Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra

A síntese anarquista não surgiu como ideia abstrata, mas como resposta a impasses concretos vividos pelo movimento libertário no início do século XX. Seu nascimento está profundamente ligado a momentos de derrota, exílio, revolução e disputa interna — situações em que a pergunta central não era apenas “como derrubar o poder”, mas “como manter viva a prática libertária sem reproduzir novas formas de autoritarismo”.

No final do século XIX e começo do século XX, o anarquismo já não era vertente marginal. Ele possuía presença significativa em sindicatos, comunidades camponesas, círculos culturais e movimentos de resistência em várias partes do mundo. Ao mesmo tempo, essa expansão trouxe tensões crescentes entre diferentes formas de compreender a organização e a luta. Alguns setores enfatizavam a centralidade do sindicalismo revolucionário; outros defendiam organização política anarquista mais coesa; outros ainda priorizavam práticas comunitárias, culturais ou insurrecionais.

Essas diferenças se tornaram especialmente agudas após a Revolução Russa de 1917. Para parte do movimento libertário, o bolchevismo revelou o perigo de substituir um Estado por outro, mesmo quando se falava em nome do socialismo. A repressão contra anarquistas na Rússia, incluindo episódios como Kronstadt e a experiência makhnovista na Ucrânia, gerou debates profundos sobre organização, autoridade e estratégia. Militantes como Voline, que vivenciaram esse processo de perto, passaram a refletir sobre como evitar tanto a dispersão impotente quanto a centralização autoritária.

Na França dos anos 1920, Sébastien Faure buscou caminho que não eliminasse as diferenças internas do anarquismo, mas as articulasse de forma federativa. Em vez de escolher uma vertente como “correta” e descartar as demais, ele propôs reconhecer dimensões complementares da luta libertária: a organização coletiva contra a exploração, a ação no mundo do trabalho, a defesa da autonomia pessoal e a crítica às normas opressivas. A síntese não pretendia misturá-las indiscriminadamente, mas criar espaço comum onde pudessem coexistir, cooperar e aprender umas com as outras.

Essa proposta era profundamente política. Ela partia da constatação de que nenhuma vertente, isoladamente, dava conta da totalidade das opressões existentes. A exploração econômica, o patriarcado, o racismo, o colonialismo, o autoritarismo estatal e a dominação cultural não poderiam ser enfrentados por uma única estratégia. A síntese, portanto, emergiu como tentativa de evitar fraturas permanentes e fortalecer a capacidade coletiva de resistência — um guarda-chuva libertário capaz de abrigar diferenças sem anulá-las.

É importante destacar que a síntese nunca foi projeto acabado ou consensual. Desde sua origem, ela foi objeto de debates intensos dentro do próprio anarquismo. Setores plataformistas criticaram a proposta por considerá-la excessivamente flexível e pouco rigorosa em termos de unidade tática. Já setores mais anti-organizacionistas temeram que qualquer forma de articulação federativa pudesse limitar a autonomia individual. Essas tensões fazem parte da própria história da síntese e revelam sua natureza aberta e disputada — não como fraqueza, mas como característica fundamental de uma proposta que reconhece o valor do pluralismo estratégico.


A síntese em terras latino-americanas

Na América Latina, as ideias sintetistas circularam de maneira particular, misturando-se a tradições locais de organização popular que já traziam, em si, práticas articuladoras. No início do século XX, o anarquismo estava presente em sindicatos portuários e ferroviários, sociedades de auxílio mútuo, jornais operários, centros culturais e escolas racionalistas em países como Argentina, Brasil, Uruguai, México e Chile.

Embora nem sempre nomeada como “síntese”, a prática de articular diferentes formas de luta — sindical, comunitária, educativa e cultural — já se aproximava desse espírito. Quando militantes italianos, espanhóis e portugueses chegaram trazendo debates europeus, encontraram terreno onde sindicalistas conviviam com educadores populares, e onde a luta por direitos trabalhistas se entrelaçava com resistências culturais e comunitárias. A síntese não precisou ser “importada” como modelo pronto, mas reconhecida como algo que já acontecia, ainda que sem esse nome.

Um exemplo concreto pode ser visto nas Federações Operárias Regionais Argentinas (FORA) das primeiras décadas do século XX, onde conviviam vertentes que priorizavam a ação sindical direta com outras que defendiam a construção de cooperativas, escolas e bibliotecas populares. Embora houvesse tensões, havia também esforço deliberado de articulação federativa que respeitava autonomias locais.

Ao longo do tempo, a síntese mostrou capacidade de adaptação. Durante as ditaduras militares, ela se manifestou na articulação entre resistência política, trabalho de base comunitário e preservação de memória cultural. Nos anos 1980 e 1990, se fez presente em movimentos camponeses que combinavam luta pela terra com educação popular e práticas agroecológicas. No século XXI, aparece em coletivos feministas que articulam autocuidado, formação teórica e ação direta; em okupas urbanas que combinam moradia, centro cultural e cozinha comunitária; e em comunidades indígenas que articulam defesa territorial, autonomia política e recuperação de práticas ancestrais.

Em cada contexto, o princípio fundamental permaneceu o mesmo: articular diversidade sem suprimir diferenças, reconhecendo que cada vertente traz ferramentas necessárias para enfrentar diferentes faces da dominação.

Por que isso ainda importa

Compreender as origens da síntese é reconhecer que ela nasce tanto da crítica ao autoritarismo estatal quanto da crítica ao sectarismo interno do próprio anarquismo. Ela representa aposta política segundo a qual a liberdade se fortalece quando vertentes distintas aprendem a caminhar juntas, sem abrir mão de suas particularidades.

A síntese não propõe que todas as lutas sejam iguais ou que qualquer estratégia seja válida. Ela tampouco elimina divergências ou conflitos internos — estes continuam existindo e são parte saudável do processo organizativo. O que ela oferece é um método: em vez de fragmentar o movimento em grupos isolados que competem entre si, buscar formas federativas de articulação onde cada vertente mantém autonomia, mas reconhece interdependência com outras.

No próximo texto, será explorado como a síntese funciona na prática organizativa: quais formas federativas ela assume, como se tomam decisões coletivas e de que maneira autonomia e coordenação se equilibram sem recorrer à hierarquia.

Porque a síntese não é apenas memória histórica — ela é ferramenta viva de articulação para lutas presentes e futuras.

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