
Por Akracia – Fenikso Nigra
Enquanto Elon Musk encerra 2025 com uma riqueza estimada em cerca de mais de US$ 700 bilhões, tornando-se a pessoa mais rica da história, centenas de milhões de pessoas sobrevivem com menos de três dólares por dia. Essa disparidade não é um desvio ocasional nem resultado de genialidade individual excepcional. É a manifestação normal de um sistema econômico estruturado para concentrar propriedade e poder, enquanto produz miséria de forma sistemática.
Os números expõem uma realidade incontornável. Segundo dados das Nações Unidas, mais de 690 milhões de pessoas vivem em pobreza extrema, e aproximadamente 2,8 bilhões não dispõem de renda suficiente para garantir condições mínimas de existência digna. Ao mesmo tempo, a riqueza de um único indivíduo ultrapassa o produto anual de países inteiros. Não se trata de comparar métricas econômicas distintas, mas de evidenciar o absurdo político: uma pessoa controla mais riqueza do que sociedades inteiras conseguem produzir coletivamente em um ano.
Essa concentração não surge do nada. Ela se constrói por meio de mecanismos bem conhecidos. A fortuna de Musk deriva majoritariamente da valorização de ativos financeiros — ações e participações societárias — em empresas profundamente dependentes de infraestrutura pública, subsídios estatais, cadeias globais de extração e trabalho precarizado. A produção de veículos elétricos e tecnologias espaciais exige lítio, cobalto e terras raras, frequentemente extraídos em regiões do Sul Global sob condições que devastam territórios, destroem comunidades e perpetuam relações coloniais de exploração.
Não é Musk quem projeta cada veículo, escreve cada linha de código ou monta cada componente. São milhares de trabalhadoras e trabalhadores distribuídos globalmente. O que ele controla não é a capacidade produtiva, mas títulos de propriedade que lhe garantem poder de decisão, apropriação de excedentes e influência política desproporcional. A riqueza não está em “dinheiro em caixa”, mas em controle social real — sobre trabalho, recursos e futuro.
A história mostra que outras formas de organização são possíveis. Desde 1994, as comunidades zapatistas em Chiapas constroem sistemas de saúde, educação e produção baseados em autogestão, assembleias comunitárias e rejeição consciente da acumulação individual. Na Argentina, durante a crise de 2001, fábricas abandonadas foram recuperadas por trabalhadoras e trabalhadores, mantendo a produção sob controle coletivo. No Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra organiza cooperativas onde a terra produz para alimentar pessoas, não para enriquecer proprietários ausentes.
Essas experiências demonstram algo fundamental: a produção não depende da existência de bilionários. Conhecimento técnico, coordenação e trabalho coletivo existem independentemente da concentração de propriedade. O capitalismo tenta nos convencer de que figuras como Musk são indispensáveis, quando, na realidade, são apenas intermediários da apropriação.
A questão central não é moralizar a ganância individual, mas compreender que fortunas dessa magnitude são resultado direto do funcionamento regular do capitalismo. O problema não é a falta de bilionários “éticos”, mas a própria existência de bilionários. Onde há propriedade privada concentrada dos meios de produção, há hierarquia, dominação e miséria.
A transformação não virá da filantropia empresarial nem de ajustes fiscais pontuais. Impostos não desmontam relações de poder; apenas as administram. A mudança real nasce da organização popular no território: cooperativas autogeridas, ocupação de espaços ociosos para produção coletiva, redes de troca solidária, defesa comunitária da terra e dos bens comuns. Cada recurso retirado do controle privado e colocado sob gestão coletiva é um passo concreto contra a lógica da acumulação.
Enquanto for possível que uma pessoa concentre centenas de bilhões enquanto milhões passam fome, não há democracia, apenas administração da desigualdade. A emancipação não será concedida de cima — será construída horizontalmente, na prática cotidiana da solidariedade e da autogestão.
Na luta somos pessoas dignas e livres!





