Por Akracia – Fenikso Nigra

Patriarcado não é tema secundário da luta libertária – é estrutura de dominação tão antiga e profunda quanto Estado e propriedade privada. Feminismos anarquistas reconhecem isso há mais de um século, mas durante muito tempo foram tratados como “questão específica” dentro de movimentos mistos, como se opressão de gênero pudesse esperar revolução econômica acontecer primeiro.

A síntese anarquista recusa essa hierarquização de lutas. Compreende que exploração de classe, opressão de gênero, racismo e outras dominações não são camadas separadas que podem ser enfrentadas sequencialmente, mas sistemas entrelaçados que se reforçam mutuamente. Não há revolução social sem destruição do patriarcado.

Feminismos dentro do guarda-chuva

Feminismos libertários são plurais. Há quem enfatize autonomia organizativa de mulheres e pessoas dissidentes de gênero, construindo espaços próprios onde possam elaborar análises e práticas sem mediação masculina. Há quem priorize articulação em movimentos mistos, disputando internamente contra machismo e garantindo que pautas feministas não sejam apagadas. Há quem combine ambas estratégias conforme contexto.

Essa diversidade não é problema – é riqueza. Síntese reconhece legitimidade de diferentes abordagens: grupos separatistas que constroem poder próprio, coletivos mistos com práticas feministas, redes que transitam entre ambos. O que une essas vertentes não é método único, mas princípios compartilhados: rejeição de toda autoridade patriarcal, autogestão de corpos e vidas, solidariedade entre oprimidas.

Autonomia organizativa

Espaços exclusivos para mulheres e dissidências de gênero não são concessão nem privilégio – são necessidade política. Em movimentos mistos, mesmo libertários, reproduzem-se silenciamentos, mansplaining, divisão sexual do trabalho militante (homens falam, mulheres cozinham; homens teorizam, mulheres cuidam).

Autonomia organizativa permite elaborar análises próprias sem ter que justificar constantemente vivências para quem não as experimenta. Grupos feministas autônomos criam metodologias, identificam opressões específicas, desenvolvem práticas de cuidado mútuo e autodefesa que movimentos mistos frequentemente negligenciam.

Isso não significa isolamento. Autonomia fortalece capacidade de articulação – quando mulheres e dissidências chegam em espaços mistos já organizadas, com posições construídas coletivamente, disputam poder real em vez de mendigar escuta.

Interseccionalidade como prática

Feminismo que ignora racismo reproduz opressão. Feminismo que ignora classe serve apenas mulheres privilegiadas. Feminismo que ignora lesbofobia, transfobia, capacitismo constrói liberdade para poucas.

Síntese feminista é necessariamente interseccional: reconhece que mulher negra enfrenta violências distintas de mulher branca, que trabalhadora precarizada vive realidade diferente de profissional liberal, que pessoa trans sofre violências que mulher cis não experimenta. Não basta somar opressões – é preciso compreender como se entrelaçam produzindo experiências específicas.

Na prática, isso significa construir espaços onde mulheres negras, indígenas, trans, lésbicas, trabalhadoras, mães solo, migrantes tenham voz ativa e poder decisório, não apenas presença simbólica. Significa questionar privilégios dentro do próprio movimento feminista – branquitude, cisgeneridade, classe.

Violência machista e justiça transformativa

Violência machista não acontece só “lá fora” – acontece dentro de movimentos libertários também. Assédio, abuso, estupro existem em coletivos anarquistas. Romantizar movimento como imune a essas violências é cumplicidade.

Como lidar sem recorrer a polícia ou Estado? Justiça transformativa oferece caminhos: processos comunitários de responsabilização que não dependem de instituições punitivas. Quando violência ocorre, comunidade se organiza para apoiar vítima/sobrevivente, confrontar agressor, criar condições para reparação e transformação.

Isso exige maturidade coletiva, disposição para enfrentar desconfortos, recusa de proteger “companheiros” por lealdade política. Muitos processos falham – agressores são protegidos, vítimas revitimizadas. Mas alternativa não é Estado, que também falha sistematicamente e ainda criminaliza pobres, negras, trans.

Síntese reconhece que justiça transformativa é aprendizado coletivo longo, com erros e acertos. Não há manual pronto. Cada comunidade constrói protocolos conforme suas condições, sempre priorizando segurança de quem sofreu violência.

Trabalho reprodutivo e divisão sexual

Revolução que não redistribui trabalho de cuidado não liberta mulheres. Cozinhar para assembleia, limpar espaço ocupado, cuidar de crianças durante atividade são trabalhos políticos – não tarefas naturalmente femininas.

Coletivos sintetistas criam rodízios obrigatórios de tarefas reprodutivas, questionam quem fala e quem limpa, quem teoriza e quem cuida. Homens cis precisam assumir trabalho de cuidado não como favor, mas como responsabilidade política. Quando não o fazem, usufruem de privilégio patriarcal dentro de espaço que se pretende libertário.

Algumas experiências criam comissões de gênero que monitoram divisão de trabalho, apontam desigualdades, propõem correções. Outras adotam sistema de pontos para garantir distribuição justa. Não há fórmula única – síntese experimenta.

Maternidade e militância

Movimentos frequentemente são hostis a maternidade – reuniões noturnas sem espaço infantil, ações que exigem disponibilidade total, cultura militante que valoriza sacrifício individual. Isso expulsa mães, especialmente mães solo, pobres, negras.

Feminismos anarquistas constroem práticas que tornam militância compatível com maternagem: espaços infantis autogeridos durante atividades, horários flexíveis, valorização de cuidado como trabalho político, redes de apoio mútuo para criação coletiva.

Isso beneficia não só mães – beneficia toda comunidade. Presença de crianças transforma dinâmicas, suaviza cultura de confronto permanente, lembra que construímos futuro para próximas gerações.

Corpo, sexualidade, autonomia reprodutiva

Controle sobre corpo é questão central. Direito a aborto, acesso a métodos contraceptivos, parto humanizado, livre expressão sexual, transição de gênero – tudo isso enfrenta resistências estatais, religiosas, médicas, familiares.

Feminismos libertários constroem redes de apoio mútuo que garantem acesso a direitos que Estado nega ou concede precariamente: acompanhamento de abortos seguros, parteiras autônomas, hormonização comunitária para pessoas trans, grupos de apoio contra violência obstétrica.

Essas redes funcionam em semi-clandestinidade, protegendo quem as integra enquanto oferece serviços que deveriam ser públicos mas são criminalizados ou precarizados. São exemplos concretos de duplo poder feminista.

Tensões com androcentrismo libertário

Parte do anarquismo histórico reproduziu machismo: teóricos que ignoraram contribuições feministas, movimentos que trataram mulheres como apoio, sindicatos que defenderam “salário família” mantendo mulher dependente.

Síntese não romantiza passado. Reconhece que anarquismo também foi (e ainda é) permeado por patriarcado. Mas aposta que princípios libertários – rejeição de autoridade, autogestão, solidariedade – quando levados a sério, desembocam necessariamente em feminismo.

Tensão permanece: homens cis em movimentos mistos frequentemente resistem a práticas feministas, acusam-nas de “divisão”, defendem que “luta principal” é outra. Síntese enfrenta essa tensão não com expulsões sumárias, mas com disputa cotidiana, formação política, práticas concretas que demonstram que feminismo fortalece, não enfraquece, luta libertária.

Por que isso importa na América Latina

América Latina é território de feminicídios massivos, precarização feminina extrema, fundamentalismos religiosos violentos, máfias de tráfico de pessoas. Mas também é território de Ni Una Menos, das Mujeres Creando, das Zapatistas, dos feminismos comunitários indígenas, das Promotoras Legales Populares.

Síntese anarquista dialoga com essas experiências, aprende com feminismos territoriais que não separam luta contra patriarcado de luta por terra, água, território. Reconhece que mulheres indígenas, negras, periféricas constroem feminismos próprios que questionam tanto patriarcado quanto colonialidade – e que movimentos libertários têm mais a aprender que a ensinar.

Autonomia contra patriarcado não é bandeira setorial – é condição para qualquer revolução que mereça esse nome.

Síntese anarquista e feminismos: autonomia contra o patriarcado
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