
Por ICN – Fenikso Nigra
Saiu com uma mala média, dessas que parecem maiores quando estão cheias de expectativa. Dentro, algumas roupas, um casaco comprado às pressas — “lá faz frio de verdade” — e um envelope com os documentos possíveis e os impossíveis. No bolso, a frase repetida no portão para a mãe: “É só até eu me organizar”. Organizar o quê, ninguém sabia ao certo. Talvez a própria vida, que por aqui nunca fechou as contas.
O sonho tinha nome estrangeiro e sotaque duro. Era vendido em vídeos de trinta segundos: casas com gramado impecável, carros brilhando sob o sol da Califórnia, jovens sorrindo diante de letreiros que ainda não sabia ler. Não vendiam trabalho — vendiam chegada. “Lá você trabalha e fica rico”, diziam, como se suor e prosperidade obedecessem à mesma fórmula em qualquer latitude. “Vou ser explorado em dólar”, brincava. Riam, porque rir pesa menos que admitir o risco.
Chegando lá, descobriu que o sonho vinha parcelado em turnos de doze horas. Acordava antes do sol, dormia depois dele. Lavava pratos, carregava caixas, pintava cercas, limpava neve, desmontava a própria dignidade em prestações semanais. O pagamento, convertido em reais, parecia milagre; no corpo, era cansaço acumulado. A equação existia — só omitiram as variáveis.
Chamavam de “worker”, mas não sabiam o nome. Virou “Joe”, “Carlos”, “hey you”. Aprendeu a sorrir com a cabeça baixa e a agradecer mesmo quando o combinado encolhia. Reclamar era luxo de quem tem documentos.
Dividia quarto com outros sonhos desmontados. Histórias parecidas: carro vendido, empréstimo impagável, promessa de enviar dinheiro todo mês. No grupo da família, as fotos eram estratégicas — churrasco improvisado, tênis novo, selfie diante do prédio que limpava por dentro. Nunca o colchão no chão, a marmita repetida, a sirene que gelava o sangue. A curadoria também dava trabalho.
Ser clandestino é viver com o coração na garganta. A sirene deixa de ser som e vira ameaça. Aprende a não chamar atenção, a não errar o idioma, a não existir demais. A terra da liberdade tem corredores estreitos para quem não tem papel.
O que mantém ali é simples e pesado: a geladeira nova da mãe, o curso técnico do irmão, o piso recém-colocado na casa. “Está valendo a pena”, repete, esfregando as mãos rachadas pelo frio — numa casa onde não está.
Na terra das oportunidades, a oportunidade é ser substituível. Se adoece, trocam. Se cansa, trocam. O sistema não exige felicidade — exige rendimento. E rende. A necessidade é uma gerência eficiente.
Com o tempo, aprende a acreditar no próximo degrau: regularizar-se, abrir um negócio, trazer a família. O futuro sempre aparece como justificativa elegante para o presente insuportável. Voltar seria admitir que a piada tinha endereço certo.
“Explorado em dólar” deixa de soar como graça e vira identidade. A moeda forte dá a sensação de escolha — produto bem-acabado demais para ser descartado. Atravessou fronteiras por vontade própria, dizem. A liberdade inclui aceitar as regras.
Numa noite de inverno, esfregando o chão de um restaurante onde jamais se sentaria como cliente, olha para as próprias mãos — vermelhas, rachadas, cheirando a produto químico — e faz a conta: a mãe tem geladeira. O irmão tem curso. A casa tem piso. As mãos estão assim. Espera que digam algo. Não dizem. Volta ao trabalho.
O sonho existe — mas não é para quem carrega o balde. É para quem contrata quem carrega o balde. Para quem está nesse lugar, o sonho é combustível: mantém a máquina ligada. O suor tem valor, sim, mas não o valor prometido. Vale para a economia, para a família, para a estatística. Às vezes, vale só a esperança de um dia deixar de ser clandestino e virar paisagem.
Até lá, acorda antes do sol. Envia fotos sorrindo. Repete, como mantra e anestesia:
“Estou sendo explorado em dólar.”
Porque quando o sonho custa caro demais para abandonar, a gente aprende a chamar de conquista aquilo que também pode ser armadilha — e a acreditar, com a força que sobra depois de doze horas de turno, que ainda há diferença entre as duas coisas.





