Por Akracia – Fenikso Nigra

Princípio operacional

A síntese anarquista opera a partir de três eixos interdependentes que se equilibram: federação (estrutura horizontal), autonomia (soberania de base) e coordenação (articulação estratégica). Diferentemente do plataformismo, que busca unidade programática prévia, ou do especifismo, que exige convergência ideológica interna mais definida, a síntese permite que grupos com metodologias distintas cooperem sem abrir mão de suas particularidades.


Federação: uma estrutura sem hierarquia

A federação sintetista não é uma soma de grupos homogêneos, mas uma rede de coletivos diversos que escolhem articular-se. Cada núcleo mantém sua identidade e modo de atuação — pode ser um coletivo de educação popular, uma cooperativa de trabalhadores, um grupo de ação direta ou um centro cultural.

Como exemplo histórico, a Confederação Nacional do Trabalho (CNT) espanhola articulou sindicatos de diferentes setores sem impor uniformidade tática. Cada sindicato decidia suas estratégias conforme a realidade local, enquanto a federação garantia comunicação, apoio mútuo e solidariedade entre lutas.


Autonomia: soberania decisória na base

Autonomia significa que cada coletivo decide internamente seus métodos, ritmos e prioridades. Não há necessidade de pedir autorização à federação para agir dentro de sua própria esfera; a instância federativa existe para articular, não para comandar.

Aqui reside uma diferença crucial em relação ao plataformismo: enquanto este enfatiza “unidade tática” definida coletivamente para todos os grupos, a síntese reconhece como legítimo que um coletivo opte por ocupar um prédio enquanto outro prioriza a construção de cooperativas. As estratégias podem divergir sem que isso implique ruptura ou invalidade mútua.


Coordenação: articulação sem comando

A coordenação é o que distingue a síntese tanto do centralismo quanto do informalismo puro. Autonomia sem articulação tende à dispersão; por isso, a síntese cria espaços e ferramentas para sincronizar esforços quando necessário, sem estabelecer uma autoridade superior.

Entre esses mecanismos estão:

  • Assembleias federativas periódicas, nas quais delegados com mandatos revogáveis levam propostas de seus coletivos e retornam com decisões debatidas em comum;
  • Comissões temáticas (comunicação, finanças, solidariedade internacional, formação), que operam de maneira funcional, sem subordinar outros grupos;
  • Consensos mínimos, baseados em princípios compartilhados como antifascismo, anticapitalismo e antiautoritarismo, sem impor uniformidade estratégica.

Na América Latina, isso pode ser observado em redes de ocupações urbanas: cada ocupação mantém sua dinâmica interna, sua assembleia e sua relação com o território, mas coordena resistências a despejos, troca experiências sobre autogestão e constrói fundos mútuos de apoio.


Tensões produtivas

A síntese parte do reconhecimento de que conflitos entre diferentes vertentes anarquistas são inevitáveis — e, em certa medida, desejáveis. Um coletivo insurrecionalista pode criticar outro por ser excessivamente reformista; um grupo comunista libertário pode questionar práticas mais individualistas. Quando mediadas por respeito mútuo, essas tensões evitam o dogmatismo.

O pluralismo metodológico impede que uma única estratégia se cristalize como “a correta”. Diferentes abordagens testam limites umas das outras, mantendo o movimento vivo, crítico e adaptável. Nenhum método se torna sagrado; todos permanecem sob escrutínio prático e político.


Por que a síntese faz sentido na América Latina

O contexto latino-americano exige flexibilidade e adaptação contínua:

  • Diversidade territorial: realidades urbanas, rurais, indígenas e quilombolas demandam táticas específicas;
  • Repressão variável: há momentos de atuação pública e outros de maior clandestinidade;
  • Movimentos sociais heterogêneos: MST, movimentos indígenas, feminismos e ocupações urbanas operam com lógicas próprias.

A síntese permite que anarquistas participem dessas lutas sem exigir que todos se encaixem em uma fórmula única. Um grupo pode atuar em territórios zapatistas no sul do México enquanto outro trabalha com catadores em São Paulo — ambos trocando experiências e se fortalecendo mutuamente sem contradição necessária.


Limites práticos

A síntese não é uma solução perfeita. Ela exige maturidade política para evitar dois extremos opostos:

  • Dispersão total: quando a autonomia não é acompanhada de coordenação, os grupos tornam-se isolados e perdem força coletiva;
  • Centralismo disfarçado: quando a coordenação se torna excessiva, ela passa a sufocar a autonomia e reproduzir relações de poder.

O equilíbrio entre esses polos não se garante apenas por estatutos ou regras formais, mas por uma cultura organizativa construída ao longo do tempo.


Diferença em relação ao informalismo

Enquanto o informalismo tende a rejeitar qualquer estrutura organizativa, a síntese aposta em estruturas federativas leves — suficientemente flexíveis para não engessar a ação, mas consistentes o bastante para potencializar a ação coletiva. Trata-se de uma organização consciente de seus próprios riscos, e não de uma recusa da organização em si.

Como funciona a síntese na prática: federação, autonomia e coordenação
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