Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra

Mutualismo e cooperativismo frequentemente são vistos com desconfiança por setores do anarquismo. A crítica é conhecida: cooperativas tendem a se integrar ao mercado, reproduzir a lógica capitalista e evitar o confronto com o Estado. O mutualismo, por sua vez, é acusado de reformismo disfarçado, incapaz de abolir a propriedade privada e as relações mercantis.

A síntese anarquista reconhece esses riscos, mas recusa tratá-los como desvios pequeno-burgueses a serem descartados a priori. Parte do entendimento de que a construção de formas econômicas autônomas no presente é uma dimensão material indispensável da luta libertária, e não um adiamento dela.

O que mutualismo e cooperativismo oferecem

O mutualismo propõe relações econômicas baseadas na reciprocidade direta: trocas sem intermediários, crédito mútuo sem bancos, e propriedade de uso — não especulativa. O cooperativismo, por sua vez, organiza o trabalho sem patrões, com decisões tomadas em assembleias e distribuição coletiva dos resultados.

Essas práticas não aguardam uma revolução futura para começar a existir. Operam no presente, em territórios concretos, respondendo a necessidades reais. Catadores se organizam em cooperativas porque precisam sobreviver. Comunidades criam bancos comunitários porque o sistema financeiro as exclui. Isso não é reformismo — é prefiguração: a tentativa de viver, aqui e agora, relações sociais que rompem parcialmente com a lógica dominante.

A crítica plataformista afirma que cooperativas isoladas não destroem o capitalismo. É verdade. Mas tampouco sindicatos isolados, ocupações isoladas ou qualquer prática isolada o fazem. A questão não é substituir a luta de classes por economia solidária, e sim compreender que a autonomia econômica pode fortalecer a capacidade de resistência e de enfrentamento.

Riscos reais que precisam ser enfrentados

Os riscos são concretos. Cooperativas podem se burocratizar; dirigentes eleitos tornam-se gestores permanentes; a lógica do mercado impõe competição entre cooperativas; o sucesso econômico pode gerar hierarquias internas; o Estado tenta cooptar por meio de editais, certificações e regulações.

Ignorar esses problemas seria ingenuidade. Mas a resposta não é abandonar a construção econômica autônoma — é disputá-la politicamente, tensioná-la permanentemente contra tendências autoritárias, mercantis e estatizantes.

Como a síntese articula economia autônoma

A síntese não exige que todas as organizações priorizem o cooperativismo. Reconhece que diferentes grupos enfatizam diferentes frentes: sindicalismo, ação direta, trabalho territorial, economia solidária. A questão central é como essas práticas se articulam, sem se anularem mutuamente.

Dentro de federações sintetistas, cooperativas podem:

Sustentar outras lutas — recursos gerados em cooperativas podem financiar ocupações, campanhas, apoio a presos políticos. A autonomia econômica libera tempo e energia para a militância.

Experimentar a autogestão concreta — assembleias cooperativas funcionam como laboratórios de democracia direta, onde erros e acertos ensinam mais do que debates abstratos sobre um futuro pós-revolucionário.

Construir redes de economia solidária — cooperativas articuladas formam circuitos alternativos de produção, distribuição e consumo. Quanto mais densas essas redes, menor a dependência do mercado capitalista.

Resistir à precarização — em contextos de desemprego e informalidade massivos, cooperativas permitem a sobrevivência sem subordinação patronal.

A autonomia é preservada: cada cooperativa decide seu funcionamento interno. A federação não legisla sobre a gestão econômica. A articulação ocorre quando há interesse político comum, não por obrigação formal.

Cooperativismo autônomo e empreendedorismo coletivo

Nem toda cooperativa é libertária. Muitas reproduzem exploração interna, hierarquias disfarçadas e competição predatória. O cooperativismo empresarial utiliza a linguagem da autogestão enquanto opera, na prática, como uma empresa convencional.

O cooperativismo autônomo se distingue por alguns critérios fundamentais:

Democracia direta efetiva — decisões tomadas em assembleias, sem concentração de poder em diretorias permanentes.

Solidariedade entre cooperativas — apoio mútuo substitui a competição; cooperativas mais estáveis fortalecem as nascentes.

Vínculo com lutas territoriais — participação ativa em resistências locais, em vez de isolamento orientado pelo lucro.

Recusa da exploração externa — rejeição da contratação de trabalho assalariado para expansão econômica.

Tensões com outras vertentes

Insurrecionalistas argumentam que o tempo investido em cooperativas desvia energia do confronto direto. A síntese responde que a autonomia econômica sustenta confrontos prolongados: quem depende integralmente do salário tem menos margem para assumir riscos.

Comunistas libertários questionam que cooperativas não socializam plenamente os meios de produção, mantendo formas de propriedade grupal. A síntese reconhece o limite, mas sustenta que a propriedade coletiva em escala comunitária representa um avanço real frente à propriedade privada individual, ainda que não constitua comunismo pleno.

Essas tensões não se resolvem teoricamente. Elas coexistem. O pluralismo estratégico parte do princípio de que diferentes contextos exigem diferentes ênfases: territórios rurais podem priorizar cooperativas agrícolas; periferias urbanas, ocupações e serviços coletivos; zonas industriais, o sindicalismo.

Por que isso importa na América Latina

Na América Latina, a economia popular já existe em larga escala: feiras, trocas, mutirões, fundos rotativos, trabalho comunitário. Mutualismo e cooperativismo dialogam com essas práticas sem impor modelos externos.

Experiências como a economia solidária no Brasil, os mercados populares na Bolívia e as cooperativas zapatistas demonstram a viabilidade de formas econômicas não capitalistas operando no presente, sem esperar a tomada do poder estatal.

A síntese reconhece que a autonomia possui uma dimensão material incontornável. Não basta recusar Estado e capital no plano ideológico; é necessário construir meios concretos de sobrevivência que reduzam a dependência deles. Mutualismo e cooperativismo são ferramentas nesse processo — não uma panaceia universal, mas tampouco um desvio a ser descartado.

O lugar do mutualismo e do cooperativismo na síntese
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