Da menina se cobra: delicadeza, prontidão para cuidar⁄ servir alguém, ouvir mais e falar menos, movimentos contidos, ter o corpo objeto da beleza-revista e ser amável.

Algumas dessas exigências não são por si só nocivas. Ser amável e cuidar das pessoas são ações que, se incentivadas a todxs, nos traria melhor convivência. A armadilha é que enfaticamente da menina se exigem essas posturas, para que ela vá se conformando em ser responsável exclusiva pelo que deveria caber a todxs (tarefas domésticas, cuidar das pessoas, etc) e aceite sufocar suas emoções e desejos para, em prioridade, servir aos pares (pais, marido, companheiro, filho).

Aos poucos e gradativamente, vão dizendo que a “menina querida” realiza-se no doar-se ao outro, anula suas próprias vontades para, em prioridade, fazer o outro feliz. O amor vai sendo associado à anulação. Uma armadilha perversa que pode trazer culpa quando desafiada. Egoísta e vadia, assim são chamadas muitas das que tentam uma vida em que amor seja troca e não anulação do tempo e vida de um.

Essa violenta pressão foi bem mais intensa nos anos passados. Já foi bem mais difícil às mulheres dizer não aos abusos em nome do “amor ao próximo”, mas o fardo não acabou, se reconfigurou. Pesquisas apontam, por exemplo, que houve mudanças na distribuição do trabalho doméstico, os homens dedicam mais tempo hoje, porém, mesmo assim, as mulheres continuam protagonistas: dedicam, no mínimo, 15 horas semanais ao trabalho de casa, o dobro do tempo mínimo dos homens. Essas tarefas ainda estão sob as costas das mulheres, elas ainda são, em exclusivo, o ser que vem ao mundo para “dar-se” no espaço doméstico e conter-se no espaço público. Delicadeza em pessoa, enquanto um vulcão fica submerso.

Ainda tentam. Vários atos nos dizem que, para sermos amadas e respeitadas, devemos ser contidas, delicadas, sufocar nossas vontades, cuidar da casa como protagonista e ter “ajuda” dos próximos. Quantas vezes nos sentimos culpadas ao desafiar esse “amor” e querer algo a mais da vida?

Quanto mais a situação econômica é precária, maior a culpa sob os ombros. Se ao homem pobre parece luxo querer algo mais que um cotidiano de tédio e exploração, para mulher pobre, então, é enorme atrevimento, afinal a existência feminina se baseia em servir, seja ao patrão, seja à família. Negar esse “dom” especial que a sociedade nos deu é ser vadia, ingrata, é `querer demais`.

Destruir essa figura feminina submissa, delicada, sempre sorridente, beleza-revista, contida no espaço público e responsável primeira nos afazeres domésticos AINDA é uma batalha que travamos todos os dias. E não a fazemos porque queremos inverter o sinal e mudar o alvo da dominação, e sim porque sentimos na pele que a submissão rouba o tempo e prazer da vida, fere, mutila e mata. Não a queremos pra ninguém.

Cessi – Campinas ⁄ SP – março, 2015

Amor e Anulação
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