Eu sou a anarquia. Eu lhe dou minhas boas-vindas a este livro. Vou intentar a explicar-lhes muito esquematicamente que a vida que levas pode ser organizada de outra maneira. Para isso vou me valer de ideias denominadas anarquismo. O anarquismo questiona e nega o Poder e a Autoridade. Afirma rotundamente que é possível a vida sem essas abstrações. A única acepção válida para o anarquismo de autoridade é a que emprega essa palavra como sinônimo de ter competência, experiência ou habilidade. E também posso aceptar o poder como sinônimo de possibilidade de levar a término algo pela margem do submetimento de outras pessoas .

Para que compreendas que possas intentar prescindir do Poder, renunciar a dominação, organizar a sociedade sem necessidade de que exista coação nem violência… Ou pelo menos que seria possível reduzir tais fatores, e que eu, a anarquia, posso ser vossa musa, vossa inspiração, vamos retornar aos tempos prévios a aparição dos primeiros Estados. A reconstrução de como vivíamos nos leva até mais de 50.000 anos, e se realiza mediante estudos que mostram por boa suposição de que as atuais sociedades que vivem em níveis de bandos reproduzem aproximadamente o que sucedia naquelas épocas. Não quero idealiza-los a vida desses povos. Seus costumes são muito diferentes segundo qual se trate, e alguns muitas vezes muito questionáveis. Tampouco estou propondo que voltem aos tempos que já passaram. Mas entendo que se desvelamos que forma e que jeito ocorreu a instauração do Poder e a dominação, poderão livrar-se dele e organizar a vida debaixo do signo da liberdade e da utopia. Agora vou mostrar-lhes muito brevemente a estrutura política de um dos chamados povos não estatais.

A vida sem Estado

Somos um bando sem estado formado por umas 20 ou 40 pessoas, sem assentamento fixo, sem chefia, sem propriedade privada. Ainda temos alguns bandos que mantém uma vida forrageira nesta sociedade moderna, condenados a desaparecerem. Vivemos da coleta de alimentos silvestres e da caça. Nossa sociedade é das chamadas igualitárias.

As razões são simples: não podemos ter propriedades, pois temos de carrega-las em nossos ombros. Nossos utensílios são dos materiais retirados do terreno. Deles (madeiras, pedras, fibras vegetais) obtemos todo equipamento que precisamos. Não necessitamos armazéns, já que vivemos mais ou menos para o dia. A totalidade do grupo conhece o necessário para sobreviver e só temos de toma-los da natureza. As ferramentas estão a disposição de qualquer um. A população é pequena e a terra grande.

Homens e mulheres temos direitos similares, mesmo que realizemos tarefas diferentes. Não há chefia, porque nada em sã consciência obedece a quem não dispõe de Poder. O apoio mútuo e a reciprocidade são a base de nossos intercâmbios, e nosso seguro de vida nos tempos ruins. Se aparece alguém com as tendências de mandar, para evitar recrutamentos, impostos e opressão, o ignoramos ou o matamos. E se quem aspira a chefia é demasiado forte ou hábil, nos saímos e formamos outro bando.

Texto traduzido do livro Anarquismo Básico da Fundação Anselmo Lorenço

A anarquia contra o Poder
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