
Por Akracia – Fenikso Nigra
Sindicatos deveriam assustar patrões. Deveriam ser instrumentos de luta direta, organização operária autônoma, poder dual que desafia a propriedade privada. Alguns foram. A maioria virou outra coisa: burocracia que negocia migalhas, correia de transmissão entre capital e trabalho, amortecedor de conflitos que poderiam explodir o sistema.
A história do sindicalismo é história de uma traição continuada — mas não inevitável. É história de disputa: entre sindicalismo revolucionário e sindicalismo pelego, entre organização por baixo e cooptação por cima, entre greve selvagem e acordo de cúpula.
No final do século XIX e início do XX, sindicatos eram perigosos. A CGT francesa praticava ação direta e sabotagem. A IWW nos Estados Unidos organizava todos os trabalhadores, sem divisão por ofício, raça ou nacionalidade, com objetivo explícito: greve geral para expropriar capitalistas. No Brasil, a Confederação Operária Brasileira (COB), fundada em 1906, coordenava dezenas de sindicatos anarquistas que promoveram as grandes greves de 1917 e 1919 em São Paulo e Rio de Janeiro, paralisando fábricas, bondes, portos. A CNT espanhola coordenou milhões, coletivizou fábricas e terras durante a Revolução de 1936. Esses sindicatos não pediam aumento salarial. Queriam acabar com salário.
O que aconteceu? Estados e patrões aprenderam que reprimir sindicatos gerava mártires e radicalizava trabalhadores. Mais eficiente era legalizar, regulamentar, domesticar. Criar estrutura legal que permite sindicatos — desde que joguem pelas regras. Brasil, a CLT de Vargas copiou modelo fascista italiano: sindicato único por categoria, atrelado ao Estado, dirigentes controlados. Peleguismo não é desvio brasileiro. É estratégia global de neutralização.
Sindicatos legalizados precisam de registro oficial. Precisam seguir estatutos aprovados pelo Estado. Precisam negociar dentro de marcos legais. Greve vira direito regulamentado — com prazo de aviso prévio, serviços mínimos obrigatórios, proibição de piquetes efetivos. Transformam arma em ritual burocrático. Patrão sabe quando começa, quando termina, quanto custa. Não assusta ninguém.
Dirigentes sindicais viram profissionais. Ganham salário, às vezes melhor que trabalhadores que representam. Mantêm posição negociando, não confrontando. Greve prolongada ameaça receita do sindicato, estabilidade da diretoria, relação com governo. Melhor aceitar proposta “razoável” e declarar vitória. A base quer radicalizar? Diretoria modera. “Momento não é adequado”, “precisamos ser estratégicos”, “vitória possível é melhor que derrota heroica”.
O corporativismo divide. Sindicato de metalúrgicos não se solidariza com sindicato de professores. Cada categoria negocia separadamente, defende privilégios próprios, enxerga outras como concorrentes por recursos. Exatamente o que capital quer: trabalhadores fragmentados, incapazes de agir como classe. Enquanto brigam por migalhas, a mesa permanece intocada.
Centrais sindicais se aliam a partidos, participam de governos, administram fundos de pensão bilionários. CUT brasileira, que nasceu combativa nos anos 1980, virou apêndice do PT, defendeu reformas contra trabalhadores quando o partido governou. AFL-CIO estadunidense apoia imperialismo quando convém. Sindicatos europeus administram cogestão — participam da gestão capitalista em vez de combatê-la.
Mas sindicalismo de base resiste. Greves selvagens acontecem quando trabalhadores param sem avisar diretoria sindical. Piquetes efetivos bloqueiam produção de verdade. Ocupações de fábrica mostram que trabalhadores podem gerir sem patrões. Comissões de fábrica autônomas organizam por fora da estrutura oficial. Cada vez que a base ultrapassa a direção, o sindicalismo revela potencial original.
A questão não é sindicato sim ou não. É que tipo de sindicato. Sindicalismo revolucionário organiza para expropriar, não para negociar permanentemente. Pratica democracia direta em assembleias, não representação burocrática. Usa ação direta — greve, sabotagem, ocupação — não lobby e mesas de negociação. Solidariza-se com todas as lutas, não só da própria categoria. Prepara greve geral expropriadora, não greve regulamentada por direito burguês.
Sindicato de cúpula quer ser parceiro social reconhecido. Sindicato de base quer ser pesadelo do patrão. Um negocia condições da exploração. Outro combate a exploração em si.
Enquanto sindicatos aceitarem legalidade que os domestica, estruturas que os burocratizam, função de amortecer conflito em vez de acirrar — serão contenção, não luta.
Ferramenta só liberta se empunhada para destruir a prisão, não para reformá-la.





