Por Akracia – Fenikso Nigra

Desde 23 de fevereiro de 2026, servidores técnico-administrativos de 29 universidades e institutos federais paralisaram atividades. A greve não começou agora. Começou quando o governo descumpriu acordo firmado em 2024. Quando aprovou orçamento que corta R$ 488 milhões das universidades enquanto eleva emendas parlamentares para R$ 61 bilhões.

Os números revelam prioridades.

O orçamento discricionário das 69 universidades federais caiu de R$ 6,89 bilhões para R$ 6,43 bilhões. Queda de sete por cento em valores nominais. Queda maior em termos reais, considerando inflação. Recursos para luz, água, limpeza, segurança, bolsas para estudantes de baixa renda. Funcionamento básico comprometido.

Enquanto isso, emendas parlamentares saltaram de R$ 48 bilhões em 2025 para R$ 61 bilhões em 2026. Crescimento de R$ 13 bilhões em ano eleitoral não é coincidência. É estratégia. Dinheiro que poderia financiar educação pública vira moeda de troca política.

As reivindicações dos servidores são concretas. Cumprimento do acordo de greve de 2024, que previa jornada de 30 horas semanais, reconhecimento de saberes e competências, reposição de aposentados e pensionistas. Nada disso foi implementado. Alguns pontos foram ativamente descaracterizados no Projeto de Lei 6170/2025, aprovado pela Câmara.

Este projeto impõe restrições graves. Veda reconhecimento de saberes para quem está em estágio probatório. Limita a 75% dos servidores ativos a possibilidade de progressão. Exclui aposentados, pensionistas e quem tem doutorado. Exige três anos de intervalo entre pedidos subsequentes. Efeitos financeiros não retroagem à data do pedido.

O governo apresentou projeto como reestruturação de carreira. Categoria enxerga ataque a direitos acordados. A Federação de Sindicatos classificou como “rolo compressor do governo e da Câmara aos servidores”. Linguagem dura reflete frustração com descumprimento sistemático de acordos.

A greve expõe contradição estrutural. Universidades públicas produzem conhecimento, formam profissionais, atendem demandas sociais. Mas dependem cada vez mais de emendas parlamentares, convênios e parcerias privadas para funcionar. Autonomia universitária erode quando orçamento básico não cobre despesas essenciais.

Emendas parlamentares não são neutrais. São direcionadas conforme interesses políticos de quem as propõe. Deputado que destina emenda para universidade em sua base eleitoral cobra retorno político. Reitor que depende dessas emendas negocia em posição fragilizada. Ensino, pesquisa e extensão tornam-se reféns de barganhas eleitorais.

A comparação histórica assusta. Em 2014, recursos para despesas ordinárias das universidades federais correspondiam a 100%. Em 2026, correspondem a aproximadamente 45%. Redução de mais da metade em pouco mais de uma década. Não foi acidente. Foi política deliberada de desinvestimento.

As consequências são conhecidas. Incêndio do Museu Nacional em 2018 resultou de anos de sucateamento. Instalações elétricas precárias, falta de manutenção básica, orçamento insuficiente. O fogo destruiu acervo de valor incalculável. Memória nacional perdida por economia de centavos.

Os servidores em greve não pedem privilégios. Pedem cumprimento de acordos já firmados. Salários da categoria estão entre os mais baixos do Executivo Federal. Levantamento da ASSUFRGS demonstra que trabalhadores da educação seguem com menores remunerações entre servidores federais de nível equivalente.

A mobilização não é uniforme. Das universidades consultadas, 29 aprovaram greve, 15 votaram contra, cinco não deliberaram. Divisão reflete incertezas sobre momento estratégico. Ano eleitoral traz restrições legais mas também pressão sobre governo sensível a desgaste político.

Experiências internacionais mostram modelos diferentes de financiamento universitário. Países nórdicos garantem orçamento público robusto às universidades, calculado em função de matrículas e indicadores de desempenho acadêmico, não de negociações políticas anuais. Chile, após décadas de privatização, viu movimentos estudantis massivos conquistarem gratuidade progressiva através de mobilização direta.

No Brasil, anos 2000 viram expansão significativa de universidades federais. Criaram-se novas instituições, interiorizou-se ensino superior, ampliaram-se vagas. Mas expansão não veio acompanhada de garantia de financiamento sustentável. Quando vontade política mudou, universidades ficaram vulneráveis.

A greve coloca questão central: universidade pública é investimento prioritário ou despesa ajustável conforme conveniência? Quando educação compete com emendas parlamentares eleitorais, resposta fica clara. Universidades perdem.

Alternativas existem. Vincular percentual mínimo do orçamento federal à educação superior, como ocorre com educação básica. Criar fundos específicos blindados de contingenciamento. Estabelecer financiamento plurianual que permita planejamento além de ciclos eleitorais. Tudo isso é tecnicamente viável.

Não acontece por escolha política. Governos preferem manter universidades dependentes de negociações anuais. Permite controle, recompensa aliados, pune opositores. Autonomia universitária existe no papel, morre na prática quando dinheiro para luz depende de emenda de deputado.

Servidores em greve defendem não apenas salários. Defendem modelo de universidade. Pública, gratuita, autônoma, socialmente relevante. Contra modelo que transforma educação em barganha eleitoral, conhecimento em mercadoria, autonomia em subordinação.

A escolha é clara: universidades financiadas adequadamente como política de Estado, ou universidades reféns de negociações políticas ano a ano.

Entre educação como direito e educação como moeda de troca, não há neutralidade possível.

Na luta seguimos — dignos, livres e indomesticáveis.

Universidades em Greve: Educação Pública Como Moeda de Troca
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