Por Akracia – Fenikso Nigra

Autodefesa e ação direta são princípios centrais do anarquismo, mas suas formas concretas variam enormemente. Desde sabotagens silenciosas até confrontos de rua, desde desobediência civil massiva até expropriações clandestinas. A síntese reconhece legitimidade dessa diversidade sem hierarquizar táticas abstratamente.

O que unifica essas práticas não é método, mas princípio: recusar mediações estatais, agir diretamente contra opressão, não esperar permissão para defender-se.

Autodefesa não é militarismo

Autodefesa significa proteger-se de agressões sem depender de polícia ou Estado. Pode ser física (confrontar fascistas, resistir a despejos), jurídica (assessoria popular, redes de apoio a presos), comunicacional (contrainformação contra difamação), econômica (fundos mútuos contra repressão).

Militarismo é outra coisa: fetichiza violência, cultua armas, reproduz hierarquias marciais, glorifica confronto pelo confronto. Autodefesa é reativa e proporcional; militarismo é performático e autorreferente.

Síntese demarca essa diferença. Grupos que romantizam guerra, adotam linguagem militar permanentemente ou tratam violência como fim em si não praticam autodefesa — praticam espetáculo viril que aliena mais que fortalece lutas.

Diversidade tática significa escolha contextual

Black bloc em manifestações massivas, sabotagem industrial silenciosa, ocupação pacífica de prédio público, expropriação de mercadorias em supermercados — todas podem ser ações diretas legítimas dependendo de contexto, correlação de forças, objetivos políticos.

Problema surge quando tática vira identidade. Quem só aceita confronto de rua despreza outras formas de ação. Quem só admite desobediência pacífica condena defesa física. Ambos dogmatizam método em vez de pensar estrategicamente.

Síntese permite que diferentes grupos pratiquem diferentes táticas simultaneamente, aprendendo uns com outros sem impor uniformidade. Em mesma manifestação, podem coexistir bloco pacífico, black bloc, ações de propaganda, primeiros socorros — cada qual com papel específico.

Violência: meio, não fetiche

Anarquismo não é pacifista. Reconhece que Estado e capital sustentam-se por violência estrutural massiva — fome, despejo, prisão, assassinato policial. Autodefesa contra essa violência é legítima.

Mas violência não é valor em si. É recurso tático a ser usado quando necessário e proporcional. Sabotagem que inutiliza máquina de empresa poluidora pode ser mais eficaz que confronto de rua. Ocupação pacífica de prédio público pode conquistar mais que quebra de vidraças.

Glorificar violência por si mesma é espelhismo: reproduz lógica do opressor. O que importa não é intensidade da violência, mas eficácia política da ação.

Segurança coletiva contra cultura carcerária

Autodefesa exige segurança operacional: não expor desnecessariamente companheiros, proteger identidades quando necessário, ter protocolos para repressão. Isso não é paranoia — é responsabilidade.

Mas cultura de segurança pode virar cultura carcerária: suspeição permanente, isolamento, ruptura de laços por medo de infiltração. Quando confiança desaparece, movimento morre por dentro antes de repressão destruí-lo por fora.

Síntese equilibra: segurança sem paralisia. Compartimenta informações sensíveis (ações diretas não são discutidas em assembleias abertas), mas mantém transparência política (princípios, análises, estratégias são debatidos coletivamente). Protege quem age sem isolar quem age.

Ação direta versus propaganda pelo ato

Ação direta atinge diretamente problema: ocupar prédio vazio resolve moradia, expropriar alimentos mata fome, bloquear rua para despejo impede remoção. Efeito prático supera efeito simbólico.

Propaganda pelo ato busca impacto midiático ou simbólico: ação espetacular para “acordar massas” ou “inspirar revolta”. Frequentemente resulta em repressão desproporcional sem ganho político real.

Síntese privilegia ação direta com efeito concreto. Aceita que algumas ações tenham dimensão simbólica, mas desconfia de ações puramente propagandísticas que expõem pessoas sem resolver problemas reais.

Legalidade é armadilha

Estado define o que é legal. Aceitar essa definição é aceitar que opressor determina regras da resistência. Greves foram ilegais, quilombos eram ilegais, ocupações são ilegais.

Mas ilegalidade não é virtude automática. Ação pode ser ilegal e ineficaz, ou legal e poderosa. O critério não é relação com lei, mas relação com luta: a ação fortalece autonomia? Enfraquece dominação? Constrói solidariedade?

Síntese recusa moralismo legalista (só ações legais são legítimas) e moralismo insurrecionalista (só ações ilegais são radicais). Legalidade é irrelevante; eficácia política importa.

Autodefesa feminista e antirracista

Autodefesa não é só confronto físico contra Estado. É também mulheres organizando-se contra violência machista, comunidades negras protegendo-se de genocídio policial, pessoas trans defendendo-se de transfeminicídio.

Essas formas de autodefesa exigem táticas específicas: redes de acolhimento, protocolos para situações de violência, espaços seguros, expulsão de agressores sem recorrer a polícia. Não cabem em modelo único de “autodefesa revolucionária” pensado só para confrontos com Estado.

Síntese reconhece multiplicidade de violências, logo multiplicidade de autodefesas. Grupo que defende-se de fascistas em rua e grupo que defende-se de machismo interno no movimento fazem autodefesa — métodos diferentes, princípio comum.

Limites da ação direta isolada

Ação direta sem organização contínua é fogos de artifício: estoura bonito, desaparece rápido. Sabotagem isolada não derruba empresa. Confronto em manifestação não destrói polícia. Ocupação sem apoio comunitário é despejada.

Autodefesa efetiva exige estruturas que a sustentam: redes de solidariedade, fundos para advogados populares, grupos de apoio a presos, memória coletiva que aprende com erros, articulação que multiplica forças.

Síntese não sacraliza espontaneidade. Ação direta potencializa-se quando articulada federativamente, não quando praticada individualmente ou em grupos isolados.

Proporcionalidade e responsabilidade

Ação direta que gera repressão desproporcional ao ganho político é erro tático. Queimar carro de policial pode render manchetes mas desencadear repressão que destrói organização de anos em território.

Isso não é condenar radicalidade — é cobrar responsabilidade. Quem age deve calcular consequências não só para si, mas para outros que dividem território, luta, identidade política. Autonomia para agir não anula responsabilidade pelas consequências que recaem sobre coletivo.

Tensão entre autonomia individual/grupal e responsabilidade coletiva não se resolve abstratamente. Exige maturidade política, comunicação, capacidade de criticar sem expulsar e de assumir erros sem paralisar.

Por que diversidade tática importa

América Latina vive repressão variável: democracias formais que reprimem seletivamente, governos autoritários, milícias paraestatais. Tática única não responde a essa diversidade.

Pluralismo tático permite que movimentos adaptem-se: confronto aberto onde há força para isso, clandestinidade onde repressão é extrema, ocupações massivas onde sociedade apoia, sabotagem silenciosa onde isolamento é grande.

Autodefesa e ação direta não são receitas — são princípios que se materializam diferentemente conforme condições concretas. Síntese mantém princípios firmes com táticas flexíveis.

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