No setor que trabalho a maioria dos trabalhadores e trabalhadoras são terceirizados, ou seja, pertencem a outra empresa. Somos em 18 pessoas que trabalham, sendo 13 delas contratadas através de outro empregador. Enquanto nós temos funções e tarefas definidas em lei, os trabalhadores contratados, embora todos eles com funções também definidas legalmente e constante inclusive em suas convenções de trabalho, tem forçosamente que executar tarefas diversas de seus contratos originais. São contratados como carpinteiros, pedreiros, entre outras funções, mas, tem que soldar pintar, lixar, varrer, etc.
Os Sindicatos a que pertencem esses trabalhadores/as (S.Construção Civil e S. Asseio), não dão a mínima para essa situação. A maioria sequer é sindicalizada, servindo apenas para pagar o famigerado Imposto Sindical para os pelegos dos Sindicatos Fascistas Oficiais. Por força do contrato – pelo menos o que está em vigor em 2013 – esses trabalhadores não fazem horas-extras, mesmo assim muitas vezes são chamados para trabalharem, além do horário normal na semana e mesmo em sábados e domingos, ficando na sequência com dias em haver, os quais podem ser tirados segundo os interesses do nosso empregador, que contrata a Empresa deles.
Suas cargas de trabalho obedecem às 44 horas semanais, enquanto que nós já obtivemos a mais de 20 anos o limite máximo de 40 horas, como jornada semanal. Os trabalhadores/as terceirizados da empresa citada, além de terem salários diferenciados entre si, embora todos cumpram tarefas iguais, percebem salários que na média não ultrapassam dois salários mínimos nacionais. Geralmente quando esses obtêm algum ganho a mais, tipo um quinquênio, logo se tornam “caros” para seus empregadores, o que fragiliza ainda mais sua situação, pois a tendência é serem demitidos sob a rotineira alegação de que não eram mais tão produtivos como no começo de suas atividades.

Pelo porte da empresa terceirizada, número de funcionários e serviços, associados ao fato de a empresa ser mista, público/privada, possui ela Plano de Saúde que atende seus colaboradores. Destaque-se que esse fato é exceção e não regra pois as funcionárias terceirizadas da higienização que atendem também nosso setor, e que pertencem aos quadros de uma outra empresa terceirizada, a qual além de só pagar o salário mínimo, não oferece sequer Plano de Saúde. Elas vem um turno por semana e limpam os escritórios, refeitório, sanitário, vestiário, etc.
Nesse particular cumpre observar o fato de que as trabalhadoras da higienização não percebem mais o adicional de insalubridade, sob a alegação de que o entendimento legal mudou, ou seja, fazer limpeza teria absurdamente deixado de ser insalubre.
Em nosso local de trabalho temos armazenados inflamáveis, sendo que os trabalhadores terceirizados, o grupo citado dos 13, percebe quanto muito o adicional de 20% de insalubridade, quando na realidade trabalham direto sob sol escaldante e nos momentos que ficam no setor – base - estão exposto a risco de incêndio e explosão. Mesmo o pessoal da empresa terceirizadora não percebem mais do que 20% de insalubridade, quando na realidade deveriam estar percebendo periculosidade.
Já faz algum tempo que um dos operários terceirizados pediu verbalmente para seus empregadores que lhes fosse pago um percentual maior de insalubridade, pois trabalhava constantemente em serviços de solda e em altura. Essa demanda resultou em sua demissão, pois sua conduta obviamente destoou do pensamento do empreendedor, bem como vinha servindo de “exemplo negativo” para os demais colegas de serviço terceirizados.
Para os serviços executados por essas trabalhadoras e trabalhadores, observasse também a escassez dos Equipamentos de Proteção Individual, bem como a capacitação básica para os serviços que impliquem em riscos, tipo tarefas em altura. Para o empregador que terceiriza os serviços é tudo de bom, pois economiza um bocado de dinheiro. Os serviços institucionalizados da Empresa terceirizada, SESMET e CIPA, passam ao largo nessas situações e como citamos anteriormente os Sindicatos Oficiais que “representam” os trabalhadores terceirizados simplesmente se apossam dos valores do Imposto Sindical, sem se preocupar com a saúde e segurança dos trabalhadores que em tese representam. Nosso SESMET por outro lado, também exaustivamente apontou os problemas existentes, mas nosso empregador pura e simplesmente os ignora. Nosso sindicato também de viés fascista, evita cobrar assunto tão delicado e nem pensa em comunicar o assunto as tais de autoridades constituídas, pois não querem melindrar nossos empregadores.
O grau de escolaridade dos trabalhadores terceirizados é variado, tendo dois deles já frequentado curso superior, porém tendo que desistir, pois não conseguiram arcar com os custos do ensino praticados em nossa cidade e sobremodo devido a seus baixos salários. Nossa cidade possui várias faculdades e Universidades, porém todas particulares. A quase totalidade não está mais estudando o que tende a representar uma estagnação funcional e técnica, que só favorece o terceirizador e o contratante explorador, pois os trabalhadores ficam sem perspectivas de uma melhor colocação ou de disporem de condições técnicas que lhes possibilite ter outras opções de trabalho. Um deles chegou a realizar no passado, quando estava em outro ramo de atividades cursos no SENAI, mas é exceção, os outros trabalhadores e trabalhadoras não tem qualificação formal alguma, ficando apavorados quando falamos em bitola, diâmetro, fio por polegada, passo de um parafuso métrico, planta baixa, etc.
Essa situação de terceirizar serviços se espraia para outros setores da empresa contratante. Geralmente esses são os mais perigosos, insalubres e penosos. O grau de consciência dos operários é baixíssimo, em regra não participando de qualquer atividade organizativa ou sindical. Bom número ao se desligar da empresa, passam a viver situação mais precária ainda, o que leva aos que permanecem a ficarem ainda mais temerosos de perderem seus empregos. Essa situação também favorece radicalmente os empregadores e os tomadores de serviços que cada vez mais aumentam as exigências por mais produção. É comentário recorrente que já passaram por dificuldades ainda maiores, tendo que trabalhar alguns todos os dias da semana e mesmo a noite, pois atendiam emergências em redes elétricas e telefônicas durante imensos aguaceiros.
Faço esse breve relato no sentido de que nos sintamos desafiados a buscarmos respostas para as dificuldades da grande massa trabalhadora do Brasil. Longe de nós de apresentar respostas fáceis, pois o desafio é imenso, ainda mais que lutamos contra a desinformação dos trabalhadores e com a coerção intimidatória do patronal, o peleguismo fascista dos Sindicatos oficiais.
Caxias do Sul, 02 de dezembro de 2013.
P. A. (texto original em A-Info 27 dezembro/2013)

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