Por Akracia – Fenikso Nigra

Sente em fileiras. Levante a mão para falar. Peça permissão para ir ao banheiro. Decore o que mandam. Repita na prova. Obedeça o sinal. Respeite a autoridade do professor, do diretor, do sistema. Chamam isso de educação. É treinamento para a submissão.

A escola moderna não foi desenhada para libertar mentes. Foi desenhada para produzir trabalhadores obedientes e cidadãos domesticados. A estrutura revela a função: hierarquia rígida, horários inflexíveis, currículos impostos, punições para quem questiona. Não é acidente. É projeto.

No século XIX, quando a industrialização exigia massas disciplinadas para as fábricas, a educação compulsória se expandiu pela Europa e América. Prussiana na origem, a escola pública tinha objetivos claros: criar súditos leais ao Estado e operários pontuais para o capital. Friedrich Froebel, pedagogo alemão, foi explícito: a educação deveria produzir “unidade nacional” através da obediência coletiva. A fábrica e a escola nasceram gêmeas.

Observe a arquitetura. Carteiras enfileiradas, todas voltadas para a autoridade na frente. Impossível conversar com quem está ao lado sem desobedecer a orientação do espaço. Cada sala, uma linha de montagem de comportamentos padronizados. Cada série, uma etapa do processo produtivo. No fim, um diploma: certificado de que você aprendeu a obedecer por tempo suficiente.

O currículo não é neutro. História ensina a versão dos vencedores. Geografia naturaliza fronteiras como se fossem formações geológicas. Educação moral civiliza impulsos de solidariedade espontânea em obrigações abstratas. Ciência se apresenta como verdade única, método universal, autoridade inquestionável. Questionamento crítico? Apenas dentro dos limites permitidos. Nunca sobre a estrutura da própria escola.

Quando Francisco Ferrer criou a Escola Moderna em Barcelona, no início do século XX, propôs algo radicalmente diferente: educação sem punições, sem competição, sem hierarquias rígidas. Crianças aprendendo por curiosidade, não por coerção. Conhecimento como ferramenta de libertação, não de domesticação. O Estado espanhol o fuzilou em 1909. A acusação oficial foi conspiração anarquista. O crime real foi provar que educação livre era possível.

Hoje, alternativas pedagógicas libertárias existem nas margens: escolas democráticas onde estudantes decidem regras, pedagogias baseadas em autonomia, projetos de educação popular. São exceções que provam a regra. O sistema dominante continua produzindo o que sempre produziu: pessoas treinadas para aceitar ordens, para não confiar no próprio pensamento, para competir em vez de cooperar.

Dizem que educação é libertadora. Pode ser. Mas não essa educação. Não a que mede inteligência por capacidade de memorização. Não a que pune divergência e recompensa conformidade. Não a que prepara para encaixar em hierarquias, não para destruí-las.

Educação libertadora ensina a questionar toda autoridade, inclusive a do professor. Estimula experimentação, erro, dúvida. Reconhece que conhecimento não é propriedade de especialistas, mas construção coletiva. Não prepara para o mercado de trabalho — prepara para transformar as relações de trabalho.

A escola que temos não é falha no projeto de libertar. É sucesso no projeto de controlar. Cada geração passa anos aprendendo que existe hora certa para tudo, que autoridade deve ser respeitada, que rebeldia é imaturidade a ser superada.

Quando finalmente saem, estão prontas. Prontas para a fábrica, para o escritório, para a cadeia de comando. Prontas para votar e obedecer. Prontas para chamar liberdade de irresponsabilidade e submissão de maturidade.

Educação não deveria produzir funcionários. Deveria produzir rebeldes.

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Educação: fábrica de obediência
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