Quando a Soma surgiu, especialmente na ocasião em que comecei a divulga-la no meio universitário brasileiro, ocorreu evidente concorrência do meu trabalho com o das outras terapias, porque é sempre o mesmo contigente humano e social que procura terapia não-tradicional. São, na maioria, jovens de classe média, estudantes, bancários, comerciários, profissionais liberais recém-formados, artistas em geral e no início de suas carreiras, bem como jornalistas, professores e intelectuais mal-assalariados.
Raros foram os primeiros participantes dos grupos de Soma que já não tivessem experimentado outras formas alternativas de terapia, no fim da década de setenta e começo da de oitenta. O restante das pessoas disponíveis no mercado psicoterapêutico eram pessoas de melhor poder aquisitivo que, com raras exceções, utilizavam-se da Psicanálise.

Mas isso não impediu que, nos primeiros anos, alguns executivos e senhoras ricas também frequentassem a Soma, assim como acontecia com militantes do Partido Comunista e membros do clero católico. Entretanto, todos, sem exceção, abandonavam o trabalho pela metade ou, mesmo se o terminavam, dele não tiravam proveito algum, alé dos poucos beneficios bionergéticos. Ouvi esta frase, dita com grande tirsteza, por um industrial jovem que participou de um grupo de Soma, quando o abandonava no meio da terapia: “Ah, seu pudesse ser e viver como vocês!” A Soma não tem poder algum de mudar a opção politica das pessoas, sobretudo quando ancoradas e justificadas pelo fator econômico.

Com o passar dos anos, entretanto, mais devido aos fracassos que pelos eventuais sucessos terapeuticos, a Soma deixou de participar da concorrência no mercado terapêutico brasileiro. O perfil das pessoas que podem beneficiar-se da Soma foi-se definindo aos poucos também. Hoje trabalhamos, na grande maioria dos casos, com pessoas que não se beneficiaram e não vão se beneficiar nunca com os outros tipos de terapia existentes no mercado terapêutico brasileiro.

Estava surgindo, então, um novo tipo de pessoas interessadas em terapia, mas tratava-se de um tipo tão diverso das demais que nos sentimos obrigados, inclusive, a não usar mais o termo cliente para designá-las. Passamos a chamar as pessoas que trabalham em Soma de membros ou participantes do grupo. Assim como acabou o que se designa por cliente, teve fim também a finalidade clínica em nossa terapia. Vamos explicar melhor isso, e então ficará mais fácil traçar o perfil dos frequentadores da Soma.

Partimos do princípio reichiniamo e antipsiquiátrico de que a neurose e a psicose, qualquer alteração da vida emocional e psicológica das pessoas, são produzidas de fora para dentro, ou seja, da família e da sociedade sobre a pessoa, especialmente de como esta reage e responde à intervenção heterorreguladora sobre sua capacidade autogestiva natural. Assim, concluímos estar limitando o nosso trabalho na Soma a reforçar as defesas orgânicas e políticas das pessoas, para que enfrentem melhor essa intervenção externa indevida a sua autonomia biológica e social. A Soma exerceria, portanto, mais um trabalho pedagógico e profilático do que propriamente clínico e terapêutico.

Passamos para os médicos que exercem Antipsiquiatria as pessoas que de alguma forma estejam ligadas à Soma e perderam a capacidade de lutar por sua autonomia, bem como apresentam os sintomas habituais de distúrbios mentais. Esses antipsiquiatras com os quais nos associamos para o atendimento dessas pessoas o fazem de modo clínico desarmado (sem internação, sem violência, sem convulsoterapia, sem impregnação) em atendimento ambulatorial ou em comunidades terapêuticas (estas, as verdadeiramente antipsiquiatricas, são muito raras ainda no Brasil).

Vamos agora ao perfil do frequentador da Soma: são, na maioria jovens conscientes da origem externa (família, cultura e sociedade) do que está inibindo ou bloqueando os naturais potenciais de luta por sua autonomia, independência, liberdade afetiva e criativa. Certamente, devido a esses bloqueios originados na infância e que perduram até o momento que procuram terapia, eles já apresentam alguns dos sintomas neuróticos clássicos em maior ou menor intensidade, porém ainda sem gravidade, com angústia, a ansiedade, a depressão e o medo, frequentemente acompanhados de dificuldade na vida social, afetiva e sexual.

Devido à divulgação atual da Soma, talvez ainda por terem encontrado em meus livros a explicação e comprovação científica do que já intuíam e compreendiam empiricamente, esses jovens nos procuram de certo modo preparados para trabalharem em nossa metodologia terapêutica, aceitando e desenvolvendo sua intenção mais profilática e pedagógica do que clínica e terapêutica.

Além disso, existe uma regra infalível que descobri durante esses anos de terapia: só apresenta sintomas neróticos que lutou por sua autonomia, por sua natureza, por sua independência, sobretudo pela necessidade biológica de amar e criar em liberdade. Portanto todo neurótico, se ainda não perdeu  a consciência do pragmatismo social, é um subversivo, um dissidente, um revolucionário em relação à família, à cultura e à sociedade autoritária nas quais ele foi formado. Isso lhe permite perceber com clareza e rapidez o conteúdo e origem política de sua neurose, ou seja, sente e entende na carne o conflito de poder entre sua natureza original, espontânea e o autoritarismo de Estado vivido através da relação familiar e afetiva, nas quais o amor está sendo usado como instrumento de chantagem e de dominação.

O frequentador da Soma é uma pessoa que sabe serem seus problemas derivados diretamente da organização familiar burguesa e da utilização do amor pela burguesia como instrumento de poder. Assim, ele necessita de uma sociologia antitautoritária em todos os níveis da vida pessoal e social e, pesquisando e estudando, descobre só existir essa possibilidade e essa força no anarquismo (socialismo libertário), o único antídoto real e eficiente no combate ao autoritarismo da família e da sociedade burguesas.

Mas o frequentador comum da Soma, se já não era completamente, logo se torna um realista, ou seja, ele sabe que pode, com esse trabalho e com sua ideologia libertária, defender-se do autoritarismo familiar e social, mas não pode impede-lo de se exercer e de se expandir. Por essa razão, ao mesmo tempo que faz sua terapia libertária, procura conscietizar-se, a engajar-se e a militar em movimentos sociais e políticos que visem, de algum modo, a combater todas as formas de autoritarismo. Procura, sobretudo, divulgar e implantar em sua vida pessoal, no amor, na criação e na produção, a autogestão e os demais princípios de vida, de associação e de produção anarquistas.

Invariavelmente, ocorre na consciência desses jovens, à medida que a Soma vai produzindo seus efeitos, a compreensão de que é possível ser um libertário dentro de um regime autoritário. Descobre também que se pode viver um amor sem dominação e uso do outro, que se pode criar e manter uma família sem pátrio poder e sem chantagens afetivas sobre filhos, que podemos nos sustentar e sustentá-la em produção individual ou autogestiva associados a companheiros também libertários. É frequente conseguirmos provar, através da Soma, que uma vez desbloqueado o nosso potencial criador, se aprendemos a mobilizar  e economizar  energia vital, se nos revitalizamos pela vivência do amor em liberdade, se estamos preparados para lutar, enfim, nessas condições, a Soma pode revelar e liberar o anarquismo nato e visceral que há em nós, não importando muito em que ambiente social e político estejamos vivendo.

Claro que isso só será possível se aceitarmos, entendermos e desenvolvermos a condição de marginais na sociedade autoritária, capitalista e burguesa. O desenvolvimento e a manutenção dessa marginalidade competente, criativa e produtiva constituem o último estágio terapêutico competente se revelam, por exemplo, artistas, cientistas e artesãos de todos os tipos, cuja a produção atinge tal originalidade e qualidade, que passa a ser consumida em quantidade proporcional à sua beleza e indispensabilidade.

Depois da publicação de meu livro Coiote, devido às características do personagem que dá nome ao romance e ao estilo de vida por ele implantado na comunidade anarquista que fundam em Mauá, os próprios participantes da Soma passaram a designar por coiotes as pessoas que melhor e mais se beneficiam desse tipo de terapia. Em verdade, para mim, coiotes são os jovens protomutantes, ou seja, o tipo de homem que construirá o futuro da humanidade, quando chegarem a um número suficiente, não em natureza diversa, mas em desbloqueio do que lhes é natural, pois presumo estarem todos por aí, em processo crescente de desbloqueio, tanto por terapias quanto pelo pŕoprio processo evolutivo da vida no planeta. Em resumo, os participantes de Soma são anteriores à Soma, que surgiu apenas para atender às suas necessidades de sobrevivência política e ecológica.

Do livro Soma – Uma terapia anarquista vol 2 – A arma é o corpo
Roberto Freire

Os participantes da Soma
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