
Por Akracia – Fenikso Nigra
Quando dizemos que “a política nunca muda”, estamos descrevendo a natureza do Estado, não os limites da transformação social. O Estado é, por definição, uma máquina de conservação — mas o erro está em acreditar que ele é o único campo possível da política. A verdadeira política acontece na sociedade, em suas múltiplas formas de organização, resistência e criação. E é precisamente essa multiplicidade que o anarquismo sintetista reconhece como força, não como fraqueza.
A Unidade na Diversidade de Táticas
O movimento anarquista historicamente se fragmentou em escolas: anarcossindicalistas focados nos sindicatos, comunistas libertários nas comunas, insurrecionalistas na ação direta disruptiva, mutualistas nas cooperativas e crédito mútuo. O sintetismo, como proposto por Voline e Sebástian Faure, recusa essa fragmentação. Reconhece que todas essas táticas são válidas e necessárias — não como alternativas excludentes, mas como frentes simultâneas de um mesmo projeto emancipatório.
Uma greve sindical pressiona o capital e demonstra o poder da classe trabalhadora organizada. Uma cooperativa prova que a produção sem patrões é viável. Uma ocupação urbana ressignifica a propriedade e cria espaços de experimentação. Um bloqueio insurrecional interrompe a normalidade opressiva do sistema. Nenhuma dessas ações sozinha derrubará o capitalismo ou o Estado — mas juntas, elas criam fissuras múltiplas e simultâneas que enfraquecem os pilares da dominação.
O sintetismo não é ecletismo acrítico. É o reconhecimento estratégico de que a revolução social não virá de uma única tática aplicada uniformemente, mas da coordenação flexível de múltiplas formas de luta, cada uma adequada ao seu contexto e momento.
O Estado Como Adversário, Não Como Arena
Diferentemente de perspectivas reformistas, o anarquismo sintetista não vê o Estado como campo de disputa a ser ocupado, mas como estrutura a ser desmantelada através da construção de alternativas. Isso não significa ignorar que conquistas parciais podem ser arrancadas da institucionalidade — salários mínimos, jornadas reduzidas, direitos sociais — mas significa não confundir essas concessões com emancipação.
Cada direito conquistado via Estado é, simultaneamente, uma vitória e uma armadilha: vitória porque melhora condições concretas de vida; armadilha porque nos ensina a depender do poder que buscamos abolir. A perspectiva sintetista resolve essa tensão não negando a importância de conquistas imediatas, mas recusando fazer delas o horizonte final. Lutar por melhores condições dentro do sistema enquanto se constrói a infraestrutura para além dele.
Isso implica uma relação tática, não estratégica, com a institucionalidade. Sindicalistas anarquistas podem participar de greves legais e negociações trabalhistas sem ilusões sobre a legislação; mutualistas podem usar brechas jurídicas para estabelecer cooperativas sem acreditar que o Estado protegerá genuinamente a autogestão; comunistas libertários podem reivindicar espaços públicos para assembleias sem esperar que o governo os entregue voluntariamente.
Autogestão: Laboratório Permanente, Não Modelo Fixo
O sintetismo reconhece que não existe uma forma única de organização horizontal que sirva a todos os contextos. Uma fábrica recuperada pelos trabalhadores opera sob lógicas diferentes de uma comuna agrícola, que por sua vez difere de uma assembleia de bairro urbano. Impor um modelo único — seja o soviete, a comuna, o sindicato ou a federação — é repetir o erro autoritário de sacrificar a realidade à teoria.
Em vez disso, o sintetismo propõe que experimentemos constantemente com formas organizativas, aprendendo com sucessos e fracassos. Algumas comunidades funcionarão melhor com delegação rotativa; outras com consenso modificado; outras ainda com democracia direta radical. A pluralidade organizativa não é caos — é adaptação inteligente à diversidade de situações.
Mas essa flexibilidade não significa relativismo. Certos princípios são inegociáveis: a propriedade coletiva dos meios de produção, a abolição de hierarquias permanentes, a rotatividade de funções coordenadoras, a revogabilidade de mandatos, a transparência nas decisões. Dentro desses limites, mil flores podem florescer.
Federalismo: A Solução Para a Escala
Um dos pontos cegos do anarquismo clássico foi a questão da escala. Como organizar sociedades complexas, com milhões de pessoas e infraestruturas interdependentes, sem recorrer ao Estado? O sintetismo oferece a resposta: federalismo libertário.
Comunas locais, cooperativas, sindicatos e assembleias mantêm autonomia absoluta sobre suas questões internas. Questões que afetam múltiplos coletivos — distribuição de recursos hídricos, redes de energia, coordenação de transportes — são decididas em federações compostas por delegados com mandatos imperativos e revogáveis. Esses delegados não governam; eles coordenam. Não decidem; eles executam decisões tomadas nas bases.
Quanto maior a escala da questão, mais níveis de federação são necessários: bairro → cidade → região → território. Mas o poder sempre flui de baixo para cima, nunca o contrário. E as instâncias federadas existem apenas enquanto necessárias — dissolvem-se quando a questão que as originou se resolve.
Esse modelo não é hipotético. Foi praticado na Catalunha revolucionária de 1936, nas comunidades zapatistas de Chiapas, nas estruturas de Rojava. Não é perfeito — enfrenta problemas de comunicação, coordenação e, sim, também de poder informal — mas demonstra que organização complexa sem Estado é possível.
Enfrentar o Conflito Sem Criar um Leviatã
A questão do conflito irreconciliável é real e deve ser enfrentada sem ilusões. Mesmo em sociedades libertárias, haverá violência interpessoal, abuso, crimes contra a comunidade. A diferença está em como respondemos.
Em vez de um aparato policial e prisional permanente, comunidades autogestionadas podem criar sistemas de justiça restaurativa, mediação popular e, em casos extremos, exclusão comunitária decidida coletivamente. Em vez de prisões, medidas como reparação de danos, trabalho comunitário obrigatório, ou isolamento temporário com foco em reintegração.
Isso é mais difícil que terceirizar a violência para o Estado? Sim. Exige maturidade coletiva, capacidade de lidar com ambiguidades, e aceitação de que nem todo problema tem solução limpa? Absolutamente. Mas é o preço de viver sem delegar nosso poder de vida e morte a uma classe separada de burocratas armados.
E para ameaças externas — Estados vizinhos que tentem esmagar a experiência libertária — o sintetismo não abraça pacifismo ingênuo. Reconhece a necessidade de autodefesa popular organizada, milícias comunitárias federadas, estratégias de resistência que vão da guerrilha à não-cooperação massiva. A Revolução Espanhola e a defesa de Rojava mostram que é possível lutar sem reproduzir militarismo autoritário.
Construir Agora o Mundo de Amanhã
O sintetismo se distingue tanto do reformismo (“mudaremos o Estado por dentro”) quanto do insurrecionalismo puro (“destruiremos tudo e depois veremos”). Sua proposta é simultaneamente construtiva e destrutiva: construir as estruturas da sociedade livre dentro da casca da velha enquanto se mina essa casca por todos os lados.
Isso se manifesta em ações concretas:
No trabalho: organizar sindicatos combativos que lutem por melhorias imediatas mas também eduquem para a autogestão; criar cooperativas que demonstrem que produção sem patrões funciona; ocupar fábricas abandonadas e colocá-las para produzir sob controle operário.
Na moradia: ocupar prédios vazios em cidades com gente na rua; criar comunas urbanas que experimentem com vida coletiva; pressionar por habitação enquanto se constrói alternativas à propriedade privada.
Na educação: criar escolas livres que pratiquem pedagogia libertária; ocupar universidades para democratizá-las; produzir conhecimento que sirva à emancipação, não ao mercado.
Na economia: estabelecer redes de troca direta que contornem o mercado; criar bancos de tempo e moedas sociais; construir cadeias de abastecimento solidárias que conectem produtores e consumidores sem intermediários capitalistas.
Na defesa: organizar comitês de autodefesa comunitária que substituam a polícia; criar redes de apoio mútuo para vítimas de violência; treinar comunidades em mediação e justiça restaurativa.
Cada uma dessas ações é, ao mesmo tempo, uma melhoria concreta e uma escola de autogoverno. Cada cooperativa que sobrevive ensina que patrões não são necessários. Cada assembleia que decide efetivamente prova que não precisamos de políticos profissionais. Cada rede de apoio mútuo demonstra que o Estado de bem-estar social pode ser substituído por solidariedade horizontal.
A Revolução Como Processo, Não Como Evento
O sintetismo abandona a fantasia da Revolução com R maiúsculo — o momento mítico em que tudo muda de uma vez. A história não funciona assim. Transformações sociais profundas são processos longos, feitos de avanços e recuos, vitórias parciais e derrotas temporárias.
Mas isso não é desalentador; é libertador. Significa que a revolução começa agora, em cada gesto de autonomia, em cada ato de solidariedade, em cada recusa da autoridade. Não precisamos esperar as “condições objetivas” perfeitas ou o momento insurrecional ideal. Podemos começar a viver de forma libertária hoje, mesmo dentro de sociedades autoritárias, criando ilhas de liberdade que se expandem e se conectam.
Quando essas ilhas forem tantas e tão interconectadas que o Estado se tornar irrelevante para a maioria das pessoas na maioria das situações — não porque foi derrubado, mas porque foi contornado — teremos alcançado não A revolução, mas uma revolução: permanente, inacabada, sempre se reinventando.
A Síntese Como Horizonte Aberto
O sintetismo anarquista não oferece certezas absolutas nem blueprints definitivos. Oferece princípios — igualdade, liberdade, solidariedade, apoio mútuo — e a disposição para experimentar múltiplas formas de realizá-los. Oferece a recusa tanto do dogmatismo sectário quanto do ecletismo sem princípios.
A política institucional continuará “nunca mudando” porque é isso que ela faz: conservar. Mas enquanto ela se conserva, nós construímos — em mil frentes simultâneas, com mil táticas diferentes, sempre aprendendo, sempre adaptando, sempre avançando.
E quando finalmente construirmos uma rede suficientemente densa de relações horizontais, de estruturas autogestionadas, de práticas libertárias — quando a solidariedade for mais forte que a competição, quando a cooperação for mais eficiente que a hierarquia, quando a liberdade for mais segura que a autoridade — então não precisaremos nos perguntar se a política mudou.
Simplesmente teremos criado uma forma de vida em que a política, como a conhecemos hoje — essa dança de dominação e submissão — já não fará sentido. E isso não será o fim da história, mas seu recomeço: a primeira vez que a humanidade será verdadeiramente livre para decidir seu próprio destino.





