
Por Akracia – Fenikso Nigra
Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, encerrando uma trajetória de crescimento acelerado sustentado por oferta de rendimentos muito acima da média de mercado. As investigações revelaram um esquema de fraude bilionária envolvendo empréstimos fictícios, fundos de investimento suspeitos e conexões políticas que atravessam os três poderes da república. O caso expõe não apenas falhas técnicas de fiscalização, mas a forma como poder político e econômico se entrelaçam para proteger interesses específicos.
O Banco Master cresceu rapidamente oferecendo Certificados de Depósito Bancário com rentabilidade superior à média. Para sustentar esse modelo, segundo investigadores, a instituição assumiu riscos excessivos e estruturou operações que inflavam artificialmente seu balanço. Entre 2023 e 2024, estima-se que cerca de 11,5 bilhões de reais tenham sido desviados através de triangulações: o banco emprestava recursos a empresas fictícias que aplicavam em fundos da gestora Reag Investimentos, esses fundos compravam ativos sem valor real por preços inflados. O esquema mantinha a aparência de solidez enquanto a liquidez real desaparecia.
Quando a crise de liquidez tornou-se insustentável, começaram as tentativas de socorro. O Banco de Brasília, instituição pública controlada pelo governo do Distrito Federal, anunciou em março de 2025 a intenção de comprar 58% do capital do Master por cerca de 2 bilhões de reais. A operação foi vetada pelo Banco Central em setembro, que apontou riscos excessivos e incompatibilidade com o perfil da instituição pública. As investigações revelaram que o BRB já havia adquirido aproximadamente 12,7 bilhões em carteiras de crédito suspeitas do Master, possivelmente fictícias, sem a devida diligência.
A rede de relações políticas que sustentou a ascensão do Master revela como poder econômico concentrado constrói proteções institucionais. O controlador Daniel Vorcaro estabeleceu conexões com figuras do Executivo, Legislativo e Judiciário. Senadores, deputados, governadores e ministros aparecem nas investigações como interlocutores que facilitaram negociações, abriram canais ou tentaram influenciar decisões regulatórias. Um escritório de advocacia ligado a ministro do Supremo Tribunal Federal mantinha contrato de 129 milhões de reais com o banco, com pagamentos mensais de 3,6 milhões entre 2024 e 2027.
A resposta institucional ao escândalo também merece atenção crítica. O caso foi centralizado no Supremo Tribunal Federal sob sigilo rigoroso, dificultando acompanhamento público. Houve tensões entre o Banco Central, o Tribunal de Contas da União e o próprio STF sobre competências e acesso a informações. Essas disputas não são apenas técnicas sobre procedimentos, mas refletem correlações de força sobre quem controla a narrativa e quais aspectos do caso serão investigados com mais profundidade.
A Comissão de Valores Mobiliários, órgão responsável por fiscalizar agências de classificação de risco e fundos de investimento, vinha sendo alertada sobre problemas estruturais desde 2020, quando auditoria do Tribunal de Contas apontou fragilidades na fiscalização. Pouco foi feito. Em outubro de 2024, agência de classificação Fitch elevou a nota do Master para nível alto, classificação destacada por instituições como XP Investimentos. Um mês depois, o banco entrou em colapso. A CVM permaneceu sem presidente titular por meses, justamente no período em que o escândalo eclodiu.
As consequências financeiras recaem, como sempre, sobre quem tem menor capacidade de defesa. O Fundo Garantidor de Créditos estimou desembolsar cerca de 41 bilhões de reais para ressarcir aproximadamente 1,6 milhão de clientes, o maior resgate da história do fundo. O limite de cobertura é de 250 mil reais por pessoa. Fundos de pensão estaduais e municipais que investiram 1,86 bilhão em produtos do Master não serão ressarcidos porque esses investimentos não têm cobertura. Aposentadorias futuras de trabalhadores públicos estão comprometidas por decisões de investimento que privilegiaram rentabilidade acima de segurança.
O caso do Master não é excepcional, mas exemplar. Revela padrões recorrentes no sistema financeiro brasileiro: crescimento acelerado baseado em promessas insustentáveis, captação de recursos de pequenos investidores atraídos por rendimentos elevados, conexões políticas que adiam fiscalização efetiva, tentativas de socorro com recursos públicos quando a fraude torna-se incontornável. Esse ciclo se repete porque as estruturas que permitem sua existência permanecem intocadas.
Experiências históricas em diversas partes do mundo demonstram possibilidades de organizar crédito e poupança segundo princípios diferentes. Na Argentina, durante as crises do início dos anos 2000, clubes de troca e bancos comunitários permitiram que comunidades mantivessem atividade econômica quando o sistema bancário tradicional colapsou. Moedas locais e sistemas de crédito mútuo sustentaram famílias e pequenos negócios sem depender de instituições financeiras convencionais.
No Brasil, bancos comunitários de desenvolvimento surgiram em periferias urbanas como Conjunto Palmeiras em Fortaleza, criando sistemas de microcrédito controlados pela própria comunidade. Decisões sobre concessão de crédito, taxas de juros e destinação de recursos são tomadas em assembleias por quem efetivamente usa os serviços. Inadimplência é baixa porque credibilidade se constrói através de relações comunitárias, não de análises automatizadas de risco.
Cooperativas de crédito, quando efetivamente controladas por associados e não capturadas por grupos gestores profissionalizados, demonstram viabilidade de instituições financeiras onde decisões estratégicas são tomadas democraticamente. Taxas de juros, políticas de investimento e distribuição de sobras seguem deliberações de assembleias, não maximização de lucro para acionistas distantes.
Diversas vertentes anarquistas questionam não apenas práticas fraudulentas específicas, mas a própria concentração do crédito em instituições hierárquicas reguladas por agências que frequentemente servem aos regulados. A questão central não é melhorar fiscalização dentro do sistema atual, mas reconhecer que sistemas baseados em crescimento ilimitado, rentabilidade máxima e concentração de decisões criam incentivos estruturais para comportamentos predatórios.
O caso Master revela também limites da proteção estatal aos investidores. O Fundo Garantidor cobre depósitos até certo limite, mas é financiado pelos próprios bancos, ou seja, indiretamente pelos correntistas através de tarifas e spreads bancários. Quando fundos privados de investimento colapsam, não há proteção. Quando bancos públicos compram ativos podres para socorrer instituições privadas, o custo eventualmente recai sobre orçamentos públicos. A socialização de perdas e privatização de lucros não é falha do sistema, é seu funcionamento normal.
Reconhecer esses padrões abre espaço para ação prática. Reduzir dependência de grandes instituições financeiras através de cooperativas de crédito autênticas, bancos comunitários e sistemas de poupança coletiva. Exigir transparência total nas conexões entre agentes políticos e instituições financeiras, expondo conflitos de interesse que atravessam poderes da república. Apoiar regulação que privilegie proteção de pequenos investidores sobre facilitação de negócios para grandes grupos financeiros.
O Banco Master seguirá sendo investigado, patrimônios serão disputados, responsabilidades eventualmente atribuídas. Enquanto isso, 1,6 milhão de pessoas aguardam ressarcimento, fundos de pensão enfrentam buracos bilionários, trabalhadores públicos do Rio de Janeiro veem suas aposentadorias futuras comprometidas. E novas instituições já oferecem rendimentos milagrosos, sustentadas por novas redes de influência, preparando próximas crises que seguirão o mesmo padrão: crescimento rápido, captura regulatória, colapso, socialização de perdas.
Na luta somos pessoas dignas e livres!





