
Por ICN – Fenikso Nigra
No país de Mansidão, ninguém batia portas — fechavam-nas devagar, como quem pede licença ao ar. Se dois carros se encostavam no trânsito, os motoristas desciam, pediam desculpas um ao outro e, às vezes, agradeciam pelo “encontro”. As seguradoras quase faliram por falta de uso.
Diziam que a fundação do país vinha de antigos conselhos espirituais: oferecer a outra face, perdoar setenta vezes sete, cultivar a paz acima de tudo. O povo levou tudo ao pé da letra. Quando a chuva alagava as ruas, ninguém reclamava — “a água também precisa de espaço”, diziam. Quando o padeiro esquecia o sal no pão, os clientes mastigavam em silêncio, refletindo sobre o desapego.
À primeira vista, era um paraíso. Zero brigas de vizinhos, zero gritos em repartição, zero discussões na internet. Os telejornais tinham cinco minutos e terminavam com receitas. A polícia virou guia turística. Os tribunais, bibliotecas.
Mas, outro dia, sentei-me na praça central e reparei: a estátua do fundador estava inclinada, rachada na base, prestes a cair. As pessoas notavam, comentavam com serenidade — “é a impermanência” — e seguiam caminho. Um senhor escorregou perto do lago; levantou-se sozinho, molhado, enquanto os outros observavam com respeito à sua experiência pessoal com o chão.
Foi quando uma criança apontou para a estátua e perguntou: — Se ela cair, vai machucar alguém. Por que ninguém conserta?
Os adultos trocaram olhares tranquilos. Não era costume intervir. Interferir podia ser violência contra o curso natural das coisas.
A criança foi lá e empurrou a base torta de volta ao lugar, com esforço e teimosia. Alguns se assustaram. Outros agradeceram em voz baixa.
Naquele dia, entendi que Mansidão vivia num fio: entre a paz e a inércia, entre a fé e a fuga. Talvez a verdadeira não-violência não fosse a ausência de ação, mas a escolha cuidadosa de agir sem ferir.
A estátua continua de pé. E, de vez em quando, vê-se alguém reclamando do pão sem sal — sempre com gentileza, mas já é um começo.





