
Akracia – Fenikso Nigra
Estudo publicado na revista Science revela que o Brasil está entre os países com maior intensidade de toxicidade por agrotóxicos no planeta. Entre 2013 e 2019, a toxicidade dos pesticidas aumentou globalmente, contrariando metas internacionais de redução até 2030. Brasil, China, Estados Unidos e Índia concentram mais da metade da toxicidade aplicada no mundo.
Não se trata de falha técnica. Não é desvio pontual. É funcionamento normal de um modelo agrícola estruturado para exportar commodities enquanto envenena territórios, águas e corpos.
Seis de oito grupos de espécies analisados tornaram-se mais vulneráveis: artrópodes terrestres, organismos do solo, peixes, invertebrados aquáticos, polinizadores e plantas. A destruição atinge as bases ecológicas da vida. Apenas cerca de 20 pesticidas por país respondem por mais de 90% da toxicidade total aplicada — concentração em substâncias altamente perigosas que seguem liberadas porque sustentam lucros.
Soja, algodão e milho exercem impacto desproporcional em relação à área cultivada. Monoculturas industriais exigem volumes massivos de veneno para manter produtividade artificial em solos degradados.
O Brasil tornou-se laboratório dessa lógica. Recordes sucessivos de liberação de agrotóxicos não são acidente: são política de Estado. Substâncias proibidas na União Europeia continuam sendo aplicadas aqui. O veneno não fica restrito às lavouras: infiltra-se em lençóis freáticos, rios, chuvas e alimentos processados.
O Estado não é árbitro neutro. Ele financia o agronegócio com crédito subsidiado, isenções fiscais e infraestrutura logística. Ele regula para permitir, não para impedir. Ele protege a propriedade concentrada da terra com polícia, tribunais e violência.
A lógica do agronegócio é simples: produzir para exportar, maximizar rentabilidade e socializar os danos. Soja transgênica tolerante a herbicidas permite aplicação massiva de glifosato. Algodão geneticamente modificado demanda sucessivas pulverizações de inseticidas. Milho para ração animal e etanol consome fertilizantes sintéticos que acidificam o solo e contaminam águas.
Essa agricultura não existe para alimentar quem vive aqui. Existe para alimentar cadeias globais de ração, indústria têxtil e mercados financeiros. Enquanto grãos cruzam oceanos, a fome retorna às periferias.
A contradição é estrutural: terra concentrada produz lucro, não alimento.
Muito antes do pacote tecnológico da Revolução Verde, povos indígenas cultivavam sistemas consorciados que regeneravam o solo e mantinham diversidade. Quilombos desenvolveram agricultura baseada em rotação, policultivo e matéria orgânica. Camponeses produziram alimento por gerações sem depender de corporações químicas.
Hoje, milhares de famílias organizadas constroem experiências agroecológicas que demonstram viabilidade técnica e material da produção sem veneno. Assentamentos produzem arroz, feijão, hortaliças, frutas e leite para feiras e redes solidárias. Sistemas agroflorestais regeneram áreas degradadas. Viveiros comunitários recuperam nascentes. Sementes crioulas garantem autonomia frente à privatização corporativa.
Agroecologia não é nicho gourmet. É prática concreta de autonomia.
Mas a transição não encontra apenas obstáculos econômicos — encontra estruturas de poder. O crédito estatal prioriza monoculturas. A pesquisa pública serve às exportadoras. O mercado de agrotóxicos movimenta bilhões e financia lobbies permanentes. A terra segue concentrada sob proteção jurídica e armada.
Esperar que governos revertam essa lógica é ilusão reformista. O mesmo Estado que subsidia o envenenamento não o interromperá por boa vontade. Programas institucionais podem aliviar, mas não alteram a base: propriedade concentrada e produção orientada ao lucro.
A transformação não virá por decreto. Virá da organização territorial, da ocupação de terras improdutivas, da construção de redes diretas entre campo e cidade, da autogestão da produção e da distribuição.
Feiras agroecológicas, cooperativas autônomas, grupos de consumo responsável, cozinhas solidárias, hortas urbanas — cada experiência que encurta cadeias e elimina atravessadores enfraquece o poder corporativo.
Agroecologia não é apenas técnica agrícola. É reorganização social. É romper dependência de insumos industriais. É desmontar hierarquias entre quem produz e quem consome. É construir soberania alimentar desde baixo.
Enquanto o agronegócio ocupar territórios para exportar commodities envenenadas, fome e contaminação caminharão juntas. Enquanto a terra for mercadoria, a vida será subordinada ao lucro.
A escolha não é técnica. É política e material:
ou reproduzimos a ordem que concentra terra, poder e veneno,
ou construímos territórios autônomos baseados em apoio mútuo, diversidade e autogestão.
Na luta, semeamos vida onde insistem em plantar morte.





