Em 1907, quando A Terra Livre era publicada no Rio de Janeiro, Neno Vasco recebeu um colaborador parisiense que viajara meio mundo: Paulo Berthelot. Conhecedor de várias línguas, seu maior interesse, como o de muitos anarquistas, era o de ensinar ao mundo o esperanto, ‘a língua internacional’.” (DULLES, 1980, p.21) 

Ainda há de ser escrita, um dia, a história da penetração do esperanto em território brasileiro nas primeiras décadas do século passado. Não se trata de fazer uma obra louvando os abnegados pioneiros da elite intelectual – médicos, advogados, engenheiros, literatos – dos quais sempre se fala em históricos do movimento esperantista no Brasil[1] Trata-se de trazer à luz uma história silenciada, mencionada de passagem em obras acadêmicas e temáticas, mas quase completamente desconhecida pelos esperantistas. Muito antes de em nossas terras o esperanto ser conhecido como ‘língua de espírita’, era, entre as décadas de 1900 e 1920, bastante identificado com os movimentos sociais dos trabalhadores. Notícias contam que anarquistas, anarco-sindicalistas, libertários – o grosso do proletariado, que por sua vez constituía-se majoritariamente por imigrantes italianos, espanhóis e portugueses – estudavam a língua internacional, propagandeavam-na, compunham hinos no idioma e praticavam-na entre si.

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Paul Berthelot (criador, em 1905, da revista Esperanto, que se tornaria o mais importante veículo de comunicação esperantista, e quatro anos depois eleito membro da Lingva Komitato), estando em Montevidéu em 1907, se dirigiu ao Rio de Janeiro afim de participar do primeiro Congresso Brasileiro de Esperanto. Lá conheceu Neno Vasco, anarquista português, e outros anarquistas, passando a se relacionar com eles. Sobre Berthelot, o historiador Edgar Rodrigues registra em seu dicionário biográfico ‘Os companheiros’:

“Paul Berthelot chegou ao Rio de Janeiro em 1907 para participar de Congresso Esperantista. Conheceu Neno Vasco, seu cunhado Moscoso e outros militantes anarquistas com os quais passou a conviver. Não obstante seu compromisso com os adeptos de Zamenhof, integrou-se também ao Grupo Terra Livre, passando a colaborar no jornal de igual nome dirigido por Neno vasco, com o pseudônimo de Marcelo Verema.”

Na mesma página há um relato de Neno Vasco sobre o anarquista francês:

Por volta de 1907, apareceu na redação de um jornal do Rio, conduzido por um médico, um tipo curioso de esperantista, com a sua “verde estrela” no boné, vindo de Montevidéu. Era Paul Berthelot, um parisiense de 27 anos, que falava velozmente o esperanto, sabia várias línguas, viajara meio mundo e era conhecido entre os esperantistas por ter colaborado em algumas obras da língua de Zamenhof (entre elas um vocabulário) e também, sob o pseudônimo de Marcelo Verema, na imprensa esperantista.

E em breve se tornou familiar entre os escritores e jornalistas do meio carioca, contando entre suas relações Medeiros e Albuquerque e Teixeira Mendes, chefe da Igreja Positivista.” (RODRIGUES, 1998, p.62).

De alma inquieta, Berthelot partiu para o interior do Brasil afim de tomar contato com sociedades indígenas, morrendo em 1910 em Conceição do Araguaia, Goiás. Em sua última carta, escrita a Neno Vasco em 5 de agosto, ele desabafa: “Acho-me doente e sem recurso algum nessa povoação; penso até que a morte não está longe” (RODRIGUES, 1998, p.71). Antes de morrer escreve em francês uma alegoria sobre o anarquismo, ‘O evangelho da hora’, cuja primeira versão em esperanto foi publicada já em 1912, e a segunda, uma tradução da versão em português, publicada por Gilbert Ledon em 1990[2].

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Além da presença no Brasil de Paul Berthelot, outro registro muito importante é a utilização do esperanto na colônia penal de Clevelândia, município de Oiapoque, no Amapá, verdadeiro campo de concentração utilizado pelo governo de Artur Bernardes (1922-1926) para deter trabalhadores militantes, principalmente anarquistas. Edgar Rodrigues reproduz em ‘Os companheiros’ o relato de Domingos Braz, um ex-deportado, sobre o cotidiano em Clevelândia:

Gravamos um manuscrito em folhas de papel que mais tarde constituíram um volumoso caderno, contendo todos os nossos hinos libertários já conhecidos em português, espanhol e esperanto (…). À noite e às vezes durante o dia mesmo, entregávamo-nos ao divertimento de cantá-los, além de empregarmos as horas de lazer num curso destinado ao estudo e conhecimento da música, semáfora, alfabeto e conversação dos surdo-mudos, correspondência figurada, ginástica; permuta de conhecimentos sobre português, espanhol, italiano, francês, inglês e esperanto.

Sobre a utilização do esperanto e seu fim trágico no cárcere, ele prossegue:

Sendo que este último – o idioma internacional – começou a ser estudado por nós dentro das masmorras do Rio de Janeiro – na ‘Geladeira’ e outros cubículos da Polícia Central – continuando a bordo do sinistro “Campos” e do negreiro ‘Comandante Vasconcelos’, indo ser interrompido no silêncio sepulcral das selvas inhóspitas do Oiapoque com a morte de nosso saudoso e inesquecível camarada José Alves do Nascimento, um dos mais fervorosos e competentes mestres do idioma internacional em todo o Brasil, cuja propaganda, estudo e divulgação dedicou grande parte de sua existência.” (RODRIGUES, 1995, p.11).

No verbete José Alves do Nascimento, Edgar Rodrigues escreve:

Viveu com outros anarquistas igualmente degredados, sem culpa formada, sem qualquer acusação, nos anos distantes de 1924/25, no lote 15 do igarapé Sipariny, Centro Agrícola Clevelândia. Mais tarde foi transferido para o lote 10 do mesmo Centro.

(…)

José Alves do Nascimento não foi desterrado por acaso, ele era um militante ‘perigoso’, sua inteligência e sua cultura davam maior dimensão às suas idéias anarquistas que semeava em português e em esperanto, língua internacional que cultivava e ensinava aos companheiros nos sindicatos, nos centros de cultura, nos locais de trabalho, nas masmorras governamentais, durante a longa viagem de navio até o Oiapoque, e no meio das selvas seculares amazônicas que absorviam a sonoridades dos hinos revolucionários dos anarquistas (…).” (RODRIGUES, 1997, pp.139-140)

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Como se pôde perceber, em começos do século XX o esperanto já estava bem inserido entre os trabalhadores militantes, e sua inserção se manteve com força pelo menos até as perseguições políticas aos anarquistas durante o governo de Arthur Bernardes[3]. Edgar Rodrigues talvez seja quem mais registrou essas ligações entre esperanto e trabalhadores no Brasil, e em outras suas obras ele fala da utilização da língua internacional por anarquistas já em finais do século XIX.

O que quero dizer, finalmente, é que há uma história do esperanto no Brasil que não é conhecida pelos esperantistas, apesar de ser do conhecimento de quem estuda o movimento operário anarquista, em especial (mas não apenas), do período da Primeira República. Nos históricos e cronologias da língua internacional em nossas terras, sempre se fala de figuras proeminentes na sociedade. Mas da gente simples, trabalhadores imigrantes e brasileiros que utilizavam o esperanto para se comunicar face à Babel que era a classe operária brasileira, destes nada se fala.

Vergonha? Temor de ver o esperanto associado às ‘classes perigosas’ de anarquistas a delinqüentes? Ou apenas medo de que a perseguição política colocasse em risco as atividades esperantistas da pequena burguesia? Cumpre um estudo aprofundado sobre o tema. A documentação creio que não seja tão difícil: a imprensa operária do período já pode ser um bom pontapé para a pesquisa, e muito dela se encontra no Arquivo Edgar Leuenroth, na UNICAMP (www.ifch.unicamp.br/ael). A imprensa esperantista da época também pode ajudar, e possivelmente na biblioteca da Liga Brasileira de Esperanto (www.esperanto.org.br) existam exemplares. Enfim, trata-se de uma pesquisa complicada, devido aos deslocamentos necessários, mas se feita – e bem feita – pode resultar num trabalho interessantíssimo pra se compreender o imaginário dos trabalhadores e dos esperantistas na época em questão. A quem se interessar, mãos à obra.

Artigo escrito por Rafael Lins

Bibliografia:
DULLES, John W. F. Anarquistas e comunistas no Brasil (1910-1935). Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1980.
RODRIGUES, Edgar. Os companheiros 2. Rio de Janeiro, VJR, 1995.
RODRIGUES, Edgar. Os companheiros 3. Florianópolis, Editora Insular, 1997.
RODRIGUES, Edgar. Os companheiros 5. Florianópolis, Editora Insular, 1998.


Esperanto, a língua perigosa no Brasil
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