
Por Akracia – Fenikso Nigra
Dizem que a autoridade é necessária porque as pessoas seriam caóticas por natureza. Essa história não apenas inverte a realidade — ela a legitima. Não obedecemos apenas porque seríamos perigosos; obedecemos sobretudo porque fomos ensinados a ser governáveis. A autoridade raramente nasce do consenso — ela é produzida, treinada, ritualizada e incorporada até parecer natural. Antes de perguntar quem deve mandar, é preciso perguntar por que aceitamos determinadas formas de comando e quem se beneficia dessa aceitação.
Obedecer não é um ato puramente individual; é uma relação social estruturada. Desde cedo aprendemos que segurança vem de seguir ordens, que proteção exige submissão, que disciplina vale mais que autonomia. Na escola, no trabalho, na família e nas instituições, somos treinados a reconhecer hierarquias e a internalizar seus limites. O medo da punição molda comportamentos, mas é a promessa de recompensa que consolida a obediência: notas, promoções, reconhecimento, “respeito”. Assim, o poder não precisa estar sempre armado — ele se incorpora em nossas expectativas, nossos hábitos e nossos medos.
Nem toda autoridade opera do mesmo modo. Há a autoridade coercitiva do Estado que pune, a autoridade institucional da escola que molda, a autoridade “técnica” que prescreve, e formas de liderança baseadas em reconhecimento. Coordenação e conhecimento podem ser necessários — o problema surge quando essas relações se cristalizam em posições permanentes de mando, opacas e imunes à contestação. A questão central não é “quem sabe mais”, mas quem decide e por quê.
A autoridade mais eficaz é aquela que se torna invisível. Ela se apresenta como técnica, neutralidade, eficiência, profissionalismo. Não é o chefe que manda — são “as regras da empresa”. Não é o Estado que oprime — é “a lei”. Não é o mercado que impõe — é “a realidade”. Quanto mais impessoal o comando, menos questionável ele parece. A despersonalização do poder transforma escolhas políticas em fatalidades técnicas, e assim protege a dominação sem precisar nomeá-la.
No cotidiano, obedecemos mesmo quando sabemos que a ordem é injusta. Cumprimos metas absurdas, aceitamos humilhações, silenciamos diante de abusos, justificamos desigualdades. Muitas vezes não porque concordamos, mas porque avaliamos que o preço da recusa é alto demais: perder emprego, moradia, segurança ou posição social. A autoridade vive dessa chantagem permanente — estabilidade em troca de autonomia. Reconhecer isso não é fraqueza; é entender como o poder opera através de constrangimentos materiais reais, como vimos no trabalho, no mercado e na propriedade.
Também aprendemos a reproduzir a autoridade entre nós. Fiscalizamos comportamentos, cobramos conformidade, denunciamos desvios, exigimos respeito hierárquico. O sistema não precisa vigiar todo mundo — basta que cada qual vigie a si e aos demais. Assim, a dominação se espalha horizontalmente enquanto o poder permanece concentrado no topo.
Mas a obediência nunca é total. Ela é frágil, instável, constantemente produzida e renovada. Uma greve, uma ocupação, uma recusa coletiva podem fazer a autoridade tremer — ainda que enfrentem repressão, cooptação e divisão interna. Quando pessoas descobrem que podem agir juntas sem pedir permissão, o feitiço se rompe. O poder depende de nossa cooperação contínua; sem ela, precisa recorrer cada vez mais à força bruta, revelando sua própria fragilidade.
Questionar a autoridade não é propor caos, nem trocar um chefe por outro. É recusar a lógica que separa sistematicamente quem decide de quem vive as consequências. É construir formas de organização baseadas em responsabilidade compartilhada, deliberação direta e apoio mútuo — onde decisões sejam tomadas por quem é afetado por elas, com transparência e possibilidade real de contestação.
Isso não significa negar coordenação ou conhecimento. Significa rejeitar sua transformação em privilégios permanentes. Sociedades complexas precisam de organização — mas essa organização não precisa ser vertical, opaca e irrevogável. Ela pode ser rotatória, transparente e sempre passível de revogação. Experiências históricas de autogestão — das comunas operárias às cooperativas contemporâneas — mostram que é possível, ainda que com desafios reais: decidir em escala sem excluir, lidar com dissenso sem impor, evitar que novas elites informais se consolidem.
Essas dificuldades não invalidam a busca por alternativas — elas mostram que a ruptura com a autoridade é um processo, não um gesto único. Libertar-se de formas opressivas de autoridade exige romper com a obediência como virtude automática e construir, na prática, capacidades coletivas de autodeterminação. Exige distinguir entre autoridade imposta (baseada em coerção ou privilégio) e autoridade reconhecida, sempre provisória, baseada em competência, confiança e controle coletivo.
A verdadeira pergunta não é “quem deve governar?”, mas como podemos decidir juntas sobre o que nos afeta. Na luta por autonomia coletiva, construímos dignidade e liberdade — não como indivíduos isolados, mas como pessoas capazes de cooperar sem tutelas, sem donos, sem comandos que não possamos questionar.
Na luta somos pessoas dignas e livres!
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