
A anarquia e o esperanto nasceram em épocas diferentes, mas partem de uma inquietação parecida: a desconfiança em relação a sistemas que concentram poder e impõem regras de cima para baixo. Enquanto a anarquia questiona o poder do Estado e das hierarquias sociais, o esperanto busca enfrentar a desigualdade criada pelas línguas dominantes no mundo. Ambos propõem caminhos baseados na cooperação voluntária, na igualdade e na liberdade. Mas essas propostas também enfrentam contradições importantes.
O que é anarquia, afinal?
Quando se fala em anarquia, muitas pessoas pensam em desordem ou caos. No entanto, o anarquismo é uma corrente política que defende exatamente o oposto: uma sociedade organizada, mas sem autoridades impostas. Para os anarquistas, o problema não é a organização em si, mas a organização baseada na coerção.
Pensadores como Pierre-Joseph Proudhon, Mikhail Bakunin, Piotr Kropotkin e Emma Goldman criticaram o Estado, as grandes desigualdades econômicas e as instituições que concentram poder. Eles acreditavam que as pessoas são capazes de se organizar de forma cooperativa, tomando decisões coletivas, resolvendo conflitos por meio do diálogo e assumindo responsabilidades compartilhadas.
Isso não significa ausência de regras, mas regras construídas em comum, sem chefes permanentes ou estruturas rígidas de autoridade.
O que é o esperanto?
O esperanto é uma língua criada em 1887 por L. L. Zamenhof, um médico que vivia em uma região marcada por conflitos entre diferentes povos e religiões. Ele acreditava que muitos desses conflitos eram agravados pela falta de comunicação e pelas desigualdades entre línguas.
A ideia do esperanto era simples: criar uma língua fácil de aprender, que não pertencesse a nenhum país específico e que pudesse ser usada como uma segunda língua comum entre pessoas de diferentes partes do mundo. Assim, ninguém teria vantagem por falar a “língua dos poderosos”.
O esperanto tem regras regulares e poucas exceções, o que facilita o aprendizado. Ele não foi pensado para substituir outras línguas, mas para servir como uma ponte entre elas.
Onde anarquia e esperanto se encontram
No fim do século XIX e início do século XX, muitos anarquistas viram no esperanto uma ferramenta prática para o internacionalismo. Se trabalhadores de diferentes países pudessem se comunicar diretamente, sem depender das línguas das grandes potências, seria mais fácil construir solidariedade além das fronteiras nacionais.
Jornais, cartas e encontros em esperanto ajudaram a criar redes internacionais de militantes. Um exemplo foi o jornal Sennaciulo (“Sem Pátria”), que conectou pessoas de vários países usando o esperanto. Durante a Guerra Civil Espanhola, combatentes de diferentes nacionalidades também usaram a língua para se comunicar.
Assim, anarquia e esperanto se aproximaram por rejeitar a centralização: uma no campo político, o outro no campo linguístico. Ambos se espalharam por redes voluntárias, clubes e iniciativas independentes — e, por isso mesmo, foram perseguidos por regimes autoritários como o nazismo e o stalinismo.
Os paradoxos dessas ideias
Apesar das afinidades, existem contradições importantes. O esperanto, por exemplo, é uma língua planejada: alguém precisou definir suas regras. Para alguns anarquistas, isso parece estranho, já que o anarquismo costuma valorizar o que surge espontaneamente das práticas sociais, não de projetos pensados de antemão.
Além disso, o esperanto é baseado principalmente em línguas europeias. Para quem já fala uma língua parecida com o português, o espanhol ou o francês, ele é mais fácil. Para falantes de línguas muito diferentes, como o chinês ou línguas africanas, a promessa de neutralidade não é tão clara assim.
Essas questões mostram algo mais geral: descentralizar não garante automaticamente justiça ou igualdade. Mesmo sem um centro de poder claro, desigualdades podem continuar existindo, às vezes de forma mais difícil de perceber.
O que isso tem a ver com o presente?
Muitas ideias defendidas por anarquistas e esperantistas reaparecem hoje em projetos como software livre, redes colaborativas, plataformas descentralizadas e comunidades que tentam se organizar sem hierarquias rígidas.
Essas experiências mostram tanto o potencial quanto os limites da descentralização. Elas podem ampliar a participação e a autonomia, mas também podem gerar novas formas de exclusão, concentração informal de poder e falta de responsabilidade clara.
A história da anarquia e do esperanto ajuda a entender que não basta eliminar chefes ou centros de controle: é preciso estar atento a como o poder reaparece de outras maneiras.
Um sonho vivido no presente
Para muitas pessoas, anarquismo e esperanto não eram apenas ideias abstratas. Eram formas de viver no dia a dia os valores de um mundo que ainda não existia: cooperação, solidariedade, igualdade. Falar esperanto ou participar de uma comunidade autogerida era, ao mesmo tempo, um gesto prático e um ato de esperança.
Essa dimensão afetiva — o desejo de viver agora aquilo que se acredita para o futuro — ajuda a explicar por que esses movimentos foram tão fortes, mesmo enfrentando perseguições e fracassos.
Conclusão
A anarquia e o esperanto apostam na capacidade humana de se organizar e se comunicar sem imposição. Um busca libertar as relações sociais; o outro, tornar a comunicação mais justa. Mas ambos mostram que a liberdade não é algo automático: ela exige atenção constante, autocrítica e disposição para enfrentar contradições.
Reconhecer os limites dessas ideias não diminui sua importância. Pelo contrário, ajuda a pensar com mais cuidado sobre como construir relações mais livres, igualitárias e solidárias — hoje e no futuro.





