O exercício de compreensão com quem nos é diferente é um grande desafio. Mas não podemos por conta disso, enxergar da mesma forma a indústria da carne.

É algo perigosamente danoso para causa vegana. Essa causa é um processo de ruptura com a cultura de extermínio em série dos animais. Como pessoas anarquistas veganas, isso ainda não resolve a questão da exploração e opressão das pessoas, como seres vivos que pertencem a cadeia de produção industrial da carne e não deixarão de serem exploradas e oprimidas se essa mudar sua matéria prima, no caso as carnes de milhões de animais.

As novas pessoas ativistas possuem iniciativa, energia e se engajam principalmente para ação direta, principalmente contra a indústria da carne que é culpada pelo assassinato de milhões de seres vivos, um fato que não podemos negar e nem nos iludir por um discurso moderado e estratégico.

Sim, é imperativo a ação e toda ação, individual e coletiva conta!

Se há a possibilidade de algum tipo de diálogo, que seja feito, mas não podemos transformar isso na única forma estratégica de ação. Propor diálogos com o inimigo, a fim de sua sensibilização, forma de amenizar o veganismo que propõe a abolição da opressão e exploração animal da forma direta.

A construção de pontes sobre abismos é possível, mas não podemos abrir mão da luta direta porque estamos diante de uma indústria que nunca ligou para nossa opinião e que agora, porque há uma “moda” só nutricional do veganismo, querem uma fatia desse mercado, apresentando produtos alternativos para consumo hipster.

Construir e destruir!

Governos com sistemas corrompidos, empresas que colocam o lucro acima de tudo e sociedades nas quais as pessoas colocam os próprios interesses acima de qualquer senso de responsabilidade coletiva fazem parte dos motivos que nos engajamos no veganismo e anarquismo. A construção de nossos conceitos morais e éticos não podem se pautar em amenizar essas coisas, mas de combatê-las sempre, com táticas e estratégias que possam de fato causar impacto de transformação.

A armadilha é pensar que podemos transformar a opressão e exploração apenas com nossa oratória. Isso é falho, é importante que tenhamos uma organização e estrutura de apoio para essa luta. Não precisamos que as pessoas sejam veganas, mas expor o assassinato de bilhões de seres vivos, que o processo de opressão e exploração não vão acabar de um dia para outro porque uma frigorífico produziu uma “carne vegetal”.

Poderia a ação vegana ser parlamentar, onde, nós nos aproximaríamos de pessoas que ainda não são veganas e nunca as julgaríamos por suas atitudes. Ao invés disso, buscaríamos inspirá-las através do nosso exemplo e mostrar, de forma natural, os benefícios do nosso estilo de vida. Em relação às empresas, que sim buscam o lucro, nós mostraríamos oportunidades para elas manterem ou até mesmo aumentarem os lucros com produtos e serviços de qualidade que não dependem de exploração animal. Por meio de recursos legislativos, buscaríamos alternativas para proibir práticas da indústria de exploração animal uma a uma e buscaríamos facilitar a entrada de novas opções veganas de forma acessível para todos.

Isso tudo é uma forma de fazer, muito comum no meio partidário que visam, não o fim da opressão e exploração, mas a manutenção das relações de poder existentes. A ação vegana e anarquista é mais do que isso!

Há uma questão moral urgente que precisa de ação.

As fazendas industriais promovem sofrimento a uma escala jamais vista nesse planeta, tanto em relação a quantidade de seres vivos, quanto em intensidade de sofrimento. Pressionar as instituições corporativas e públicas é fundamental para promovermos mudanças significativas, ao passo que a população também vai mudando a forma como enxerga os animais. Nossa mentalidade necessita de abordagens estratégicas, muitas vezes que vêm de fora da pressão institucional.

O debate com o outro lado

O ativismo vegano precisar se manter focado no diálogo e debates.

Há um enorme conflito entre opressoras e oprimidas, e em neste conflito (há quem negue, mas os cadáveres estão em exposição nas vitrines, mas não é da nossa espécie então pode) é importante que os lados estejam definidos e nossa estratégia seja elaborada para essa luta. Toxico e perigoso é entrar na lábia desses inimigos da vida.

É importante que ativistas não dêem atenção aos grupos que gastam tempo e energia tentando enfraquecer ou desmerecer o trabalho de outros dentro do movimento. Nossa energia deve ser estrategicamente usada para acelerar todos os meios de ruptura com um modelo de exploração, opressão e morte de bilhões.

Se queremos transformar o mundo para os animais e para todas que são oprimidas e exploradas, temos que manter a luta e não arregar frente as grandes corporações e as forças empresariais que vivem da vida de outros seres. Ampliar nossos horizontes e começar a atuar a partir de uma perspectiva mais elevada, inclusiva e estratégica. Firmes em nossas convicções contra a domesticação da luta.

Saber unir forças nos pontos em comum e dialogar com outros grupos do movimento, mesmo com aqueles que pensam e atuam de forma diferente, é fundamental para promovermos transformações significativas, mas isso dentro de uma reciprocidade de compreensão e empatia. A indústria da carne é um grande problema, é vilã e assassina de bilhões. Isso não pode ser mascarado ou passar pano acovardado que enxuga o sangue de nossas irmãs abatidas diariamente para satisfazer um mórbido prazer de morte de uma cultura doente, insana e suicida.

A luta por emancipação de todas as espécies oprimidas e exploradas será feita de todas as formas, com pontes ou jogando os conceitos opressores e exploradores no abismo de suas ignorâncias.

Artigo original no Anarkio 04, acesse aqui!

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