
Por Akracia – Fenikso Nigra
A crença liberal de que capitalismo e democracia caminham juntos é uma ilusão conveniente. A história mostra que o capital prospera sob qualquer forma de poder que garanta sua continuidade — seja ela parlamentar, militar, monárquica ou de partido único. O Chile de Pinochet combinou mercado “livre” com tortura sistemática. A China atual articula expansão capitalista com um Estado autoritário. A Arábia Saudita integra mercados globais enquanto mantém uma monarquia teocrática absoluta.
O que o capital exige não são eleições, mas condições materiais específicas: propriedade privada protegida, trabalho disciplinado, mercados funcionais e um aparato estatal disposto a reprimir resistências. A democracia liberal é aceitável para o capital apenas enquanto mantém essas condições intactas. Quando comunidades e trabalhadores tentam usar mecanismos institucionais para transformar de fato suas vidas, encontram sabotagem econômica, criminalização e violência.
A história está cheia de exemplos: golpes contra Allende, Arbenz e Mossadegh; bloqueios e desestabilizações contra governos eleitos; financiamento de milícias e paramilitares; perseguição a movimentos sociais autônomos. Sempre que a organização popular ameaça privilégios, elites econômicas preferem autoritarismo a qualquer redistribuição real de poder e riqueza. O capital escolhe fascismo aberto antes de aceitar perda de privilégios.
A chamada “democracia burguesa” não existe para libertar — existe para conter. Ela administra conflitos entre elites e neutraliza a participação direta das pessoas. O problema, porém, não é apenas o capitalismo: é também o Estado como estrutura centralizada de dominação. Mesmo sob governos progressistas, a lógica estatal tende a concentrar poder, cooptar movimentos e reproduzir hierarquias.
Por isso, nossa luta não pode se limitar a defender instituições liberais nem a disputar o controle do Estado. Precisamos construir, aqui e agora, formas de vida baseadas na autonomia, no apoio mútuo e na ação direta: sindicatos combativos, assembleias horizontais, redes de solidariedade, cooperativas autogestionadas, territórios organizados desde baixo e comunidades capazes de se defender.
Não queremos trocar um governo por outro — queremos abolir as relações de exploração e dominação que atravessam capitalismo e Estado. Nossa emancipação será obra de nós mesmos, ou não será.
Na luta somos pessoas dignas e livres!





