Akracia – Fenikso Nigra

Seu telefone sabe onde você está. Suas buscas revelam o que você pensa. Suas compras mapeiam o que você deseja. Suas conversas alimentam algoritmos que preveem seu comportamento. Prometeram que tecnologia libertaria. Entregaram a prisão mais sofisticada da história: uma onde você mesmo fornece os dados que te controlam.

Tecnologia não é neutra. Nunca foi. Cada ferramenta carrega a marca das relações de poder que a produziram. Guilhotina e metralhadora são ambas tecnologias — uma projetada para igualdade perante a morte, outra para massacre industrial de massas. Internet nasceu de projeto militar estadunidense. Não é acidente que se tornou infraestrutura de vigilância.

A promessa era libertadora: acesso universal ao conhecimento, comunicação horizontal, organização descentralizada. Primaveras árabes coordenadas por Facebook. Wikileaks expondo crimes de Estado. Anonymous atacando corporações. Por um momento breve, parecia que tecnologia favorecia insurgência contra poder concentrado.

O sistema aprendeu rápido. Corporações cercaram a internet. Google, Amazon, Meta, Apple, Microsoft — cinco empresas controlam infraestrutura que bilhões usam diariamente. Não são prestadoras de serviço. São senhoras feudais de territórios digitais. Você não usa suas plataformas. Você habita propriedades delas, sob regras delas, vigiado por sistemas deles.

Cada clique é minerado. Cada like é catalogado. Cada segundo de atenção é mercadoria vendida para anunciantes. Modelo de negócio não é vender produtos para você. É vender você para anunciantes. Seus dados, seus padrões, suas vulnerabilidades psicológicas — tudo empacotado, precificado, comercializado. Capitalismo de vigilância transformou intimidade em matéria-prima industrial.

Estados adoraram. China implementou crédito social: comportamento online determina acesso a serviços, empregos, transporte. Índia vincula biometria a tudo: sem registro digital, você não existe legalmente. Estados Unidos armazenam metadados de todas as comunicações. NSA espionou aliados, cidadãos, movimentos sociais. Snowden revelou, nada mudou estruturalmente. Vigilância em massa é política oficial.

Brasil não fica atrás. Reconhecimento facial instala-se em favelas, não em bairros ricos. Identifica manifestantes, mapeia circulação de periféricos, alimenta banco de dados policial. Abin grampeou adversários políticos. Empresas vendem dados de localização sem consentimento real. Aplicativos de banco rastreiam tudo. WhatsApp, ferramenta de comunicação popular, pertence a Meta — cada mensagem metadatada, cada grupo mapeado.

Tecnologia poderia emancipar. Código aberto demonstra produção colaborativa sem propriedade privada. Criptografia forte permite comunicação que Estados não decifram. Redes mesh descentralizam infraestrutura. Blockchain (além da especulação financeira) possibilita organização sem intermediários. Ferramentas existem. Mas infraestrutura está em mãos de quem lucra com vigilância.

Inteligência artificial é próximo campo de batalha. IA pode diagnosticar doenças, otimizar produção, liberar humanos de trabalho repetitivo. Ou pode automatizar vigilância, substituir trabalhadores sem oferecer alternativa, concentrar poder em quem controla modelos e dados. Tecnologia não decide. Quem a controla decide.

O fetiche tecnológico é perigoso: acreditar que ferramentas resolvem problemas políticos. Aplicativo não substitui organização. Blockchain não destrói capitalismo. Rede social não faz revolução. Tecnologia amplifica o que já existe: se organização é horizontal, tecnologia facilita coordenação; se poder é concentrado, tecnologia aprofunda controle.

Cypherpunks entenderam cedo: privacidade requer arquitetura técnica que impossibilite vigilância, não legislação que a proíba. Leis são quebradas. Criptografia forte não é. Mas maioria usa plataformas que lucram com ausência de privacidade. Conveniência venceu segurança. Precisão de busca venceu anonimato. Gratuidade aparente venceu controle sobre dados.

Nada é gratuito. Quando produto é grátis, você é o produto. Gmail lê seus emails para direcionar publicidade. Alexa escuta sua casa para refinar perfil de consumo. TikTok vicia adolescentes enquanto exporta dados comportamentais. Cada tecnologia “conveniente” cobra preço em vigilância, manipulação, controle.

Ludditas não quebraram máquinas por ódio à tecnologia. Quebraram porque máquinas concentravam poder nas mãos de donos de fábrica, destruíam autonomia artesã, intensificavam exploração. Eram contra aquela tecnologia naquelas mãos. Postura inteligente.

Tecnologia emancipadora precisa ser construída por quem usa, controlada por quem usa, com código aberto verificável por qualquer um. Precisa descentralizar poder, não concentrá-lo. Precisa proteger privacidade por design, não promessa. Precisa servir necessidades humanas, não lucro corporativo.

Enquanto tecnologia for propriedade privada produzida para vigilância rentável, cada inovação será corrente mais sofisticada.

Seu smartphone é maravilha técnica. Também é tornozeleira eletrônica voluntária.

Questione não só o que a tecnologia faz. Questione a quem ela serve.

Capitalismo de Vigilância: A Nova Arquitetura do Controle
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