encarecem empréstimos e financiamentos, reduzindo o consumo e a atividade produtiva. Menos dinheiro circulando deveria conter a alta de preços. Na prática, essa política transfere renda de quem trabalha e produz para quem vive de aplicações financeiras. Os títulos públicos que rendem conforme a taxa básica são pagos com recursos do orçamento federal, recursos que poderiam financiar saúde, educação ou infraestrutura.

As consequências imediatas revelam o impacto dessa decisão. Famílias que planejavam financiar moradia enfrentam prestações inviáveis. Pequenos negócios que dependem de crédito para capital de giro veem suas margens desaparecerem. Investimentos produtivos tornam-se menos atrativos quando aplicações financeiras garantem rendimentos elevados sem risco. Enquanto isso, bancos e investidores celebram lucros recordes.

A narrativa oficial afirma que não há alternativa. Inflação precisaria ser combatida dessa forma, como se fosse lei natural da economia. Essa apresentação oculta que existem outras causas para alta de preços além do excesso de demanda. No Brasil recente, alimentos básicos subiram devido a fatores climáticos e variação cambial. Carne, ovos e café encareceram por questões de oferta, não porque as pessoas estivessem consumindo demais. Elevar juros não resolve problemas de produção, mas pune toda a população.

A própria inflação tem dimensão política frequentemente ignorada. Grandes empresas com poder de mercado reajustam preços conforme seus interesses, não apenas em resposta a custos. Distribuidoras de combustível, redes de supermercados e indústrias concentradas definem margens de lucro que impactam diretamente o custo de vida. Atacar a inflação apenas pelo lado da demanda, através de juros, significa aceitar essas estruturas de poder como naturais.

A comparação internacional revela escolhas políticas disfarçadas de necessidades técnicas. Outros países enfrentam pressões inflacionárias com combinações de políticas: controle de preços em setores estratégicos, fortalecimento da concorrência, investimento em infraestrutura para aumentar oferta. No Brasil, a ferramenta única é a taxa de juros, conveniente para quem lucra com ela.

Experiências históricas demonstram outras possibilidades. Comunidades quilombolas no Brasil mantêm sistemas de crédito rotativo baseados em confiança mútua e necessidade coletiva. Fundos comunitários financiam pequenos empreendimentos sem juros ou com taxas simbólicas definidas pela própria comunidade. Essas práticas demonstram que organizar crédito e investimento não exige submissão a mercados financeiros globalizados.

Na Argentina, durante as crises econômicas do início dos anos 2000, redes de troca e bancos comunitários permitiram que bairros inteiros mantivessem atividade econômica quando o sistema bancário tradicional entrou em colapso. Moedas locais e sistemas de crédito mútuo sustentaram famílias e pequenos negócios. No Uruguai, cooperativas de crédito controladas por trabalhadores oferecem alternativas ao sistema bancário comercial há décadas.

O argumento de que juros altos atraem investimento estrangeiro merece atenção crítica. Capital internacional que vem ao país apenas para aplicar em títulos públicos não constrói fábricas, não gera empregos, não desenvolve tecnologia. Trata-se de rentismo puro: dinheiro que entra, recebe juros elevados pagos com impostos da população, e sai novamente. Defender essa dinâmica como desenvolvimento econômico revela prioridades claras.

Diversas vertentes anarquistas enfatizam a autogestão dos recursos produtivos e a decisão descentralizada sobre investimentos. Não se trata de negar a complexidade da economia contemporânea, mas de questionar por que decisões fundamentais sobre crédito, juros e prioridades de investimento precisam estar concentradas em instituições hierárquicas distantes de quem efetivamente produz e vive as consequências.

Reconhecer que a taxa de juros não é instrumento neutro abre caminho para ação prática. Cooperativas de crédito controladas por quem usa seus serviços podem definir taxas baseadas em sustentabilidade mútua, não em maximização de lucro. Bancos comunitários em periferias urbanas brasileiras demonstram viabilidade de sistemas financeiros organizados segundo outras lógicas. Redes de economia solidária constroem circuitos de crédito e troca baseados em reciprocidade.

A questão central não é técnica, mas política: quem decide sobre os recursos coletivos e segundo quais critérios? Quando o Banco Central eleva juros a 15%, não está apenas combatendo inflação. Está escolhendo proteger rentistas, encarecer crédito produtivo, frear atividade econômica e transferir renda para o topo da pirâmide. Essas escolhas podem e devem ser contestadas.

Na luta somos pessoas dignas e livres!

Juros a 15%: Quem Decide e Quem Paga
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