Por Akracia – Fenikso Nigra

O Brasil encerrou 2025 com taxa de desemprego de 5,6%, a menor desde o início da série histórica em 2012. O governo comemora. Economistas projetam estabilidade. Manchetes anunciam pleno emprego. Números impressionam.

Mas qual trabalho está sendo contado?

A taxa de desemprego mede quem procura trabalho e não encontra. Não mede qualidade. Não mede remuneração. Não mede direitos. Alguém que trabalha três horas por semana como entregador de aplicativo aparece na estatística como empregado. Tecnicamente, não está desempregado. Praticamente, sobrevive com renda insuficiente e nenhuma proteção.

A informalidade no Brasil alcança níveis históricos. Mais de 40% da população ocupada trabalha sem carteira assinada, sem férias, sem décimo terceiro, sem FGTS, sem aposentadoria garantida. Esses trabalhadores existem nas estatísticas de emprego. Desaparecem nas estatísticas de direitos.

O crescimento do trabalho por aplicativo reorganizou o mercado de trabalho sem reorganizar proteções. Motoristas de transporte, entregadores, diaristas contratadas por plataformas digitais — todos aparecem como ocupados. A empresa que lucra com esse trabalho não tem vínculo empregatício, não paga impostos sobre folha, não arca com custos de direitos trabalhistas. Transfere todos os riscos para quem trabalha.

Essa reorganização não é falha de mercado. É projeto deliberado. Empresas de tecnologia construíram modelos de negócio baseados em classificar trabalhadores como “parceiros” ou “empreendedores”. A legislação permitiu. O judiciário validou em vários casos. O resultado é trabalho sem direitos vendido como liberdade e flexibilidade.

O discurso da autonomia oculta subordinação. Motorista que precisa aceitar 80% das corridas para não ser punido pelo algoritmo não é autônomo. Entregador que tem conta bloqueada por recusar entregas em áreas perigosas não é empreendedor. É trabalhador subordinado sem reconhecimento legal dessa subordinação.

A reforma trabalhista de 2017 facilitou essa precarização. Contratos intermitentes, jornadas variáveis, trabalho autônomo exclusivo — todas essas modalidades expandiram empregos nas estatísticas enquanto contraíam direitos na prática. Cresceu o número de ocupados. Caiu a participação de salários na renda nacional.

Os defensores argumentam que flexibilização gera empregos. Números aparentemente confirmam: desemprego caiu. Mas qual emprego surgiu? Trabalho que paga menos de um salário mínimo, sem estabilidade, sem perspectiva de melhora. Substituiu-se desemprego aberto por subemprego generalizado.

A comparação internacional revela escolhas políticas. Países europeus mantêm taxas de desemprego similares ou menores com proteções trabalhistas robustas. Alemanha, Holanda, Dinamarca operam mercados de trabalho flexíveis sem destruir direitos. A diferença não é técnica, é distribuição de poder entre capital e trabalho.

No Brasil, baixo desemprego convive com alta rotatividade. Empresas demitem e contratam constantemente, aproveitando legislação permissiva. Trabalhador permanece poucos meses no emprego, não acumula antiguidade, não conquista estabilidade. Vive estado permanente de insegurança mesmo estando formalmente empregado.

O trabalho doméstico ilustra outra dimensão do problema. Milhões de trabalhadoras domésticas foram formalizadas na última década. Aparecem nas estatísticas de emprego formal. Mas continuam entre as categorias pior remuneradas, com jornadas extenuantes e condições precárias. Formalização sem transformação estrutural apenas legaliza exploração.

Jovens enfrentam situação particularmente difícil. Primeiro emprego exige experiência. Estágios pagam mal ou nada. Contratos temporários se sucedem sem virar efetivos. A taxa de desemprego entre jovens de 18 a 24 anos permanece em dobro da média nacional. Quando conseguem emprego, frequentemente é precarizado.

Experiências históricas mostram alternativas. Durante revolução industrial na Inglaterra, trabalhadores organizaram cooperativas de produção controladas por quem efetivamente trabalha. Argentina tem tradição forte de fábricas recuperadas geridas por trabalhadores. Brasil tem economia solidária com milhares de empreendimentos coletivos onde divisão de resultados e decisões são horizontais.

Essas formas alternativas não eliminam riscos do trabalho. Mas distribuem controle e benefícios entre quem trabalha, não concentram em acionistas distantes. Cooperativas de aplicativos controladas por motoristas e entregadores existem em várias cidades. Funcionam, mas enfrentam competição desigual com plataformas que operam sob lógica de acumulação.

O problema não é apenas trabalho precário substituindo trabalho protegido. É estrutura que permite a alguns lucrar extraordinariamente explorando trabalho de milhões. Empresas de aplicativo valem bilhões. Dividem parte minúscula desse valor com quem efetivamente produz o serviço.

A resposta não é defender desemprego como alternativa melhor. Desemprego é violência. Mas emprego precário também é violência, apenas distribuída de forma que não aparece nas estatísticas principais. Alguém trabalhando doze horas diárias por menos de um salário mínimo está empregado tecnicamente, mas vive insegurança material constante.

Reconhecer limites da métrica não significa ignorá-la. Taxa de desemprego importa. Menos gente procurando trabalho desesperadamente é melhor que mais gente nessa situação. Mas precisa vir acompanhada de perguntas sobre qualidade: quanto paga esse trabalho? Quantas horas exige? Que proteções oferece? Há perspectiva de melhora?

A celebração acrítica do recorde histórico oculta essas perguntas. Apresenta número como conquista absoluta quando é, na melhor hipótese, conquista parcial. Na pior, é dado estatístico que mascara precarização crescente.

Entre aceitar precarização como preço do emprego e exigir trabalho digno para todos, não há neutralidade possível.

O número pode ser recorde. A realidade não é vitória.

Na luta seguimos — dignos, livres e indomesticáveis.

Desemprego em Queda: Recorde de Quê?
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