Por Akracia – Fenikso Nigra

Individualismo anarquista é frequentemente confundido com egoísmo liberal ou desprezo pelas pessoas. Essa confusão não surge do nada: existem, sim, vertentes “individualistas” que reproduzem isolamento, elitismo e indiferença — coisas incompatíveis com qualquer projeto libertário coletivo.

A síntese anarquista reconhece que o individualismo traz contribuições importantes: defesa da autonomia, crítica ao autoritarismo coletivo, recusa de sacrificar vidas concretas em nome de ideias abstratas. Mas também estabelece limites. Quando o individualismo vira desprezo pelos outros, ele deixa de ser ferramenta de libertação e passa a ser obstáculo.

Dois individualismos diferentes

Individualismo anarquista clássico (como em Stirner ou Tucker) afirma a soberania do indivíduo contra todas as abstrações que exigem obediência: Estado, Capital, Deus — mas também “Sociedade”, “Povo”, “Revolução”. Ele rejeita o sacrifício de desejos e necessidades reais por causas abstratas. Sua proposta central é a união de egoístas: associações livres, baseadas em interesse mútuo, que existem enquanto fazem sentido para quem participa.

Individualismo liberal-misantrópico, por outro lado, usa linguagem parecida, mas opera de forma oposta. Enxerga outras pessoas como obstáculos ou recursos. Despreza o “povo”, fala em “massas ignorantes”, cultiva sensação de superioridade intelectual. Recusa solidariedade por considerá-la fraqueza e transforma isolamento em virtude.

Esse segundo tipo não tem nada de anarquista. Ele reproduz elitismo, desprezo de classe e nega a interdependência humana. É liberalismo radical com estética libertária.

O problema da misantropia

Algumas vertentes individualistas defendem abertamente o desprezo pela humanidade. Dizem que as pessoas são burras, passivas, merecem ser dominadas. O anarquismo, nesse discurso, vira algo reservado a poucos “iluminados” que teriam escapado do rebanho.

Isso é incompatível com o anarquismo por motivos simples:

  • Reproduz hierarquia: divide a humanidade entre superiores e inferiores.
  • Abandona a emancipação coletiva: se a maioria é irrecuperável, não há transformação social possível.
  • Justifica indiferença ao sofrimento: se os outros não importam, por que lutar contra a opressão que os atinge?

Misantropia não é radicalidade. É desistência política disfarçada de lucidez. Recusar a luta coletiva porque “as pessoas não merecem” não é coragem — é fuga.

Contribuições reais do individualismo

Nem todo individualismo leva à misantropia. Há críticas importantes que essa corrente traz para o anarquismo:

  • Alerta contra coletivismo autoritário: grupos também podem oprimir. Assembleias podem virar tirania da maioria. Consenso pode virar pressão para conformidade.
  • Defesa da singularidade: ninguém deve ser forçado a caber em um modelo coletivo.
  • Crítica ao sacrifício permanente: nenhuma revolução futura justifica sofrimento presente imposto.
  • Recusa do moralismo: anarquismo não é catecismo nem código de conduta obrigatório.

Essas críticas são fundamentais para evitar que movimentos libertários reproduzam aquilo que dizem combater.

Limites do individualismo na prática

O individualismo radical encontra dificuldades quando enfrenta lutas reais e prolongadas:

  • União de egoístas vs organização contínua: lutas exigem continuidade, mesmo quando o entusiasmo individual diminui.
  • Compromissos duradouros: sem algum grau de compromisso, estruturas não resistem no tempo.
  • Solidariedade com quem não se conhece: apoiar presos, greves distantes ou comunidades em outros territórios exige solidariedade que não se baseia em laços pessoais imediatos.

Esses limites não anulam o individualismo, mas mostram que ele não basta sozinho para enfrentar estruturas de poder complexas.

O papel do individualismo na síntese anarquista

A síntese não exige que individualistas abandonem sua autonomia nem se submetam cegamente a decisões coletivas. Ela cria um espaço onde podem:

  • Tensionar o coletivo, lembrando que organizações existem para servir pessoas, não o contrário.
  • Participar seletivamente, engajando-se nas lutas que fazem sentido para si.
  • Exercer crítica constante, denunciando hierarquias informais, moralismo e autoritarismo interno.

O que a síntese não aceita é misantropia. Elitismo, desprezo pelos oprimidos e recusa de solidariedade básica são incompatíveis com qualquer federação libertária. Quem se recusa a apoiar companheiros sob repressão porque os considera “inferiores” não está praticando anarquismo.

Autonomia não é isolamento

Autonomia individual significa decidir por si, sem coerção externa.
Solipsismo significa negar a realidade ou a importância da existência alheia.

O individualismo anarquista afirma autonomia sem negar interdependência. Stirner falava em união, não em solidão. Já o individualismo liberal-misantrópico transforma os outros em irrelevantes — isso não é libertação, é empobrecimento social.

Uma tensão necessária

O conflito entre individualismo e organização coletiva não desaparece — e nem deve. Ele é produtivo:

  • Individualistas alertam quando o coletivo sufoca diferenças.
  • Coletivistas alertam quando o individualismo vira egoísmo antissocial.

A síntese mantém essa tensão viva, sem apagá-la artificialmente. Mas traça um limite claro: desprezo pelas pessoas, elitismo e indiferença ao sofrimento não são posições legítimas dentro do anarquismo.

Por que essa demarcação importa

Na América Latina, o anarquismo não pode se dar ao luxo de desprezar o povo. Periferias, favelas, comunidades indígenas e trabalhadores precarizados enfrentam violência diária. Um anarquismo que os chama de “massa ignorante” não é radical — é cúmplice da opressão.

O individualismo que fortalece a luta libertária é aquele que protege singularidades sem romper a solidariedade. A síntese acolhe esse individualismo. O resto, ela recusa.

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Individualismo anarquista dentro da federação: limites e possibilidades
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