
Por Akracia – Fenikso Nigra
Dizem que fronteiras existem para organizar o mundo, proteger culturas e garantir segurança. Mas fronteiras não são traços neutros em mapas — são mecanismos de triagem. Elas decidem quem pode circular livremente e quem deve pedir permissão para existir, quem é recebido como “talento” e quem é tratado como ameaça descartável. Fronteiras não protegem povos; protegem privilégios.
A narrativa oficial afirma que os Estados defendem seus cidadãos. Na prática, defendem mercados, mão de obra disciplinada e hierarquias globais. Quem carrega passaporte de países ricos atravessa o mundo sem perguntas. Quem nasce do lado “errado” precisa provar incessantemente sua dignidade, sua utilidade, sua inocência. O direito de ir e vir virou mercadoria: compra-se com dinheiro, com pele clara ou com a nacionalidade “correta”.
A fronteira separa menos países do que classes. Ela permite a circulação de capitais, mercadorias e investimentos, enquanto bloqueia corpos considerados excedentes. Dinheiro atravessa sem barreiras; pessoas são revistadas, interrogadas, detidas e deportadas. Quando empresas exploram territórios e recursos, chamam de globalização. Quando gente busca sobreviver, chamam de crise migratória.
O Estado se apresenta como guardião da comunidade nacional, mas a nação é um mito útil para justificar exclusões reais. Somos ensinados a ver quem nasce fora como inimigo potencial, concorrente por empregos, ameaça cultural. Assim, pobres de países diferentes são colocados para disputar entre si, enquanto proprietários e governantes circulam sem restrições. A fronteira divide quem poderia se unir.
As fronteiras não são iguais — mas servem à mesma lógica
Nem toda fronteira nasce da mesma violência. Há diferença entre linhas traçadas por impérios coloniais que rasgaram territórios indígenas e africanos, fronteiras reivindicadas por povos em luta por autodeterminação, ou acordos entre Estados já constituídos. Mas ainda que suas origens variem, o efeito contemporâneo converge: todas operam como tecnologias de controle que hierarquizam vidas segundo critérios de classe, raça e origem.
Quando um povo colonizado demarca território para se proteger de genocídio, não está exercendo a mesma violência que um Estado imperial patrulhando suas fronteiras para preservar riqueza roubada. Reconhecer isso não invalida a crítica central: mesmo fronteiras nascidas de resistência tendem, sob pressão do sistema estatal e capitalista, a reproduzir lógicas de exclusão. A própria forma-Estado tende a moldar essas fronteiras.
A questão não é negar diferenças históricas, mas questionar se fronteiras — qualquer fronteira — podem existir sem se tornar ferramentas de hierarquia quando inseridas em um mundo organizado por Estados, mercados e propriedade.
A violência como política
A violência das fronteiras é cotidiana e brutal. Muros, cercas, campos de detenção, naufrágios no mar, famílias separadas, vidas perdidas em desertos e rios. Tudo isso é tratado como tragédia inevitável — nunca como consequência deliberada de políticas que priorizam propriedade e soberania sobre a vida humana.
Os argumentos dominantes justificam essa violência: capacidade limitada de sistemas públicos, proteção de direitos trabalhistas, preservação de coesão social. Mas esses argumentos raramente examinam por que recursos são escassos quando se trata de acolher gente, mas abundantes para subsidiar corporações; por que se protegem salários locais criando hierarquias raciais em vez de organizar trabalhadores além-fronteiras; por que “coesão social” sempre exige excluir os demais, nunca partilhar poder.
Quando alguém morre tentando atravessar, o sistema não lamenta; reafirma a necessidade de “mais controle”.
A crueldade não é falha — é o método.
Fronteiras internas
Também dentro dos países existem fronteiras invisíveis. Entre bairros ricos e periferias, entre zonas policiadas e zonas abandonadas, entre espaços onde certos corpos são bem-vindos e outros suspeitos. Documentos, câmeras, checkpoints informais, olhares que vigiam. A lógica é a mesma: filtrar quem pertence e quem deve ser mantido à margem.
Essas fronteiras internas revelam algo fundamental: o problema não está apenas nas linhas geográficas, mas na lógica que as sustenta. Uma lógica que transforma diferença em hierarquia, que valoriza acumulação sobre vida, que arma uns contra os outros para proteger os privilégios de poucos.
O falso dilema
Dizem que sem fronteiras haveria caos. Mas o verdadeiro caos é o presente: riqueza sem fronteiras e gente sem direitos; bens circulando livremente enquanto vidas são barradas; solidariedade criminalizada enquanto exploração é legal. O problema não é a ausência de ordem — é a ordem que valoriza mercadorias acima de pessoas.
Dizem também que livre circulação destruiria culturas e autonomias locais. Mas culturas sempre se transformaram pelo contato — é a dominação colonial e capitalista que destrói, não o movimento de gente. E autonomia verdadeira não se constrói com muros que mantêm pobres divididos, mas com organização horizontal que desafia quem acumula poder.
A tensão real não é entre mobilidade e comunidade. É entre comunidades autogeridas que acolhem quem chega e Estados que impõem pertencimento burocrático; entre redes de apoio mútuo construídas por quem vive junto e hierarquias mantidas por quem governa à distância.
Caminhos que já existem
Questionar fronteiras não é negar culturas ou diferenças; é recusar a hierarquia global que transforma lugar de nascimento em destino. É afirmar que ninguém é ilegal, que deslocar-se é necessidade humana, que viver não pode depender de carimbos, vistos ou permissão de burocratas armados.
Já existem práticas que apontam outros caminhos: redes de acolhimento a migrantes organizadas por comunidades, cidades-santuário que se recusam a cooperar com deportações, movimentos transnacionais de trabalhadores que se apoiam além das linhas no mapa, ocupações urbanas que abrigam pessoas deslocadas sem exigir documentos, coletivos que oferecem tradução, orientação jurídica e moradia por meio de solidariedade direta, assembleias de bairro que integram recém-chegados nas decisões coletivas.
Essas experiências são localizadas, frágeis diante do poder estatal, frequentemente reprimidas. Mas revelam algo essencial: pertencimento pode ser construído sem muros. E mais — mostram que a verdadeira ameaça à autonomia coletiva não vem de quem chega buscando vida digna, mas de Estados e mercados que exigem submissão em troca de sobrevivência.
Escalar a hospitalidade, não o controle
O desafio não é pequeno: como práticas locais de acolhimento poderiam se generalizar sem criar novas burocracias? Como garantir que recursos sejam partilhados sem que isso seja gerenciado por Estados ou concentrado por mercados?
A resposta não está em um plano-mestre, mas em princípios de ação: federação horizontal entre comunidades autogeridas que compartilham recursos sem hierarquia central; expropriação da riqueza acumulada para garantir que acolher não signifique escassez imposta, mas redistribuição justa; destruição das fronteiras que dividem trabalhadores enquanto se constroem redes de solidariedade que atravessam territórios.
Isso exige confrontar não apenas fronteiras nacionais, mas todo o sistema que as sustenta: propriedade privada que concentra terra e moradia, Estados que administram escassez artificial, capitalismo que lucra com a divisão. Não há fronteiras abertas sob hierarquia — há apenas seleção de quem pode circular. A livre circulação real é inseparável da abolição das estruturas que transformam movimento em privilégio.
Pertencimento sem propriedade
Fronteiras servem ao mesmo princípio que o Estado, o mercado e a propriedade: separar para dominar. Dividem para que não nos reconheçamos como iguais. Classificam para que aceitemos desigualdades como naturais. Militarizam para que o medo substitua a empatia.
A liberdade real não cabe em mapas desenhados por impérios. Ela começa quando recusamos a ideia de que a vida vale mais de um lado da linha do que do outro. Quando entendemos que nossa luta é comum — contra Estados que nos controlam, mercados que nos exploram e fronteiras que nos hierarquizam.
Construir um mundo sem fronteiras não é abstrair diferenças, mas recusar que diferenças justifiquem dominação. É reconhecer que todas as pessoas que habitam um território têm direito igual de decidir sobre ele — não por nascimento ou documento, mas por viver ali. É afirmar que comunidade se faz na partilha cotidiana, não na exclusão burocratizada.
Nenhuma pessoa é estrangeira à terra onde pisa.
Estrangeiros são os muros, as cercas, os passaportes e as armas que os defendem.
Na luta somos pessoas dignas e livres.
Sem muros, sem passaportes, sem fronteiras — pela vida em comum.





