
Por Akracia – Fenikso Nigra
O transporte no Brasil é marcado por desigualdades profundas. Enquanto poucos circulam com conforto e rapidez, a maioria enfrenta longas jornadas em ônibus superlotados, trens precários e condições degradantes. Tarifas altas consomem parte significativa da renda das pessoas trabalhadoras, e a estrutura urbana prioriza automóveis particulares em vez de soluções coletivas. Diante disso, o anarquismo propõe repensar o transporte a partir da autogestão e do direito à cidade.
A perspectiva libertária entende que o transporte não deve ser mercadoria nem instrumento de controle estatal. Deve ser um bem comum, organizado pelas próprias comunidades segundo suas necessidades. Isso significa questionar tanto a exploração privada quanto a gestão burocrática centralizada, buscando formas horizontais de decidir rotas, horários e prioridades.
Experiências práticas mostram que outras formas de organizar o transporte são possíveis. Em várias cidades brasileiras, coletivos e associações de ciclistas ocupam as ruas, promovem bicicletadas e constroem ciclovias comunitárias. Esses grupos não esperam autorização: agem diretamente, mapeando trajetos seguros, organizando oficinas de manutenção e criando redes de apoio mútuo. A bicicleta, além de meio de transporte acessível, representa autonomia frente ao sistema.
Iniciativas de caronas solidárias e transportes compartilhados autogeridos também desafiam a lógica do lucro. Quando vizinhos organizam esquemas de deslocamento conjunto, reduzem custos, fortalecem laços comunitários e diminuem a dependência de empresas. Essas práticas, embora modestas, demonstram que a cooperação pode substituir a competição.
Historicamente, movimentos sociais pelo transporte livre ganharam força em diferentes contextos. No Brasil, as Revoltas da Catraca em várias cidades, especialmente as Jornadas de Junho de 2013, partiram da reivindicação pelo passe livre e se expandiram para questões mais amplas sobre como as cidades funcionam e para quem servem. Essas mobilizações trouxeram o debate sobre a gratuidade do transporte e o direito de ir e vir sem barreiras econômicas.
A tarifa zero é uma proposta concreta e realizável. Várias cidades ao redor do mundo já adotaram o transporte gratuito, financiado por impostos progressivos ou taxação sobre grandes propriedades e empresas. No Brasil, municípios menores implementaram sistemas gratuitos com sucesso. A questão não é viabilidade técnica, mas vontade política e pressão popular.
Praticar a autonomia no transporte significa ocupar espaços, organizar alternativas e pressionar por mudanças. Criar coletivos de transporte solidário, mapear rotas acessíveis, participar de assembleias sobre mobilidade urbana e exigir transparência nas decisões são formas de ação direta. Cada pessoa que opta por caminhar, pedalar ou compartilhar deslocamentos desafia o modelo individualista.
Transformar o transporte não é apenas melhorar infraestrutura. É mudar a relação das pessoas com o território, reduzir isolamentos, facilitar encontros e garantir que todas possam circular livremente. Uma cidade onde o movimento é direito, não privilégio, é uma cidade mais justa e habitável.
Na luta somos pessoas dignas e livres!





