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É perceptível na história de seu movimento que os princípios anarquistas não são e nunca foram ortodoxos mas estão sempre mudando, corrigindo, melhorando, mantendo acessa sempre uma autocrítica honesta. Não seriam estes os princípios comuns da emancipação do homem e o um norte para aqueles que se consideram cientistas?

Princípios oriundos de uma dinâmica peculiar assimilada dos diversos grupos que praticam o ideário anárquico contra as correntes das diversas tendências ideológicas opressoras que habitam na sociedade e que procuram introjetar nos indivíduos seus valores e discursos, criando um moto continuo da conservação da sociedade opressora de si mesma.

O pensamento libertário, como qualquer pensamento, tem suas delimitações e estas são mais dos indivíduos do que do próprio pensamento libertário e é este uma obra em continua construção/destruição dos indivíduos a ela vinculados e esse é um importante recurso para que os indivíduos reciclem e desenvolvam os seus pensar/ação de uma forma plena e livre na medida que pode romper suas correntes e duvidar de premissas sagradas ou de verdades cientificas, enfim, dos dogmas que povoam a sociedade.

Portanto, uma análise do pensamento anarquista necessita a compreensão dos princípios norteadores do meio anarquista (antigos e novos, as diversas tendências), para que aja um exercício pleno do pensamento empenhado na aquisição de um conhecimento que significa diretamente ação.

É imprescindível também que esta análise tenha sua prova de fogo fora do meio libertário, junto a diversidade social, para que o pensamento libertário mantenha-se vivo, vibrante e sadio pela relação com a sociedade.

Uma não maturação de concepções, pensamentos e doutrinas no bojo da sociedade, implicam no alienamento das mesmas. Este equívoco, esse isolamento fantasioso, transforma modelos explicativos brilhantes, que teriam muito acrescentar a sociedade na sua saga de compreensão, em mofo e letra morta.

Geralmente isso acontece com mais freqüência nas universidades, esses Leviatãs excludentes pela forma de acesso e monopolistas pelo formação e transmissão do pensamento intelectual, elemento este, essencial para o desenvolvimento de qualquer sociedade que almeje respeito e desenvolvimento do ser social coletivo e individual. Os estudantes de todos os níveis deveriam em empenhar-se na democratização do conhecimento que está se acumulando dentro das paredes universitárias, pois a sociedade urge por este conhecimento, agente e germe emancipador por excelência.

Ao contrário destas formas pensamento não maturados e armazenados em delimitados locais de acesso restrito, onde não é admitido a liberdade individual de pensar, isto é, uma ditadura do exercício de pensar; onde o questionamento pleno é uma tarefa comprometida na comprovação da ideologia que defendem e está sobre a vigília de uma burocracia (processos penais, códigos de direito, leis, diretrizes etc), enfim, podendo ocorrer até excomunhão, exílio ou morte e que hipocritamente negam ou assumem tacitamente, veremos que na história dos movimentos anárquicos, ao contrário, não houve este dispositivo por excelência disciplinador (na medida que forma quadros em vez de esclarecer e informar as pessoas participantes) e arbitrário (uma vez que o modelo adotado é projeto de estâncias superiores e alheias ao todo em que pertencem), por justamente identificarem estes dispositivos de poder como produto de uma sociedade doente e destrutiva para com a maioria de seus cidadãos.

Os libertários procuram alternativamente, se harmonizarem e se unirem entre si, apesar das divergências sociais em evidência dos elementos da sociedade e mesmo, dentro do anarquismo. É a razão deste texto, aliás, apresentar as diferenças sociais com base no corpo teórico do anarquismo.

Existem diversos discursos ideológicos de matizes diferentes (leia-se ideologia na forma de omissão de determinados fatos para moldar uma determinada posição ou conservar uma situação especifica) que tentam sempre uniformizar grupos polimorfos (o que é uma rica e preciosa diversidade social, produto de todas as relações humanas sem juízo de valor, se transforma em algumas categorias simples no que justificam “ser o necessário para apreender a sociedade”).

É perceptível que este ato de igualização só ocorre nesses discursos ideológicos-explicativos, apenas neles, é que esta padronização um tanto que forçada é aceita e assim fecham-se cada um em seu círculo ideológico.

Mas além destes muros de ilusões discursivas, é possível deslumbrar-se com várias sociedades com milhares de combinações possíveis (já comentado acima como rica e preciosa), apenas limitadas por mentes limitadas, impossibilitadas intelectualmente de acessar as diferenças sociais, compreende-las e o mais importante, respeita-las.

Contudo, isso não significa para os anarquistas, olhar um mundo de forma linda, sem defeitos, em resumo, como a uma ilusão utópica que muitos procuram vincular ao meio libertário. Chega de mais ilusões, porque a arte de enganar está na propaganda, na venda de produtos supérfluos aos crédulos do mundo do consumo. Está exposto nos jornais, nas notícias distorcidas e preconceituosas, tudo que sabemos e porque queremos mudar, é verificável quotidianamente que o capitalismo mata, destroi e deteriora as relações sociais de uma forma até agora nunca vista. Mas continuemos estas linhas introdutórias, haverá mais momentos de explanação libertária no desenvolver deste texto.

Vários princípios anarquistas estarão sendo abordados de uma forma mais detalhada para melhor compreensão deste texto e na medida que se desenvolve, tentará manter a preocupação de não limitar-se ortodoxamente e por outro lado não ser muito generalizador e superficial.

No entanto, não procurará ao contrário de várias obras anarquistas (de Daniel Guerin, Max Nettlau, George Woodcock etc) explanar o que seria e o que não seria anarquia, formando desta maneira, a circunscrição a qual se coloca o pensamento libertário, ora delimitar e identificar o discurso, principalmente o anarquista é perder em muitos sentidos, sua rica amplitude. Todavia, um discurso implícito existirá, um espectro libertário dará forma às palavras ou este texto não poderia ser feito.

Este exercício dito “cientifico” que muitas das petulantes vertentes (o melhor seria dizer “correntes sufocantes do socialismo”) socialistas se atarefam é criar uma forma de frear as potencialidades revolucionárias da sociedade que transcendem a explicação cientifica, “a ação e o pensamento se complementam” nos diria Proudhon. Talvez não percebam este processo de paralisação por estarem por demais engajados e contaminados por esta necessidade de gerar parâmetros “científicos”.

Não se pode negar as suas diversas contribuições acadêmicas, mas existe uma necessidade urgente de ação no sentido de atuação na sociedade de uma forma mais incisiva e objetiva, ou seja, que rompa com as muralhas da academia, distribuindo para sociedade o monopólio do conhecimento que as universidades guardam para si, em seus grupos de seletos e brilhantes pesquisadores. Uma teoria sem prática de nada serve e uma prática é tão razoável e tão necessária como uma teoria.

É perceptível e descarado para que serve este tipo de formação “esclarecedora” e monopolizada em centros de pesquisa, é a tentativa de gerar dentro dos grupos oprimidos, uma aristocracia intelectualóide esclarecida e pretensamente na vanguarda dos fatos revolucionários por estarem “gerando-os”, dito de outra forma, uma vez que identificam um processo social em que há uma relação de desigualdade, exploração ou abuso de um poder que se diz legitimo, não significa que tenham os méritos ou sejam seus protetores diante do fato “descoberto”.

Ao contrário, é necessário que aja um esforço para que este novo fato consiga ser amplamente divulgado sem a cobrança de direitos autorais ou sentimento de posse, pois afinal queremos abolir a propriedade, esse mal que nos tira a liberdade (e para que serve os muros, as cercas e todo tipo de restrição que dizem ser para assegurar um certo direito? Direito de oprimir e proteger o larápio proprietário em detrimento dos reais produtores de riquezas, os trabalhadores!) e gera degeneração das relações humanas, pois onde era fraternidade, inimizade, e onde era para dividir se tem a ganância, inveja e a acumulação, em suma: roubo e propriedade são sinônimos (Proudhon).

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