Por José Oiticica em “A doutrina anarquista ao alcance de todos”

Para os partidários do sufrágio universal possui o voto as seguintes virtudes:

a)-É livre delegação da vontade do eleitor a indivíduos que reputa capazes de exercer por ele cargos políticos;

b)-Faz surgir, no país, partidos políticos com programas claros, partidos que fiscalizam os atos uns dos outros impedindo escândalos administrativos, denunciando os responsáveis, etc.

A isso respondemos: a- que os votos raramente são livres, porque 1º- não são conscientes, por não conhecerem a maioria dos cidadãos os problemas nacionais, sempre complexos e vários não votando eles em determinado candidato por ser este competente, mas por empenhos, por partidarismo, pelos reclamos feitos do seu nome, por dinheiro ou por amizade; 2º- o voto cria os partidos e os partidos têm um duplo inconveniente: levam os homens a esquecerem os problemas capitais de interesse coletivo e se esfalfarem, anos a anos, em questiúnculas do partido, em brigas eleitorais: só se mantêm pela disciplina partidária, segundo a qual todo cidadão do partido há de cumpri à risca e aceitar, sem protestos, as decisões do chefe
ou do conselho diretor, conselho esse formado sempre de elementos da classe possuidora; 3º- o voto, sendo uma ilusão, desvia atenção dos não possuidores e dá-lhes uma esperança fictícia, impedindo-os de
procurarem noutras doutrinas a solução exata do problema social, solução forçosamente contrária aos possuidores; 4o- o voto cria o político profissional. Enfim, basta considerar na insistência com que os
possuidores, os políticos profissionais, os exploradores do povo concitam o mesmo povo a votar, apresenta-lhes o voto como chave do problema social, para que desconfiemos dele, pois não iriam os donos da terra despojar-se dos seus privilégios por vontade própria.

O político profissional – Merece especial exame como criação do voto, isto é, do sistema representativo, o político profissional, um dos grandes inimigos das classes proletárias.

Estreiam tais senhores como preposto de políticos importantes ou proprietários influentes. Para subirem no conceito desses chefes, sujeitam se às maiores transigências e descem frequentemente a baixezas, vilanias e crimes. De cabos eleitorais, aliciadores de votantes, se têm alguma instrução, candidatam-se, amparados pelo chefe a vereadores municipais, depois deputados estaduais e, se as manchas políticas o ajudam, a deputados, senadores federais, governadores, ministros. Para obterem
eleitores, entram a prestar serviços, isto é, conseguir, por empenhos, da administração local, estadual ou federal, favores, dispensas, nomeações, concessões, que não conseguiriam licitamente. Forjam, assim, uma roda mais ou menos vasta de indivíduos presos por esse laços duvidosos, os quais, em troco de tais finezas, lhes dão sempre o voto nas eleições. De modo que, geralmente, os votos representam interesses subalternos, pagamentos indiretos a serviços indecentes, nunca, ou mui raramente, opiniões sinceras e pensadas.

Resultado: os políticos profissionais, diretores e manobradores das eleições, montam para seu uso e uso dos patrões, os homens de dinheiro, uma vasta máquina eleitoral que lhes assegure a entrada no parlamento. Tornam-se, na realidade, os únicos verdadeiros eleitores, as guarda avançadas e os testas de ferro dos possuidores. São, pois, inimigos natos, embora blandiciosos, dos não possuidores, dos proletários.
O voto obrigatório – Se o voto, como vimos, é um mal para o trabalhador escravizado aos dinheirosos, pior mal será, logicamente, sua obrigatoriedade.

O interesse máximo dos proletários é a libertarem-se da influência dos políticos, fugir da política, escorraçar das suas associações esses caça votos, enganadores de profissão, cujo principal mister é iludir os pobres com promessas vãs de melhorias.

O voto obrigatório é o meio sugerido por espertos políticos aos donos da terra para forçarem o trabalhador e os homens livres à tutela dos mesmos políticos. O hábito de votar vicia o trabalhador e desvia-lhe a atenção e atividade dos problemas sociais e das reivindicações imediatas. É o que se tem dado na Europa, onde massas densas de proletários, arregimentados em partidos, obedecem cegamente a este ou aquele chefe e se tornam incapazes de pensar por si e estudar as causas de sua miséria.

A máxima fundamental, na luta contra os exploradores do trabalho, é que: a emancipação dos trabalhadores há de ser obra dos mesmos trabalhadores. Não devem confiar, portanto, a sua libertação a braços alheios, sobretudo aos dos seus opressores. Votar, para um trabalhador, é crime e contra o voto obrigatório devem erguer eficaz protesto, praticando a greve do voto.

Males do Voto
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