Por Akracia – Fenikso Nigra

Falam em mercado livre como se fosse sinônimo de liberdade humana. Mas o mercado nunca foi livre enquanto existirem hierarquias que forçam pessoas a vender seu tempo para não passar necessidade. Livre é quem pode recusar, quem tem autonomia sobre o próprio sustento, quem não depende da autorização de outrem para existir. Para quem vive sob essa dependência, o mercado é uma jaula disfarçada de oportunidade.

A liberdade exaltada pelo mercado é sempre a liberdade de quem manda sobre quem obedece. Livre para contratar e demitir, livre para impor jornadas e salários, livre para acumular propriedade enquanto outros pagam para morar, circular e sobreviver. Não há troca voluntária quando a alternativa é fome, despejo ou abandono. O que chamam de contrato é coerção administrada.

Chamam isso de concorrência. Na prática, é hierarquia naturalizada. Pessoas disputam migalhas enquanto proprietários, acionistas e rentistas decidem quem terá acesso ao básico. O problema não é apenas quem lucra, mas a própria existência de posições que concentram poder de decisão sobre a vida alheia. Não basta trocar gestores — é preciso abolir a lógica do comando.

Quando empresas exigem algo, recebem subsídios, proteção policial e leis moldadas sob medida. Quando trabalhadores se organizam, enfrentam repressão, demissões e criminalização. O Estado não atua como árbitro neutro; opera como garantidor da ordem de mercado. Privatizar ou estatizar pouco altera se a estrutura permanece: poucos decidem, muitos obedecem.

O discurso do mercado transforma exploração em oportunidade. Se alguém não prospera, dizem que faltou esforço. Se alguém enriquece explorando o trabalho alheio, chamam de empreendedor. Assim, dominação vira mérito e submissão vira escolha pessoal. A violência estrutural desaparece sob a linguagem da responsabilidade individual.

O mercado não responde a necessidades humanas; responde à capacidade de pagamento. Produz abundância onde há dinheiro e escassez onde há gente. Alimentos são descartados por não serem lucrativos enquanto comunidades passam fome. Moradias ficam vazias esperando valorização enquanto famílias dormem nas ruas. Não é falha do sistema — é seu funcionamento normal.

Enquanto aceitarmos propriedade privada e hierarquia como naturais, aceitaremos que nossas vidas dependam da vontade de patrões, senhorios e gestores. Não existe mercado livre quando a sobrevivência é refém de quem controla recursos. Não existe liberdade quando viver significa obedecer.

Questionar o mercado não é propor outro centro de comando; é negar toda forma de comando sobre a vida. Defendemos organização horizontal, apoio mútuo e gestão direta dos espaços que habitamos e dos recursos que produzimos. A liberdade real começa quando deixamos de pedir permissão para existir e passamos a decidir coletivamente, sem patrões nem Estados, como queremos viver.

Na autogestão somos pessoas dignas e livres!

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