Por Akracia – Fenikso Nigra

Você acorda, vai trabalhar, paga impostos, obedece leis que não escolheu. Parece natural, não é? Como respirar ou sentir fome. Mas não é. Nada disso é natural.

O poder se naturalizou na nossa percepção como o ar que respiramos. Aceitamos que alguém precise mandar e que a maioria precise obedecer. Aceitamos hierarquias no trabalho, na política, na família. Dizem que sempre foi assim, que precisa ser assim. Mentem.

Durante milênios, comunidades humanas se organizaram sem Estados, sem patrões, sem polícia. Os Mbuti da África Central, os Hadza da Tanzânia, centenas de sociedades pelo mundo demonstraram que a organização horizontal não é utopia — é registro histórico. A Ucrânia livre de Nestor Makhno, entre 1918 e 1921, coordenou milhões de pessoas sem governo central. A Catalunha revolucionária de 1936 coletivizou fábricas e fazendas enquanto enfrentava fascistas e stalinistas. Rojava, no norte da Síria, constrói hoje uma sociedade sem Estado em meio à guerra.

Esses exemplos não são perfeitos. Nenhuma organização humana é. Mas destroem o mito de que precisamos de chefes para não cair no caos.

O truque está em confundir organização com hierarquia. Você consegue organizar um churrasco com amigos sem eleger um ditador do churrasco. Consegue coordenar um mutirão, planejar uma viagem, criar filhos em parceria. Faz isso constantemente. A cooperação voluntária funciona na sua vida cotidiana — mas dizem que no “mundo real” isso é impossível.

O mundo real? Este aqui, onde corporações destroem o planeta com aval dos governos? Onde pessoas morrem de fome enquanto se desperdiça um terço da comida produzida? Onde a democracia representativa nos dá a escolha ilusória entre variações do mesmo sistema?

A naturalização do poder é uma conquista ideológica impressionante. Conseguiram fazer bilhões de pessoas acreditarem que a submissão é inevitável, que a exploração é necessária, que a liberdade verdadeira é perigosa. Ensinaram isso nas escolas, repetiram na mídia, codificaram nas leis.

Mas toda naturalização é artificial. Alguém construiu essa percepção, e alguém pode desconstruí-la.

Quando você questiona um chefe, quando recusa uma ordem injusta, quando organiza com colegas sem esperar permissão — está desnaturalizando o poder. Quando percebe que toda autoridade precisa de sua obediência para existir, o feitiço começa a quebrar.

A revolução não começa com a tomada do poder. Começa quando paramos de acreditar que o poder é necessário. Quando entendemos que organização não requer dominação, que segurança não requer vigilância, que prosperidade não requer exploração.

Nada do que nos oprime é natural. Tudo foi construído, e tudo pode ser destruído. A primeira demolição acontece na cabeça: parar de ver correntes como se fossem parte do corpo. Depois vem o resto.

O poder só parece inevitável para quem esqueceu de questionar.

Mais sobre a série DESNATURALIZAR O PODER AQUI!

A Ilusão da Necessidade
Tags: