
Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra
Existe um trabalho que sustenta o mundo. Prepara a comida, cuida das crianças, ampara pessoas doentes, organiza a casa, acolhe quem chega destruída do dia. É o trabalho que garante que tudo o mais funcione. E é, em grande parte, trabalho invisível — realizado majoritariamente por mulheres, não reconhecido como trabalho, não remunerado, não contabilizado em nenhum PIB.
Faz parte da estrutura.
A divisão sexual do trabalho — a separação entre o que se espera de mulheres e o que se espera de homens na organização da produção e da reprodução social — não nasceu natural. Foi construída, reforçada e defendida por sistemas que precisam dela para funcionar. O capitalismo depende do trabalho doméstico não pago para se reproduzir. O Estado depende da família como unidade de controle e disciplinamento. Ambos se sustentam na ideia de que cuidar é instinto feminino, e não trabalho humano socialmente necessário.
Desde uma perspectiva libertária, compreender o trabalho exige olhar também para aquilo que torna a própria vida possível. Não existe produção sem reprodução da vida cotidiana — e essa reprodução tem sido historicamente invisibilizada.
As mulheres Sem Terra no Brasil conhecem essa realidade na própria pele. Dentro do próprio movimento, travaram disputas internas para que sua participação nas assembleias, nas decisões e nas lideranças fosse reconhecida como política — não como extensão do papel doméstico. O setor de gênero do MST não surgiu por concessão, mas por pressão organizada de mulheres que recusaram permanecer invisíveis dentro da própria luta.
Na África do Sul pós-apartheid, mulheres das townships que organizaram coletivos de cuidado comunitário — cuidando de pessoas doentes, criando crianças e sustentando redes de sobrevivência — perceberam rapidamente que o novo governo democrático continuava tratando esse trabalho como obrigação silenciosa. A luta não terminou com o apartheid; ela apenas mudou de forma.
A síntese anarquista, composta por múltiplas vertentes que se recusam a hierarquizar opressões, entende que não é possível falar de emancipação do trabalho sem falar de trabalho reprodutivo. Não há revolução que valha se reproduz dentro de si a mesma divisão que afirma combater — se algumas pessoas fazem o café enquanto outras fazem a pauta.
A ação prática começa antes de qualquer grande confronto. Começa ao perguntar quem limpa o espaço de reunião. Quem cuida das crianças para que alguém possa militar. Quem cozinha para a ocupação. E começa, sobretudo, ao recusar que essas perguntas sejam tratadas como secundárias.
Começa também em nomear. Chamar de trabalho aquilo que durante séculos foi chamado apenas de amor, obrigação ou natureza feminina. Não para mercantilizar o cuidado, mas para tornar visível o que foi deliberadamente apagado. Uma economia que não conta o trabalho de cuidado em seus cálculos não está medindo a realidade — está escolhendo o que deseja enxergar.
A autonomia econômica das mulheres não se resolve com promessas de “empoderamento empreendedor” nem com a simples inserção individual no mercado de trabalho nos mesmos termos que o capital oferece. Ela passa pela reorganização coletiva do cuidado, pela redução real da jornada, pelo controle direto sobre os próprios recursos e pela construção de estruturas de apoio mútuo que não dependam nem do patrão nem do Estado para existir.
Transformar o mundo também significa transformar a forma como sustentamos a vida todos os dias. O trabalho que sustenta o mundo precisa ser sustentado por toda a sociedade — e reconhecido como parte central da luta por liberdade.
Na luta, somos pessoas dignas e livres.





