
Por Akracia – Fenikso Nigra
Comunismo libertário e coletivismo anarquista compartilham a recusa da propriedade privada e do Estado, mas divergem sobre como organizar a produção e distribuição em uma sociedade livre. Essas diferenças, longe de serem apenas teóricas, têm implicações práticas importantes.
A síntese anarquista não busca resolver esse debate em favor de uma ou outra vertente. Reconhece que ambas oferecem respostas legítimas a problemas distintos, e que sua convivência federativa enriquece o repertório libertário.
Comunismo libertário: de cada qual segundo suas capacidades
O comunismo libertário propõe a abolição completa da troca mercantil. Produção e consumo se organizam pelo princípio “de cada qual segundo suas capacidades, a cada qual segundo suas necessidades”. Não há salário, nem dinheiro, nem medida de trabalho. Comunas autogeridas coordenam a produção; armazéns comuns distribuem bens conforme necessidade.
Essa proposta parte da premissa de que abundância material é possível com tecnologia atual, desde que desperdícios capitalistas (obsolescência programada, publicidade, luxo parasitário) sejam eliminados. A escassez seria artificial, produzida pela lógica do lucro.
O comunismo libertário recusa qualquer forma de equivalência entre trabalho realizado e bens recebidos. Medir contribuições individuais reproduziria desigualdades — quem tem mais habilidades ou saúde receberia mais, perpetuando privilégios.
Coletivismo: remuneração segundo o trabalho
O coletivismo anarquista aceita que, ao menos em período de transição, nem todos os bens estarão disponíveis livremente. Propõe que trabalhadores recebam conforme trabalho realizado, não conforme necessidade. Cada qual contribui segundo capacidade, mas recebe proporcionalmente ao esforço.
Isso não significa retorno ao salário capitalista. Meios de produção são coletivos, gestão é assembleária, não há patrões. Mas o produto do trabalho é distribuído segundo critérios acordados — horas trabalhadas, dificuldade da tarefa, penosidade.
O coletivismo argumenta que igualdade absoluta na distribuição pode gerar injustiças: quem trabalha mais ou em condições mais duras receberia o mesmo que quem se esforça menos. Isso poderia minar solidariedade e gerar conflitos.
Tensão produtiva, não contradição absoluta
Comunistas libertários criticam coletivistas por manterem lógica mercantil disfarçada. Medir trabalho, mesmo sem dinheiro, seria perpetuar mentalidade capitalista de equivalência e cálculo.
Coletivistas respondem que comunismo pleno exige abundância material ainda inexistente. Impor distribuição igual em contexto de escassez geraria ressentimentos que destruiriam solidariedade que se pretende construir.
A síntese reconhece validade em ambas críticas. Não há resposta universal válida para qualquer contexto. Comunidades com alta produtividade e coesão social podem experimentar comunismo pleno. Outras, em situação de escassez ou recém-organizadas, podem precisar de critérios coletivistas de distribuição.
Como síntese articula essa convivência
Em federações sintetistas, comunas comunistas e coletivos coletivistas coexistem. Cada território decide internamente seu modelo de distribuição. Não há imposição de cima.
A articulação federativa ocorre em outro nível: trocas entre comunas, apoio mútuo em situações de crise, compartilhamento de conhecimentos técnicos. Uma comuna comunista pode enviar excedentes para coletivo coletivista enfrentando escassez, sem exigir pagamento. Coletivo coletivista pode compartilhar ferramentas com comuna comunista sem calcular equivalências.
Federação não uniformiza economia interna dos grupos, mas garante solidariedade externa. Pluralismo estratégico permite que diferentes modelos sejam testados simultaneamente, aprendendo uns com outros.
Experiências históricas
Na Revolução Espanhola (1936-1939), coletividades rurais e urbanas experimentaram tanto comunismo quanto coletivismo. Algumas comunas aboliram dinheiro completamente, distribuindo bens livremente. Outras mantiveram vales de trabalho ou distribuição segundo horas trabalhadas. Federação respeitou essa diversidade.
Makhnovitchina na Ucrânia (1918-1921) também conheceu essa pluralidade. Comunas camponesas organizaram-se conforme tradições locais e condições materiais, sem imposição de modelo único pelo Exército Insurrecional.
Essas experiências mostram que uniformidade não é necessária para coordenação revolucionária. Diversidade econômica convive com unidade política de resistência.
Limites e aprendizados
Comunismo libertário enfrenta dificuldades quando aplicado prematuramente. Se abundância não existe e distribuição igual é imposta, pode gerar desperdício (quem pega mais que precisa) ou escassez artificial (quem poderia contribuir mais não o faz por falta de incentivo).
Coletivismo enfrenta risco oposto: medir trabalho pode gerar competição, desigualdades se cristalizam, mentalidade mercantil persiste. Sem horizonte comunista claro, coletivismo pode se acomodar como fim, não como transição.
A síntese não resolve esses dilemas abstratamente. Aposta que experimentação prática, comparação de resultados e aprendizado coletivo encontram caminhos mais eficazes que debates doutrinários intermináveis.
Por que isso importa hoje
América Latina conhece experiências econômicas diversas: comunidades indígenas com distribuição comunal, assentamentos do MST com modelos mistos, cooperativas urbanas com critérios coletivistas. Impor modelo único seria violência contra autonomia local.
Síntese permite que anarquistas participem dessas experiências respeitando suas lógicas próprias, contribuindo com reflexões sem impor dogmas. Comunismo e coletivismo não são programas a serem aplicados, mas referências que ajudam a pensar organização econômica libertária em contextos concretos.
A questão não é qual modelo é mais anarquista, mas como construir autonomia econômica que reduza dependência do capitalismo e do Estado, respeitando que diferentes territórios encontrarão diferentes respostas.
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