
Por Akracia – Fenikso Nigra
Economia solidária é frequentemente acusada de reformismo. A crítica diz: cooperativas, bancos comunitários e circuitos de troca alternativos não destroem capitalismo, apenas criam nichos paralelos que o sistema tolera ou até incentiva. Pior: podem iludir pessoas com ideia de que é possível viver bem dentro do capitalismo sem destruí-lo.
A síntese anarquista reconhece esses riscos, mas recusa descartar economia solidária. Compreende que construir formas econômicas autônomas no presente é parte da luta, não desvio dela — desde que articulada estrategicamente.
Duplo poder: construir enquanto se destrói
Conceito de duplo poder vem da experiência revolucionária: criar estruturas populares paralelas ao Estado que, ao fortalecerem-se, tornam Estado obsoleto e enfraquecem seu domínio. Sovietes na Rússia, comunas na Espanha, conselhos operários em diversos contextos.
Economia solidária pode operar nessa lógica quando não se limita a criar alternativas de sobrevivência, mas constrói poder econômico autônomo que disputa território com capital. Não é só viver melhor — é construir base material para resistência prolongada.
Diferença crucial: economia solidária como nicho (adaptação ao capitalismo) versus economia solidária como poder dual (disputa com capitalismo). Primeira aceita margem que sistema permite; segunda busca expandir autonomia até inviabilizar controle capitalista.
Quando economia solidária fortalece luta
Reduz dependência do salário: Quem depende totalmente de patrão tem margem menor para greves, ocupações, ações que arrisquem emprego. Cooperativas, hortas comunitárias, redes de troca criam margem de autonomia.
Financia lutas: Excedentes gerados coletivamente podem sustentar campanhas, presos, ocupações. Autonomia econômica libera tempo e recursos para militância.
Experimenta autogestão: Gestão coletiva de cooperativa ensina democracia direta concretamente, com erros e acertos reais, não apenas debate teórico.
Cria redes de solidariedade: Quanto mais densas as relações econômicas autônomas, menos dependência de mercado capitalista. Rede de cooperativas articuladas pode substituir parcialmente circuitos capitalistas.
Isso funciona quando economia solidária mantém vínculo com lutas políticas, não se isola em busca de sustentabilidade empresarial.
Quando vira armadilha
Competição no mercado: Cooperativa pressionada a competir com empresas capitalistas tende a reproduzir exploração interna, precarização, ritmo destrutivo.
Institucionalização: Dependência de editais estatais, certificações, financiamentos externos condiciona autonomia. Estado copta através de regulações.
Profissionalização de gestores: Dirigentes eleitos tornam-se especialistas permanentes, concentram poder, distanciam-se da base.
Isolamento político: Cooperativa focada só em sobrevivência econômica deixa de participar de lutas territoriais, sindicais, antifascistas. Vira empresa autogerida, não instrumento de luta.
Esses riscos não são inevitáveis, mas exigem vigilância permanente e disputa política interna.
Diferença entre economia solidária e empreendedorismo social
Estado e ONGs promovem “empreendedorismo social” e “economia criativa” como solução para desemprego. Discurso é parecido com economia solidária, mas lógica é oposta.
Empreendedorismo social responsabiliza indivíduos por crise estrutural (desempregado deve “criar seu próprio negócio”), incentiva competição entre pobres, mantém lógica de acumulação. Economia solidária de fachada.
Economia solidária autônoma parte de princípios diferentes: propriedade coletiva, solidariedade entre empreendimentos, vínculo com lutas sociais, democracia radical interna. Não busca integrar-se ao mercado, mas criar circuitos alternativos.
Confusão entre ambas não é inocente. Estado promove “economia solidária” domesticada para esvaziar potencial político da economia solidária autônoma.
Articulação com outras lutas
Economia solidária isolada de outros conflitos tende a despolitização. Mas articulada estrategicamente potencializa resistências:
Com lutas territoriais: Cooperativa em território favelado apoia ocupações, resiste a remoções, fortalece organização comunitária.
Com sindicalismo: Trabalhadores demitidos ou em greve criam cooperativas como alternativa a desemprego, mantendo-se na luta.
Com movimentos camponeses: Assentamentos do MST constroem cooperativas agrícolas que financiam luta pela terra e experimentam formas coletivas de produção.
Com antifascismo: Cooperativas podem recusar servir fascistas, apoiar vítimas de violência, financiar autodefesa.
Economia não é esfera separada da política — é terreno de disputa permanente.
Limites estruturais
Economia solidária não substitui necessidade de confronto com capital e Estado. Cooperativas isoladas não acabam com exploração sistêmica. Circuitos alternativos coexistem com capitalismo enquanto este permitir.
Ilusão seria achar que basta expandir cooperativas até capitalismo desaparecer pacificamente. Capital tolera economia solidária enquanto ela for marginal. Se ameaçar acumulação real, repressão virá — econômica (concorrência desleal, sabotagem) ou política (fechamento forçado, criminalização).
Economia solidária é ferramenta, não estratégia completa. Constrói base material para resistência, mas não dispensa enfrentamento político direto.
Escala e articulação
Cooperativa isolada tem pouco poder. Rede de cooperativas articuladas territorialmente começa a criar circuito autônomo. Federação de redes em escala regional disputa seriamente com capital.
Síntese pensa economia solidária federativamente: cooperativas autônomas articuladas por solidariedade, não por hierarquia. Não é central que planeja tudo, mas coordenação que potencializa cada parte.
Exemplos históricos: cooperativas na Revolução Espanhola não eram ilhas, eram rede articulada que abastecia milícias, resistia a bloqueios, sustentava comunas. Makhnovitchina organizou produção agrícola coletivamente para alimentar exército insurrecional e população civil.
Escala muda qualidade: deixa de ser sobrevivência marginal, vira poder econômico real.
Tecnologia e autonomia
Plataformas digitais cooperativas (Uber cooperativo, deliveroo autogerido) tentam disputar economia de aplicativos. Desafio: tecnologia exige investimento alto, algoritmos são complexos, efeito de rede favorece grandes plataformas.
Mas experiências existem: cooperativas de entregadores, redes de transporte autogeridas, plataformas de venda direta produtor-consumidor. Não substituem completamente capitalismo digital, mas criam brechas de autonomia.
Questão não é se tecnologia serve ao capital (serve), mas se pode ser apropriada para fins autônomos. Síntese não fetichiza nem recusa tecnologia — pergunta: a quem serve, quem controla, que relações sociais produz.
Por que economia solidária importa na América Latina
Informalidade massiva, desemprego estrutural, precarização são realidade para maioria. Economia solidária não é escolha ideológica, mas necessidade material.
Comunidades já praticam: feiras populares, trocas, mutirões, fundos rotativos. Economia solidária anarquista dialoga com essas práticas, fortalece-as politicamente, articula-as federativamente.
Não é levar modelo pronto, mas potencializar autonomia econômica que já existe, conectando-a com lutas políticas conscientes.
Duplo poder não é metáfora — é construção concreta de relações econômicas que disputam território com capitalismo, sabendo que disputa só se resolve com confronto, mas confronto exige base material que sustente resistência prolongada.
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