Akracia – Fenikso Nigra

Dizem que a família é sagrada. Natural. Base da sociedade. Berço do amor incondicional. Mas observe com atenção: essa instituição que romantizam funciona como primeira escola de hierarquia, obediência e submissão. Não por acidente. Por design.

A família nuclear moderna — pai, mãe, filhos sob o mesmo teto, unidade econômica fechada — não existiu sempre. É invenção recente, consolidada com o capitalismo industrial. Antes, crianças circulavam entre parentesco estendido, comunidades criavam coletivamente, laços de sangue importavam menos que laços de cooperação. A privatização da reprodução social dentro da família serviu a propósitos específicos: produzir trabalhadores disciplinados e cidadãos obedientes.

Pense na estrutura. No topo, a autoridade paterna (historicamente masculina, ainda dominante). Abaixo, a mãe com funções definidas. Na base, crianças sem voz nas decisões que afetam suas vidas. Hierarquia clara, inquestionável. A criança aprende desde o berço: existem pessoas que mandam e pessoas que obedecem. Contestar autoridade familiar é “rebeldia”, “falta de respeito”, “ingratidão”. Mesmas acusações que o Estado usa contra quem o desafia.

O direito de família codifica essa hierarquia. Até poucas décadas atrás, pais tinham “pátrio poder” — literalmente, poder patriarcal sobre filhos, reconhecido em lei. Podiam bater, controlar, dispor. Mulheres eram propriedade legal dos maridos. Mudou? Parcialmente. A estrutura permanece: família é unidade onde adultos exercem autoridade sobre crianças com aval estatal. O Estado só intervém quando a violência ultrapassa limites toleráveis — limites que ele define.

A função econômica é transparente. A família é responsável por custear, alimentar, educar, cuidar de seus membros. Privatiza custos que poderiam ser coletivos. Quando falha, a culpa é individual: “pais irresponsáveis”, “família desestruturada”. Nunca é o sistema que força pessoas a trabalharem tanto que não têm tempo para criar vínculos, que paga salários insuficientes para sustentar dependentes, que mercantiliza cuidado transformando afeto em trabalho não remunerado.

Mulheres conhecem bem essa conta. A família patriarcal as aprisiona em trabalho doméstico gratuito, cuidado invisibilizado, reprodução compulsória. Lavam, cozinham, cuidam, educam — tudo sem salário, sem reconhecimento, sem escolha real. O capitalismo depende desse trabalho não pago para reproduzir a força de trabalho. A família é a fábrica onde se produz o trabalhador de amanhã, e mães são operárias sem direitos.

Comunidades tradicionais, antes da colonização capitalista, organizavam criação de forma coletiva. Crianças eram responsabilidade comunal, não propriedade parental. Em Rojava, no norte da Síria, experimentam hoje “casas de mulheres” onde se reorganiza reprodução social fora da família nuclear. Comunas históricas anarquistas aboliram divisão rígida entre público e privado, entre minha criança e nossa criança.

Isso não significa abolir afeto. Significa separar amor de propriedade. Vínculos profundos podem existir — devem existir — sem hierarquia, sem autoridade permanente de uns sobre outros. Crianças podem ser amadas sem serem possuídas. Adultos podem se relacionar sem contratos estatais que definem quem pertence a quem.

A família oprime especialmente quem não se encaixa no molde: pessoas queer expulsas de casa, mulheres presas em casamentos violentos por dependência econômica, crianças abusadas em silêncio porque “roupa suja se lava em casa”. A privacidade familiar é muro que esconde violência. O que acontece dentro de casa fica dentro de casa — até que alguém morra.

O Estado adora a família nuclear. Ela transfere custos, reproduz hierarquia, isola pessoas. Em vez de redes de apoio mútuo, cada unidade familiar luta sozinha pela sobrevivência. Competem por recursos, acumulam bens, defendem propriedade. A solidariedade vira exceção, não regra.

Família pode ser escolha, não obrigação. Afeto pode ser base de organização livre, não prisão emocional. Mas isso exige destruir a família como instituição de controle e reconstruir vínculos em bases radicalmente diferentes: voluntárias, horizontais, revogáveis.

Enquanto confundirmos amor com autoridade, afeto com propriedade, cuidado com sacrifício compulsório — a família seguirá sendo célula do Estado, não espaço de liberdade.

Questione quem diz que você deve obediência por compartilhar sangue ou sobrenome.

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