Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra

Muitas vezes, organização e insurreição são tratadas como opostas. Para quem aposta em organizações mais estruturadas, ações insurrecionais parecem desordenadas e irresponsáveis. Para quem valoriza a revolta espontânea, organizações soam burocráticas e controladoras.
A proposta da síntese é simples: recusar essa oposição falsa.

É possível se organizar sem domesticar a revolta — e agir de forma insurrecional sem cair no isolamento.

O que a insurreição traz de importante

O insurrecionalismo valoriza a ação direta imediata. Não espera autorizações, eleições, nem um “momento ideal”. Quando a dominação aparece, responde.

Essa postura faz críticas importantes à organização tradicional:

estruturas podem engessar a luta;

reuniões intermináveis podem paralisar;

a busca por consenso pode diluir a radicalidade.

Isso não significa agir sem pensar. Significa reconhecer que a revolta não segue calendário. Grandes levantes da história não nasceram de planos detalhados — surgiram quando a indignação acumulada explodiu.

Organizar, nesse sentido, não é controlar a revolta, mas estar presente quando ela acontece.

Os limites da ação sem articulação

Ao mesmo tempo, agir sempre de forma isolada traz problemas reais:

ações desconectadas são mais fáceis de reprimir;

erros se repetem porque experiências não são compartilhadas;

recursos e esforços se perdem.

Há também uma questão de responsabilidade. Uma ação mal articulada pode trazer consequências para pessoas que não participaram da decisão — moradores de um bairro, trabalhadores, coletivos próximos.

Por isso, recusar toda forma de organização não resolve.

Como a síntese pode ajudar

A síntese propõe uma organização flexível e federativa, que não manda nem controla. Ela não exige que grupos insurrecionais abandonem sua autonomia. O que oferece é um espaço de articulação voluntária.

Nesse espaço, grupos podem:

trocar análises sobre momentos de luta, sem expor detalhes sensíveis;

organizar apoio mútuo, como fundos para presos, redes de solidariedade e comunicação;

aprender com experiências diferentes e ampliar formas de ação;

evitar que a organização vire apenas rotina administrativa.

Ninguém precisa pedir permissão para agir. A articulação acontece porque agir completamente sozinho também é uma armadilha.

Conflitos existem — e isso não é um problema

Diferenças vão aparecer:

grupos insurrecionais podem criticar quando a organização fica lenta demais;

outros coletivos podem questionar ações que geram riscos difíceis de sustentar.

Quando há respeito mútuo, esses conflitos ajudam a evitar dois extremos:

uma organização que só administra e não enfrenta;

uma revolta que explode e desaparece sem deixar nada.

A insurreição lembra que a luta não espera tudo estar pronto.
A organização lembra que, sem continuidade, tudo se perde rápido.

Insurreição não é o mesmo que rejeitar tudo

Algumas correntes rejeitam qualquer forma de organização por princípio. A síntese não faz disso um dogma. Reconhece que a informalidade pode ser útil em certos momentos, mas não transforma a falta de organização em virtude automática.

Grupos insurrecionais dentro da síntese mantêm autonomia total para agir, mas escolhem se articular quando isso fortalece a luta em vez de enfraquecê-la.

Um exemplo prático

Em grandes protestos, isso já acontece na prática:

alguns grupos atuam em enfrentamentos diretos e ações mais ofensivas;

outros organizam alimentação, primeiros socorros e comunicação popular.

Quando a repressão aumenta, a rede articulada pode acionar:

apoio jurídico,

abrigos,

campanhas de solidariedade.

Quem age não precisa obedecer a ninguém para receber apoio.
Quem apoia não precisa controlar cada ação para ser solidário.

Por que isso é importante hoje

A América Latina vive ciclos de revolta: Chile, Colômbia, e muitos outros exemplos. Esses momentos não surgem de planejamento, mas de contradições acumuladas que explodem.

A síntese permite estar nesses momentos:

sem tentar mandar neles;

sem desaparecer quando o refluxo chega.

A insurreição garante resposta rápida.
A organização garante continuidade.

Não existe um único caminho. Revolta e construção acontecem ao mesmo tempo. A síntese tenta articular essas dimensões sem sufocar nenhuma delas.

Síntese e insurreição: como se organizar sem apagar a revolta
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