
Akracia – Fenikso Nigra
Quando autoridades brasileiras anunciam ajustes fiscais, aumentos de juros ou reformas estruturais, frequentemente apresentam essas medidas como decisões técnicas, necessidades econômicas inevitáveis. Essa narrativa oculta uma verdade fundamental: não existe economia neutra. Cada escolha econômica é, antes de tudo, uma escolha política sobre quem ganha, quem perde e como organizamos a vida coletiva.
A separação entre economia e política consolidou-se como ferramenta ideológica ao longo do século XX. Nas comunidades tradicionais africanas, asiáticas e latino-americanas, assim como nas experiências históricas de organização popular, jamais houve essa divisão artificial. As decisões sobre plantio, colheita, distribuição e armazenamento sempre foram inseparáveis da organização social. A própria expressão “economia política” revelava essa unidade, posteriormente fragmentada para servir a interesses específicos.
No Brasil atual, essa falsa separação manifesta-se cotidianamente. O Banco Central define taxas de juros que determinam se haverá emprego ou desemprego, se famílias conseguirão comprar casa ou pagarão aluguel a vida toda. Apresentam essas decisões como cálculos técnicos sobre inflação, quando na verdade escolhem politicamente entre proteger o valor de aplicações financeiras ou estimular produção e trabalho. Cada ponto percentual carrega consigo destinos concretos de milhões de pessoas.
A “responsabilidade fiscal”, repetida como mantra, exemplifica perfeitamente essa ilusão. Governos afirmam que “não há dinheiro” para educação, saúde ou moradia, enquanto destinam trilhões ao pagamento de juros da dívida pública. Essa não é uma verdade técnica neutra – é escolha política sobre prioridades. Quem recebe esses trilhões? Quem decide que essa dívida deve ser paga integralmente, mesmo quando contraída por regimes autoritários ou através de mecanismos questionáveis? Respostas técnicas mascaram decisões políticas.
As reformas apresentadas como “modernização necessária” seguem o mesmo padrão. A reforma trabalhista de 2017 foi vendida como ajuste técnico para “criar empregos”. Na prática, transferiu poder de negociação de trabalhadoras e trabalhadores para empresas. A reforma da previdência, justificada por cálculos atuariais, ignorou alternativas como taxação de grandes fortunas ou revisão de isenções fiscais concedidas a setores específicos.
Diversas vertentes do pensamento e prática anarquista, embora enfatizem aspectos distintos da organização social, convergem neste ponto: economia e política são inseparáveis. A gestão coletiva de recursos, a organização do trabalho, a distribuição de bens – tudo isso constitui simultaneamente economia e política. Separar esses campos serve apenas para blindar decisões do debate democrático e da ação direta das pessoas afetadas.
Experiências históricas demonstram possibilidades concretas. Durante a Revolução Makhnovista na Ucrânia (1918-1921), comunidades camponesas organizaram produção e distribuição sem aparato estatal separado da vida social. No nordeste brasileiro, comunidades quilombolas mantêm há séculos formas de gestão coletiva onde decisões econômicas são tomadas em assembleias, sem tecnocratas externos ditando “necessidades”. Na Coreia, o movimento Shinminhoe organizou regiões inteiras da Manchúria combinando autogestão econômica e decisão política horizontal.
Reconhecer a unidade entre economia e política não é exercício teórico – é passo necessário para ação prática. Quando percebemos que “ajuste fiscal” significa escolher entre hospitais e bancos, quando entendemos que “taxa de juros” define quem trabalha e quem especula, recuperamos poder de questionar e agir. A suposta neutralidade técnica dissolve-se, revelando relações de poder que podemos contestar.
A tarefa libertária não é substituir uma economia política por outra, mas construir formas de organização onde decisões sobre recursos e trabalho sejam inseparáveis da vida comunitária, tomadas por quem efetivamente produz e vive as consequências. Isso exige desmascarar constantemente a ilusão da neutralidade, expondo os interesses concretos por trás de cada “necessidade econômica” proclamada.
Na luta somos pessoas dignas e livres!





