Por Akracia – Fenikso Nigra

Você não vê o mundo. Vê a versão editada que chegou até você. Câmera escolhe enquadramento, editor seleciona fatos, manchete define interpretação. Antes de formar opinião, alguém já decidiu o que merece sua atenção, como deve ser entendido, qual emoção deve despertar. Chamam isso de jornalismo. É engenharia de percepção.

Mídia não reflete realidade. Constrói realidade. Decide o que existe e o que não existe no debate público. Greve de milhares some do noticiário — não aconteceu para quem só consome mídia corporativa. Massacre policial vira “confronto”. Ocupação vira “invasão”. Resistência vira “vandalismo”. Cada palavra é escolha política disfarçada de neutralidade técnica.

Observe quem controla. No Brasil, seis famílias dominam praticamente toda mídia de massa: Marinho (Globo), Macedo (Record), Abravanel (SBT), Saad (Band), Mesquita (Estadão), Frias (Folha). Bilionários decidindo o que 200 milhões devem saber, pensar, sentir. Nos Estados Unidos, cinco corporações controlam 90% da mídia. Na Itália, Berlusconi era dono de emissoras e primeiro-ministro simultaneamente. Conflito de interesse? Não. É o sistema funcionando como projetado.

Concentração midiática não é falha de mercado. É lógica de mercado. Produzir conteúdo em escala exige capital imenso. Quem tem capital? Quem se beneficia do sistema atual. Por que essas pessoas financiariam mídia que questiona fundamentos da ordem que as enriquece? Não financiam. Financiam mídia que naturaliza desigualdade, demoniza alternativas, apresenta capitalismo como único horizonte possível.

Publicidade é outro amo. Veículos vendem atenção de audiências para anunciantes. Quem anuncia? Corporações. Reportagem crítica sobre banco arranha relação com setor financeiro. Investigação sobre agrotóxico irrita agronegócio. Denúncia trabalhista incomoda montadoras. A autocensura é sutil, estrutural. Jornalista aprende o que “pega” e o que “não tem espaço”. Editor sabe quais pautas desagradam direção. Direção responde a acionistas e anunciantes, não ao público.

Durante a ditadura militar brasileira, Globo apoiou regime, censurou oposição, legitimou tortura. Não foi coação. Foi parceria. Regime garantia concessão pública de radiodifusão, Globo garantia apoio popular ao regime. Quando ditadura acabou, Globo não pagou pelo crime de colaboração. Manteve concessões, expandiu império, reescreveu própria história. Apresenta-se hoje como defensora da democracia. Memória pública é o que a mídia decide lembrar.

Em 2013, manifestações massivas explodiram no Brasil. Mídia primeiro ignorou, depois demonizou, finalmente cooptou redirecionando pautas. Protestos contra aumento de tarifa viraram “manifestações apartidárias contra corrupção”. Narrativa foi sequestrada, reembalada, devolvida ao público domesticada. Quem controla narrativa controla o que revoltas significam.

Mídia alternativa existe nas margens. Jornalismo independente, rádios comunitárias, canais autogeridos, imprensa sindical. Sobrevivem com recursos mínimos, repressão constante, invisibilidade forçada. Rádios comunitárias são fechadas por “concessão irregular” enquanto oligopólios operam concessões públicas como propriedade privada há décadas.

Internet prometeu democratização. Entregou fragmentação. Algoritmos de redes sociais substituíram editores de jornal, mas exercem controle similar: decidem o que você vê com base em maximizar engajamento, não informar. Fake news proliferam porque indignação gera cliques. Polarização aumenta porque confronto retém atenção. Concentração continua: Google, Meta, Twitter nas mãos de bilionários que moldam fluxo informacional global.

O problema não é mídia ruim versus mídia boa. É propriedade privada da produção simbólica. Enquanto informação for mercadoria produzida por quem lucra com sistema atual, narrativa dominante sempre legitimará esse sistema. Objetividade jornalística é mito. Perspectiva de classe bilionária apresentada como senso comum universal.

Alternativa não é regular melhor mídia corporativa. É construir mídia sem donos. Comunicação horizontal, autogerida, financiada por quem consome, controlada por quem produz. Experiências existem: rádios livres, TVs comunitárias, coletivos de mídia ativista. São reprimidas precisamente porque demonstram que comunicação não precisa de magnatas.

Realidade não cabe em manchete. Conflitos são complexos, interesses são antagônicos, verdade é disputada. Mídia corporativa achata tudo em narrativa única, digerível, vendável. Dissenso vira barulho. Alternativa vira utopia. Revolta vira vandalismo.

Você não vai encontrar libertação em noticiário de bilionário. Vai encontrar versão da realidade que mantém bilionário no poder.

Questione não só a notícia. Questione quem escolheu noticiá-la.

Veja mais texto da série Desnaturalizar o Poder.

Mídia: quem controla a narrativa controla a realidade
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