
Por Akracia – Fenikso Nigra
Cerca de 1,7 milhão de pessoas trabalham por meio de aplicativos de transporte e entrega no Brasil. São motoristas e entregadores que atravessam cidades carregando comida, mercadorias e passageiros. As plataformas prometem autonomia, flexibilidade e a chance de “ser o próprio patrão”. Mas, na prática, oferecem jornadas extenuantes, rendimentos instáveis, ausência de direitos e um controle algorítmico invisível que pune, exclui e manipula sem transparência.
A chamada uberização não criou uma multidão de empreendedores independentes. Criou uma massa de trabalhadores precarizados submetidos ao comando de plataformas que concentram poder e repassam riscos. O discurso do empreendedorismo individual funciona como máscara ideológica para relações de exploração bastante tradicionais.
Quem trabalha por aplicativos arca com veículo, combustível, manutenção, telefone e internet. Quando o carro quebra, a moto cai ou o celular falha, o prejuízo é individual. Se há doença ou acidente, não existe proteção real. Férias, décimo terceiro e descanso remunerado desaparecem sob o rótulo de “parceria”. Enquanto isso, as plataformas retêm parcelas significativas de cada corrida ou entrega sem assumir responsabilidade sobre quem executa o trabalho.
A narrativa da autonomia entra em choque com o funcionamento real do sistema. Algoritmos decidem quem recebe chamadas, quanto cada tarefa vale e quem será penalizado. Os critérios não são públicos, as decisões raramente são contestáveis e os bloqueios podem ser sumários. A avaliação constante por clientes cria pressão permanente para aceitar corridas ruins e condições injustas. Isso não é liberdade de trabalho — é subordinação mediada por código.
Projetos de lei em debate revelam as contradições desse modelo. Exigências como antecedentes criminais transformam plataformas em filtros morais, dificultando ainda mais a reinserção de quem já enfrenta exclusão social. Ao invés de ampliar direitos, certas propostas reforçam controle e seleção social. Outras medidas permitem remunerações decrescentes em entregas agrupadas, fazendo com que mais trabalho resulte proporcionalmente em menos renda. Sem mecanismos claros de reajuste, a inflação corrói ganhos enquanto os custos sobem.
Historicamente, a precarização nunca foi superada por boa vontade patronal. Direitos trabalhistas surgiram de greves, boicotes, organização coletiva e enfrentamento direto. Jornadas limitadas, descanso semanal e proteção contra abusos foram conquistas arrancadas. A uberização tenta contornar essas vitórias ao redefinir trabalhadores como “parceiros” e relações de subordinação como “liberdade de escolha”.
As resistências atuais seguem a mesma lógica de organização. Paralisações nacionais de entregadores expuseram a fragilidade do modelo e mostraram a força da ação coletiva. Redes de apoio, grupos de comunicação e mobilizações contínuas revelam que, mesmo isolados fisicamente, trabalhadores não estão sozinhos.
Mais promissoras ainda são as experiências de cooperativas de plataforma. Quando trabalhadores controlam o aplicativo, definem taxas, regras e distribuição de ganhos, a lógica muda. Parte maior do valor fica com quem trabalha. Decisões passam a ser coletivas. A tecnologia deixa de ser instrumento de vigilância e se torna ferramenta de autogestão.
Essas iniciativas demonstram que o problema não é a tecnologia, mas quem a controla. Plataformas corporativas são desenhadas para extrair valor. Plataformas cooperativas podem ser desenhadas para distribuí-lo. A questão central é propriedade e poder. Enquanto plataformas pertencerem a investidores distantes, a tendência é a maximização de lucro às custas de quem trabalha. Quando pertencem a quem opera o serviço, abrem-se possibilidades de relações mais horizontais.
Sindicatos e associações também cumprem papel importante ao reconhecer o conflito de interesses entre plataformas e trabalhadores. Mas a mediação institucional tem limites quando a própria estrutura concentra poder em poucas empresas. Regulamentações podem reduzir danos imediatos, mas dificilmente alteram a lógica de concentração e dependência. Leis podem impor pisos e seguros mínimos, porém não eliminam a assimetria fundamental de poder.
Transformações mais profundas exigem construir alternativas fora da lógica de exploração. Cooperativas de plataforma, federações solidárias e redes de apoio mútuo mostram que trabalhadores são capazes de gerir tecnologia, organizar serviços e distribuir renda sem intermediários parasitários. Cada alternativa criada reduz a dependência das corporações e amplia a autonomia real.
Ações concretas nascem no território: compartilhamento de informação, apoio entre trabalhadores, pressão por políticas públicas que fortaleçam iniciativas coletivas, escolha consciente de plataformas mais justas. Usuários também participam quando priorizam serviços que não se baseiam na precarização.
A tecnologia não determina o futuro do trabalho. Ela é moldada por relações de poder. Pode servir à exploração ou à autonomia coletiva. A escolha não é entre aceitar a uberização ou rejeitar a modernidade, mas entre concentrar poder em corporações ou distribuí-lo entre quem trabalha.
Enquanto milhões dirigirem e pedalarem sob comando algorítmico opaco, sem voz nas decisões, a exploração continuará. Quando trabalhadores controlarem as plataformas, definirem regras e dividirem ganhos de forma horizontal, a tecnologia poderá deixar de ser instrumento de dominação.
Não somos algoritmos descartáveis. Somos pessoas que movem as cidades — e podemos também mover as estruturas que nos exploram.





