Por Akracia – Fenikso Nigra

Chamam de democracia um sistema onde a maioria decide apenas o superficial. Você escolhe rostos, legendas partidárias, promessas de campanha. Jamais escolhe as estruturas que determinam como vive: a organização do trabalho, a distribuição da riqueza, os limites do possível. A democracia representativa não dissolve a concentração de poder — ela a veste com aparência de legitimidade popular.

O controle contemporâneo dispensa a força bruta como método principal. Ele opera pelo consentimento fabricado. Pessoas foram convencidas de que comparecer às urnas equivale a exercer poder real. Mas participar de um ritual não é decidir. Consentir não é governar. A democracia moderna transformou obediência em virtude cívica e passividade em responsabilidade cidadã.

Observe o que chamam de pluralismo político. Quando todas as alternativas disponíveis respeitam os mesmos limites intocáveis, quando nenhum partido questiona as fundações do sistema econômico, quando o debate oscila apenas entre gestões diferentes da mesma estrutura, a escolha se torna teatral.

Muda-se o discurso, preserva-se a hierarquia. Altera-se o tom, mantém-se a substância. O sistema nunca pergunta se deve existir — apenas quem irá administrá-lo melhor. A democracia não supera a dominação; ela a legitima em ciclos regulares.

Questionar esse arranjo de forma radical é tratado como traição ao pacto civilizatório. A crítica é aceita apenas enquanto não ultrapassa a linha invisível entre reforma e ruptura. Pode-se protestar contra políticas específicas, nunca contra o próprio regime.

O aparato democrático desenvolveu anticorpos sofisticados. Ele absorve indignação transformando-a em pauta eleitoral, canaliza revolta em votos de protesto inofensivos e aceita mudanças desde que sejam cosméticas.

Há uma pergunta que o sistema evita a todo custo: e se o problema não for quem governa, mas o próprio ato de governar dessa forma? E se concentrar decisões sobre a vida de milhões nas mãos de poucos for, em si, incompatível com liberdade genuína, independentemente de quantos votos legitimem essa concentração?

Democracia representativa não é o ápice da organização política humana. É a forma mais eficiente já criada de conter a autonomia sem parecer autoritária.

Enquanto acreditarmos que liberdade política se resume a escolher entre opções pré-aprovadas, permaneceremos presos em liberdades supervisionadas. A emancipação real começa quando paramos de pedir permissão para reimaginar completamente como podemos viver juntos.

Na luta somos pessoas dignas e livres!

Democracia: escolha ou controle consentido?
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