Este número nasce de uma constatação simples e incômoda: o Estado nunca deixou de ser colonial. Muda a bandeira, muda o discurso, muda o partido no governo — mas a lógica permanece. Da Índia ao Abya Yala, o que vemos é a mesma engrenagem operando: centralização do poder, militarização dos territórios, saque dos bens comuns e repressão sistemática a quem resiste.

A Índia contemporânea, governada pelo nacionalismo hindu e integrada profundamente ao capitalismo global, oferece um espelho brutal do que conhecemos bem na América Latina. A ocupação da Caxemira, o massacre lento dos povos Adivasis em nome do “desenvolvimento”, a criminalização de estudantes, jornalistas e militantes, e o uso permanente do estado de exceção revelam aquilo que o anarquismo sempre afirmou: o Estado não é um instrumento de libertação — é uma máquina de guerra social.

Mas não se trata apenas da Índia. O que está em jogo ali atravessa nossas próprias lutas. A Amazônia militarizada, o Wallmapu sitiado, os territórios zapatistas cercados, as periferias transformadas em zonas de morte, os povos indígenas, negros e camponeses tratados como obstáculos ao progresso — tudo isso compõe um mesmo mapa de dominação. Estados pós-coloniais que se dizem soberanos, progressistas ou democráticos continuam operando como administradores do capital e carcereiros de povos inteiros.

Este editorial não busca comparações vazias nem solidariedade abstrata. Busca afirmar um internacionalismo anarquista, enraizado nas lutas reais, que reconhece que nossos inimigos cooperam globalmente — e que nossa resistência não pode se limitar às fronteiras impostas por eles. O nacionalismo, seja religioso, liberal ou “popular”, exige sempre o mesmo sacrifício: obediência, silêncio e morte em nome da pátria.

Na Índia, como na América Latina, o discurso do desenvolvimento serve para justificar barragens, minas, corredores industriais e megaprojetos que destroem comunidades e ecossistemas. Quando há resistência, o Estado responde com polícia, exército, leis de exceção e prisões. Quando isso não basta, responde com balas. É assim no centro da Índia, é assim no sul do México, é assim nas favelas e nos campos latino-americanos. O Estado fala a linguagem da força porque é feito dela.

Não ignoramos as lutas armadas que emergem dessa violência estrutural, nem repetimos o discurso estatal que as chama de “terrorismo”. Mas também não alimentamos ilusões sobre vanguardas, partidos ou exércitos populares. A história do século XX — na Índia, na América Latina e em todo o mundo — mostrou que tomar o Estado não é destruí-lo. Revoluções estatistas apenas reorganizam o poder, criando novas elites e novas formas de dominação.

Por isso, este número aposta nas lutas que recusam a captura estatal: autonomias territoriais, auto-organização comunitária, apoio mútuo, redes horizontais, sabotagem, desobediência e construção de mundos fora da lógica do capital e da autoridade. A experiência zapatista, as resistências Adivasis, as lutas anti-casta, os feminismos anarquistas, os coletivos indígenas, negros e periféricos apontam para um mesmo horizonte: não queremos um outro governo — queremos viver sem governantes.

Publicar um dossiê que conecta Índia e Abya Yala é afirmar que nossas lutas não são locais nem isoladas. É dizer que a repressão que atinge um estudante em Délhi dialoga com a repressão que atinge um militante em Santiago, Bogotá ou São Paulo. É reconhecer que o colonialismo não acabou — ele se reinventou no Estado moderno.

Este editorial é um convite à insubmissão e à solidariedade concreta.
Contra o nacionalismo hindu e o progressismo extrativista.
Contra o capital global e seus Estados armados.
Contra todas as fronteiras que nos dividem para melhor nos governar.

Nem império, nem pátria, nem Estado.
Da Índia ao Abya Yala: autonomia, apoio mútuo e revolta.

Na luta somos pessoas dignas e livres!

Da Índia ao Abya Yala: contra o Estado, o capital e as fronteiras da dominação
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