A Plebe – Anno 1 – Num 06 – 21 de julho de 1917

Uma victima heroica

Publicamos a seguir um dos discursos pronunciados por ocasião do enterro do companheiro morto na segunda-feira passada.

Grande heroi:

Apagou-se a grande luz que te aluminava ao sopro da Parca inexorável (mit.gr na mitologia clássica, cada uma das três deusas (Cloto, Láquesis e Átropos) que determinam o curso da vida humana; figurativo morte). Eis-te ahi tombado para sempre, dormindo o eterno sonno, na paz sombria deste cemiterio. Em derredor de ti uma multidão de companheiros sentem o coração opresso por uma saudade pungente. O silencio e a dor divagam por estas viellas soturnas, amortalhadas por nuvens densas, negras e pesadas. Viemos aqui acompanhar-te até a tua derradeira morada, que regaremos com nossas lagrimas sinceras, deplorando não eoncontrarmos palavras que bem traduzam o sentimento que nos causa a tua desaparição dentre nós. Temos a alma confrangida, o coração em pedaços!

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Inflexivel nos teus principios nobres e alevantados, em defesa dos quaes empregaste todos os esforços dos teus verdes annos, tu foste para nós que professamos as mesmas idéas, um abnegado heroe. Tu foste o primeito que, nesta terra, no grave momento actual se offereceu em holocausto á causa que abraçamos.

Perecestes victima de um sociedade engrangrenada, apodrecida, enferma, acima da qual te collocaste. Homens inconscientes que trazem botões dourados e divisas multicores, foram os teus assassinos, cumprindo as ordens de um governo tyranno que garante todos os males que nos infelicitam.

Bello exemplo da energia e de coragem tu nos proporcionaste! Nelle, todos nós haveremos de mirar para, com redobrada bravura, continuarmos a luta em que desde há muito nos envolvemos, em prol do bem estar para todos.

Morreste pela nossa emancipação econômica e social; foste, por conseguinte, um martyr da liberdade que se nos approxima. Por isso, nós te rendemos a nossa homenagem grandiosa.

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Contavas apenas 21 annos de edade. Desabrochavas, portanto, para o porvir que te sorria côr de rosa, sem divisares o clarão sanguineo e a arma assassina que te fez tombar na luta que travaste em beneficio dos que soffrem, que têm fome e que têm frio.

Eras uma parte dessa mocidade, generosa como a solidariedade, garrula como os passarinhos, encantadora como a mulher, ruidosa como a batalha e cheia de scintillações como o céo! … E é por esse motivo que mais ainda choramos a tua morte prematura. O teu nome, porém, a tua obra, a tua imagem emfim, não se apagará da nossa memória e viverá eternamente em nosso coração.

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Grande morto: discipulo fervoroso de Kropotkine, Tolstoi, Reclus, Faure, Ferrer, Malatesta e tantos outros homens illustres; victima das tuas idéas sublimes; servo humilimo da verdade irrecusavel! Tu soubeste levantar bem alto o teu protesto dizendo que precisavamos destruir radicalmente o estado das coisas actuaes! Tu preferiste a morte á uma vida em desharmonia com os teus princípios elevados!

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Sobre a tua fronte aureolada por esse tamanho acto de heroismo, desfolhamos as petalas da nossa saudade inmorredoura!...

 

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