Por Leon Tolstoy

(Baseado em um conto de Victor Hugo)

Em uma cabana de pesca, Jeanna, esposa de um pescador, senta-se perto do fogo e conserta uma vela velha. Lá fora, o vento assobia e uiva, e as ondas rugem, espirram e quebram contra a costa. O quintal está escuro e frio, o mar está tempestuoso, mas está quente e aconchegante na cabana de pesca. O chão de terra está varrido; o fogo ainda está aceso no fogão; pratos limpos brilham na prateleira. Na cama com dossel branco abaixado, cinco crianças dormem com os sons dos uivos do mar tempestuoso. O marido, um pescador, desde a manhã saiu para um passeio de barco no mar e ainda não voltou. A mulher ouve o estrondo e o rugido das ondas. Jeanna está com medo.

O velho relógio de madeira com uma batida estridente bateu dez, onze… O marido ainda não voltou. Jeanna pondera. O marido não se poupa, vai pescar no frio e na tempestade. Ela, de manhã até a noite, está ocupada com seu trabalho. E daí? Eles mal se alimentam. E as crianças ainda não têm sapatos, e correm descalças tanto no verão quanto no inverno; e comem pão nem mesmo de trigo, mas felizes por terem o suficiente de centeio. O único tempero para sua comida que eles têm é peixe. “Bem, graças a Deus, as crianças estão saudáveis. Não há nada a reclamar”, pensa Jeanna e novamente ouve a tempestade. “Onde ele está agora? Querido Senhor, salve-o, salve e tenha misericórdia!” — Ela diz e se benze.

Ainda é muito cedo para dormir. Jeanna se levanta, coloca um xale grosso na cabeça, acende a lanterna e sai para ver se o mar ficou mais calmo, se amanheceu, se há luz no farol e se ela consegue ver o barco do marido. Mas não dá para ver nada no mar. O vento está arrancando seu xale e com algo solto bate na porta da casa do vizinho, e Jeanna se lembra que desde a noite queria ir visitar sua vizinha doente. “Não há ninguém para cuidar dela”, — Jeanna pensou e bateu na porta. Escutou… Ninguém responde.

“Ruim é o negócio dessa viúva,” — pensa Jeanna, parada na soleira da porta. — “Embora haja poucas crianças — apenas duas, mas ainda preciso cuidar de tudo sozinha. E então há uma doença! Ah, o caso da pobre viúva. Vou entrar para vê-la.”

Jeanna bateu várias vezes. Ninguém respondeu.

— Ei, vizinho! — Jeanna gritou. “Espero que nada de ruim tenha acontecido,” — ela pensou e empurrou a porta.

Na casa estava úmido e frio. Jeanna levantou sua lanterna para examinar onde estava o doente. E a primeira coisa que seus olhos captaram foi a cama em pé diretamente em frente à porta, e na cama estava sua vizinha, deitada de costas tão quieta e imóvel como só os mortos jazem. Jeanna trouxe a lanterna ainda mais perto. Sim, é ela. A cabeça está virada para trás; em um rosto frio e azulado estava a calma da morte. A mão pálida do morto, como se esticada para algo, caiu e pendurou. E imediatamente, não muito longe da mãe morta, duas crianças pequenas, encaracoladas e de bochechas rechonchudas, cobertas com um vestido velho, dormiam, encolhidas e amontoadas com suas cabeças loiras. Aparentemente, a mãe, antes de morrer, ainda conseguiu envolver suas pernas com um xale velho e cobri-las com seu vestido. Elas respiravam uniformemente e silenciosamente, dormiam doce e profundamente.

Jeanna pega o berço com as crianças e, tendo-as enrolado num cachecol, leva-as para casa. Seu coração bate forte; ela não sabe como ou por que fez isso, mas sabe que não poderia deixar de fazer o que fez.

Em casa, ela coloca crianças sonolentas na cama com seus próprios filhos e abaixa o dossel apressadamente. Ela está pálida e animada. É como se sua consciência a atormentasse. “O que ele vai dizer? — Ela fala consigo mesma, — “Não é brincadeira, cinco dos próprios filhos — ele teve problemas o suficiente para cuidar deles. É ele?… Não, ainda não! E por que ela só os levou! Ele vai me matar! E com razão, eu mereço isso. Aqui está ele! Não!… Bem, graças a Deus!”

A porta rangeu, como se alguém tivesse entrado. Jeanna engasgou e se levantou da cadeira.

“Não. Novamente não há ninguém! Meu Senhor, e por que eu fiz isso? Como vou olhar em seus olhos agora?.. E Jeanna pondera e por um longo tempo senta-se silenciosamente ao lado da cama.

A chuva parou; amanheceu, mas o vento ainda zumbe e o mar ruge como antes.

De repente, a porta se abriu, uma lufada de ar fresco do mar entrou na sala, e um pescador alto e moreno, arrastando atrás de si uma rede de pesca molhada e quebrada, entrou na sala com as palavras:

— Aqui estou, Jeanna!

— Ah, é você! — Diz Jeanna e para, sem ousar levantar os olhos.

— Oh, que noite! Pesadelo!

— Sim, sim, o tempo estava terrível! Bem, como está a pesca?

— Lixo, lixo total! Não peguei nada. Só rasguei a rede. Ruim, ruim!.. Sim, vou te contar, que tempo estava! Não consigo me lembrar de uma noite como essa. Esqueça a pesca! Graças a Deus, cheguei em casa vivo… Bem, e o que você fez aqui sem mim?

O pescador arrastou a rede para dentro do quarto e sentou-se perto do fogão.

— Eu? — Jeanna disse, ficando branca. — E eu… Eu estava costurando… O vento estava soprando tanto que me assustou. Estava com medo por você.

— Sim, sim, — murmurou o marido, — o tempo estava bem ruim! Mas o que você pode fazer!

Ambos ficaram em silêncio.

— Sabe — disse Jeanna —, nossa vizinha Simona morreu.

– Realmente?

— E eu não sei quando; provavelmente, até ontem. Sim, foi uma morte difícil para ela — seu coração doeu pelas crianças! Afinal, ela tinha dois filhos pequenos… Um deles ainda não fala, e outro está apenas começando a engatinhar.

Jeanna parou. Fisherman franziu a testa; seu rosto ficou sério e preocupado.

— Que história! — Ele disse, coçando a cabeça. — Bem, mas o que você pode fazer! Temos que levá-los, porque quando eles acordarem, como se sentiriam perto do falecido? Tudo bem, nós daremos um jeito de alguma forma! Vá então, rápido!

Mas Jeanna não se moveu do assento.

— O que há com você? Você não quer? O que há de errado com você, Jeanna?

— Aqui estão eles — disse Jeanna e abriu a cobertura.

Título: Os Pobres
Autor: Leo Tolstoy
Tópico: ficção
Data: 1908
Fonte: Texto original de RevoltLib.com , 2021.

As Pessoas Pobres
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